Corrida eleitoral para Presidência da República
Corrida eleitoral para Presidência da RepúblicaFoto: arte/Folha de Pernambuco

O cenário de acirramento que marcou a eleição de 2014 parecia ser um fenômeno isolado na jovem redemocratização brasileira, mas o termômetro das pesquisas de intenção de voto e do clima de tensão nas redes sociais das eleições 2018 aponta para uma nova polarização na corrida presidencial: Jair Bolsonaro (PSL) contra Fernando Haddad (PT).

A contenda, que pode ser interpretada como antibolsonarismo versus antipetismo, traz como ingrediente principal a espetacularização do processo eleitoral, onde importa menos a proposta e mais o clubismo. A tendência será manifestada nas ruas neste fim de semana, quando mulheres tomam a praça do Derby em ato contra o capitão reformado do Exército, neste sábado, enquanto uma carreata de apoiadores do postulante do PSL invade a avenida Boa Viagem, no domingo.

Diante da possibilidade de que um candidato indesejado se eleja, a população toma o espaço público e se manifesta com um discurso onde o tom de oposição ao adversário ganha um eco mais forte. Entra em cena o chamado "Voto do Não", onde o comportamento do eleitor foca na busca de uma opção "menos pior" para o País. Na visão dos especialistas, esse fenômeno enfraquece o debate e põe à prova o sistema democrático, dificultando a renovação política e imondo um ciclo de estagnação democrática, onde outras opções são jogadas à margem da disputa.

É o caso dos candidatos Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) que desidrataram nas pesquisas. A postulante da Rede saiu de 16% para 5%, na última pesquisa Datafolha, enquanto o pedetista estagnou: oscilando de 13% para 11%. Por outro lado, João Amôedo (Novo) não reverte nas pesquisas o engajamento em torno do seu nome nas redes sociais (ele é o terceiro presidenciável com o maior número de seguidores no Facebook: 2.7 milhões) e permanece estagnado com 3%.

Um exemplo é o aposentado Marcos Ribeiro, de 63 anos, que tem preferência pelo voto no empresário do Novo, mas votará em Bolsonaro simplesmente porque o seu postulante preferencial não emplaca nas pesquisas. O publicitário Fernando Pimentel, um dos apoiadores da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) no Estado, diz não acreditar na polarização como está sendo feita, mas garantiu que “jamais” votaria em um candidato petista num eventual segundo turno. Segundo ele, “existe mais a questão ideológica no voto do PT e o fato de você ter algum interesse político”.

Uma das organizadoras da marcha “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, Camilla Serra, declara voto em Ciro Gomes no primeiro turno, mas ponderou que, em um eventual segundo turno sem o seu candidato, “com toda certeza” votaria em qualquer um dos candidatos para derrotar o capitão reformado. Ela acredita que a polarização estaria relacionada ao Lulismo. “O PT ainda é muito forte, o amor por Lula” diz.

O sociólogo Benício Schmidt, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que há nesse embate atual entre Bolsonaro e Haddad um fato novo, que é o candidato assumidamente de direita, com pautas conservadoras e anti-sistema. Segundo o sociólogo, a América Latina viveu 36 quedas de chefes de Estado nos últimos anos, o que põe em xeque a estabilidade da democracia.

Para o pesquisador de Comunicação Fábio Malini, a polarização foi especialmente construída com a ajuda da Internet, onde tanto Bolsonaro quanto Haddad dispõem de "ecossistemas digitais" para dar sustentação aos seus discursos políticos. Na prática, não há verdadeiramente um debate, mas a convivência de bolhas ideológicas que só refletem incomunicabilidade. Dentre os presidenciáveis, Bolsonaro é o que tem maior número de seguidores.

São 8.084.000 seguidores, divididos entre os 5.4 milhões no Facebook, 1.4 milhão no Instagram e 1.24 milhão no Twitter. Fiador da candidatura de Haddad, o ex-presidente Lula (PT) vem em seguida com 4.304.000 seguidores, divididos entre os 3.6 milhões no Facebook, 324 mil no Instagram e 380 mil no Twitter. Malini prospecta que essa eleição pode inaugurar a influência política das redes no mundo "offline". "O bolsonarismo e o lulismo têm ecossistemas de blogueiros, influenciadores, jornalistas que produzem conteúdos sobre as candidaturas. Se os resultados eleitorais confirmarem, os dois partidos de maior fôlego digital chegarão ao segundo turno."

Raio X
O fenômeno do "Voto do Não" é observado nos números da última pesquisa realizada pelo Ibope, em parceria com a CNI, entre os dias 22 e 24 desse mês, na qual o quantitativo de entrevistados que cogitam deixar de votar no candidato de sua preferência para evitar a vitória de outro que não goste, soma 52%. Já os que asseguram que essa probabilidade é baixa ou muito baixa representam 48% do total.

Nesse quesito, os eleitores do Norte, Centro Oeste e Nordeste são os que teriam mais chances de renunciar a sua opção de voto pensando estrategicamente em evitar a vitória do que postulante que rejeita - estes representam 49%, em cada região. Já os representados com menos chances estão no Sul.

A sondagem também mediu o índice de rejeição dos candidatos, questionando em qual deles os entrevistados não votariam de jeito nenhum. Jair Bolsonaro (PSL) é o mais rejeitado, com 44% das menções. Fernando Haddad (PT) aparece na segunda colocação, com 27%, empatado com a ex-senadora Marina Silva (Rede).

No recorte por Região, enquanto o Bolsonaro é mais rejeitado no Nordeste, com 57%; Haddad tem mais citações “contra” a sua vitória no Sudeste, 31%. Quando a análise é feita por condição do município, tanto o militar da reserva quanto o petista têm mais eleitores contrários entre os moradores das capitais, 49% e 30%, respectivamente.

No item idade, os mais jovens, de 16 a 24 anos, são os que mais rejeitam Bolsonaro, 52%. O maior percentual de rejeição a Haddad é demonstrado entre os que possuem entre 25 e 34 anos. Bolsonaro apresenta índices de rejeição regulares em todos os graus de instrução estabelecidos pelo Ibope. Entre os que possuem da 5ª a 8ª série do ensino fundamental, ensino médio e superior, ele registra 45% de rejeição, cada. Já Haddad é mais rejeitado entre os que possuem ensino superior, 40%. No tocante à renda, a sondagem também demonstra que Bolsonaro tem mais rejeição entre os entrevistados que recebem até um salário mínimo e Haddad entre os que têm renda superior a cinco salários mínimos.

assuntos

comece o dia bem informado: