Jorge Waquim
Jorge WaquimFoto: Divulgação

Por Jorge Waquim*

As eleições de outubro são talvez as mais importantes da história brasileira. Sem dúvida pela crise vivida no país, mas também por uma falta de rumo sentida um pouco por todos e compartilhada em diversos cenários do mundo. No entanto, ela tem uma conotação local, pela ausência de propostas políticas sólidas e realistas, pela descoloração dos partidos e pela carência de espírito público entre aqueles que oferecem seus nomes aos cargos eletivos, este último fator é sentido pela população em geral, levando-a frequentemente a estados de desencanto e frustração.

Esta eleição que se aproxima já foi comparada à de 1989, a primeira para presidente após a ditadura de 64. No entanto, nada há de tão díspar como esses dois momentos da história brasileira, separados por quase trinta anos, com a exceção talvez de apenas um pequeno detalhe, sempre presente na política, mas que em 1989 assumiu um caráter particular e que nesta tenta-se evitar. Naquela eleição, havia uma pletora de candidatos de todos os naipes, da esquerda à direita – direita que não se denominava assim, pelo pudor que exigia o espírito de 88 – mas que apresentavam propostas, mesmo que confusas, e atinham-se a posicionamentos políticos visíveis e os defendiam, contrariamente aos de hoje, que vão dando mostras do vazio que se tornou a política brasileira.

Esse pequeno detalhe que une de certa forma, e infelizmente, toda expressão política está na falsificação da verdade, ou na sua manipulação, que muitos chamam eufemisticamente de marketing político. Em 89, o candidato minúsculo de um partido quase fantasma se elevou de uma percentagem irrisória em abril até a vitória no segundo turno. Se hoje a preocupação com as chamadas fake news surge por todo o mundo, Collor, o vencedor das urnas, era fake news “avant la lettre”, isto é, antes que o conceito fosse inventado e popularizado pelas chamadas mídias sociais, inexistentes naquela época. Ele cresceu nas pesquisas a partir da imagem que construiu para si mesmo de “caçador de marajás”, de nordestino sofrido e de político honesto. Marcas no mínimo contestáveis, para um observador atento.

Além disso, a Globo teve papel fundamental na sua vitória, ao manipular a seu favor o debate final com Lula da Silva, o candidato do PT, no jornal da tarde e no jornal nacional, à época quase que a única fonte de notícias para a população. Este articulista já era adulto à época e não deixou de se estarrecer com as edições. Quem não era vivo ou não ainda não era dotado de razão, pode consultar o livro “Notícias do planalto”, de Mario Sergio Conti, para ver como é que foi.

Nos dias de hoje, seria fácil rever o debate e compará-lo com a edição. Todos andam com um computador no bolso, que leva o nome de smartphone, e podem ter acesso a toda informação que precisar, a toda aferição possível dos fatos e a toda a averiguação de notícias falsas. No entanto, não é o que acontece. As notícias se espalham de “amigo” a “amigo” e crescem em verossimilhança estorvando a percepção da realidade. Daí o surgimento do fenômeno das fake news, que iludem as pessoas, fazem-nas acreditar em inverdades e deturpam a ação, como por exemplo o voto, ação fundamental.

A semana que passou foi marcada pelo expurgo de contas ligadas ao MBL, no site Facebook. O “movimento” se tornou notório por promover a desinformação de maneira maciça, por meio de perfis falsos naquele site e possivelmente por meio de “bots”, códigos de computador que simulam a atividade de pessoas. Esse “movimento” já tem sido acusado de ser patrocinado por dinheiro estrangeiro, mas não revela com exatidão a quem serve, faz mais barulho do que o tamanho que tem e seus integrantes ignoram que o Facebook não é espaço público, por não ser nem espaço nem público: trata-se de um software que simula um espaço e é de propriedade privada e estrangeira. O MBL, não nos esqueçamos, foi um dos agentes responsáveis, ou irresponsáveis, por disseminar fake news ligando Marielle Franco, a deputada do PSOL, barbaramente assassinada no Rio de Janeiro, a bandidos.

A verdade de qualquer acontecimento é sempre completamente inalcançável, a linguagem não dá cabo de exaurir o conhecimento que temos do mundo, e as informações são justamente passadas pela linguagem, pelas expressões, pelos textos. Por isso, para a sanidade mental, para a percepção mais justa do mundo e para não cair nas armadilhas das fake News, o discernimento é necessário, a dúvida é a melhor amiga, o debate, insubstituível. Em tempos de explosão de bytes de informação, onde o conhecimento se perde no labirinto confuso de fontes, viver é muito perigoso.

* Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre.

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