Ditadura militar no Brasil
Ditadura militar no BrasilFoto: Wikipedia

Por Alex Ribeiro

O que ocorreu em 1964 foi um golpe sim. Ponto. Houve uma Ditadura Militar no Brasil que perdurou até 1985 caçando mandatos de políticos, juízes e até o habeas corpus foi extinto.

Não havia uma ameaça comunista no país. Nunca houve. As afirmações tão óbvias são mais que necessárias diante de um discurso revisionista que se diz “combater ideologias”. São declarações sem embasamento científico nenhum. São apenas opiniões.

Repito: opinião não é ciência. Não é só fazer pesquisas aleatórias no Google ou admirar afirmações vazias de gurus no YouTube. A ciência é elaborada a partir de contribuições acadêmicas, e eles mostram: houve golpe e ditadura.

Se a ditadura foi apoiada por civis? Sim. A grande maioria por setores que iriam de encontro às reformas de base propostas pelo então presidente João Goulart – que tinha simpatia pelas ideias comunistas, mas também contava com o apoio de outros setores da esquerda que estava cada vez mais pluralizada.

O golpe também não deixa de ser golpe por conta da abstenção de forças políticas. Personagens como Carlos Lacerda chegavam a discursar fora do Brasil que o país estava incerto economicamente. Já o ex-presidente Juscelino Kubitscheck privou-se de qualquer movimentação a favor de Jango. Os dois, JK e Lacerda, eram potenciais candidatos à Presidência da República e a chegada dos militares ao poder era colocada como temporária. E nada melhor do que “arrumação” no Palácio do Planalto para uma oportunidade de assumir o posto máximo do poder público do país. Pois é: os dois foram cúmplices indiretos do golpe.

A corrupção, a desigualdade social, o menor poder de investimento, o cenário de inflação. Todos também são características da Ditadura. Ela não melhorou a vida da maioria da população.

Uma luta armada dos comunistas para assumir o poder antes dos militares é mais uma falácia. A resistência ocorreu depois do golpe consumado por alguns grupos que iriam além das pessoas ligadas ao PCB. O rótulo de terrorista era mais uma narrativa que endureceu a Ditadura. Com isso houve mais episódios de prisões, censura e tortura – chegando a maltratar até crianças.

Vários militares até hoje intitulam o golpe de “revolução de 64” e aqueles que iriam contra o regime eram chamados de agentes da “contra-revolução”. Documentos nunca antes investigados sobre o período, como dos arquivos do Superior Tribunal Militar, revelam que o próprio ato Institucional número 5 foi posto em prática como um plano para estender a Ditadura. Era a medida drástica do governo que não consegue mais esconder seu caráter ditatorial: “Com esse ato estamos vivendo de vez uma ditadura.

Acho que há tempo de uma coisa a ser feita” disse o chanceler Magalhães Pinto, na reunião que definiu a instalação do AI5.

Isso comprova que houve muita repressão. A ditadura foi escancarada, mesmo que não aos olhos vistos da população. Mas quem iria de encontro ao regime era perseguido. Covas coletivas foram descobertas, pessoas ainda se encontram desaparecidas, documentos sumiram, registro de tortura só naqueles que ainda estão vivos e revelaram para as Comissões da Verdade espalhadas pelo país.

Diante dos fatos é impossível não afirmar que houve um golpe. Que não ocorreu uma ditadura. Esconder o que aconteceu naquela época é ir contra a liberdade, aos direitos humanos, aos perseguidos. Uma boa estratégia para os revisionistas é mudar a expressão.

Quem sabe em vez de golpe não falam de “impeachment da democracia”? Seria uma maneira de se iludirem ou esconderem ainda mais com os acontecimentos daquele período. Mas não o suficiente para tornar a ciência perdedora. Os historiadores estarão sempre apostos para lembrar o que muitos fazem questão de apagar da memória.

*Alex Ribeiro é doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia, cientista político pela UFPE e jornalista

assuntos

comece o dia bem informado: