Jorge Waquim
Jorge WaquimFoto: Divulgação

* Por Jorge Waquim

O Brasil é um país enorme, continental. No entanto, muitas vezes, faz parecer que é um país pequeno; pequeno na mentalidade, no projeto, na estrutura, na imaginação política. Essa impressão é decerto corroborada pela facilidade com que se “desliga” o país. Foi assim há uns meses, quando mais da metade do vasto território ficou às escuras, e tudo devido a uma má manipulação por uma empresa estrangeira dos interruptores de energia.

A impressão de ser um país fácil de ser colocado de joelhos está acontecendo neste exato momento, quando uma greve de caminhoneiros contra o aumento súbito do preço do diesel, greve justa em muitos sentidos, vai aos poucos parando todas as atividades nesse rico país. Atividades que, do transporte de grãos ao transporte público nas cidades, das viagens de ônibus às ligações necessárias por avião, dependem da gasolina, do óleo diesel, em resumo, dos motores à combustão. Os caminhões são variáveis essenciais dessa equação, pois o grosso da economia é transportado por eles. Aliás, são as únicas, a política do país não permite que se explorem ferrovias e todos meios de transporte por trilhos, o que seria muito mais racional para um país dessas dimensões.

Claro, pode-se colocar o peso do problema na crise externa, no Irã X EUA, no dólar, na ida da Argentina ao FMI, etc. No entanto, o problema está conosco mesmo, não adianta ficar procurando eternamente um inimigo externo, em algum lugar distante. A verdade é que o país está sempre por um fio. Aeroportos, estradas, educação, hospitais, transportes, parece que vai tudo ruir a qualquer momento, basta uma perturbação um pouco diferente, e o país escoa pelo ralo. Não pensemos nem em uma guerra contra um país qualquer, não daria nem para a saída.

Fazemos uma política de baixa qualidade, toda a estrutura que apoia os destinos de uma nação depende da política em escala nacional e local que se faz. No Brasil, não conseguimos nem manter as ruas livres de água em dias de chuva, os rios são poluídos em qualquer cidade, a educação tem problemas para atingir um nível internacional qualquer. Politicamente, somos um fracasso e a péssima infraestrutura do país não passa do reflexo dessa má política.

Este articulista ainda está na França, e o pais continua em greve contra a novelha política do novelho presidente Macron. No, entanto, o país não vai parar por causa disso. Trens e aviões estão sendo atrasados pela greve que se faz aos poucos e de maneira gradual, mas o pais vai se acomodando aos problemas postos pelo protesto, legítimo e racional.

Não se trata de pôr olhos gulosos em outros países, trata- se apenas de saber o que se faz em outras terras. O que no Brasil não passa de uma utopia, em outros lugares faz parte da realidade. Nossa única saída é melhorarmos nossa política. Há esperança?

* Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre

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