Luciano Siqueira
Luciano SiqueiraFoto: Reprodução/Facebook

Por Luciano Siqueira

Ubaldo, Artemio e Simão são amigos desde o colégio. Há muitos anos, pois quase sessentões. Além da amizade, um hábito que alimentam em comum: a quinta-feira sagrada para uma boa rodada de chope.

Embora não sejam precisamente boêmios, sempre seguiram as regras da boemia: à mesa do bar não se discute religião, família e política.

Seguiam, melhor dizendo. Pois fico sabendo agora por Artemio que, no calor do primeiro turno das eleições presidenciais, caíram na tentação de discutir política e sequer foram até o fim da noite.

Brigaram.

Ubaldo, sempre o mais animado do trio, tornou-se repentinamente ranzinza e irritadiço, acusou os amigos de "petistas enrustidos" por não o seguirem na preferência pelo capitão Bolsonaro.

Simão e Artemio, principalmente Artemio com seu jeito calmo e diplomático, tentaram contornar a situação propondo encerrarem a discussão.

Afinal, há tantos anos respeitando a tácita proibição de levar a política à mesa do chope, bem que poderiam recuperar a amigável disciplina.

Impossível.

Exaltado, Ubaldo recusou-se terminantemente a mudar de assunto.

— Vocês querem fugir da conversa porque não compreendem que o capitão vai salvar o Brasil!

— Só se for para afundar o País numa nova ditadura, reagiu Simão.

Ânimos acirrados, aos gritos, abandonaram a mesa sem sequer se despedirem, para estranheza do garçom Gonçalão que atende os amigos há muito tempo.
Nunca os vira assim. Ao contrário, até se divertia com as anedotas de Simão, as polêmicas sobre o futebol e outras amenidades.

Agora, o segundo turno fluindo, a mesa do cantinho próximo à janela estará provavelmente vazia. É o que prevê Artemio.

Os três amigos estão sem se falar. Até no grupo do WhatsApp dos antigos colegas do Ginásio Pernambucano fazem silêncio. Nada postam. Sequer um bom dia.
A intolerância contamina os três amigos, tanto quanto incendeia as relações interpessoais no Brasil de hoje.

O pano de fundo é a multifacetada crise em que estamos mergulhados, tendo como subproduto o esgarçamento das instituições e a descrença e a desesperança da população.

Terreno fértil para o ressurgimento de um falso Messias brandindo três ou quatro ideias simples mas contundentes, ao alcance do cidadão comum, provocando um ambiente de tensão emocional que se superpõe à razão e ao respeito às diferenças.
A campanha agora é curta. Acontece sobretudo através de entrevistas na TV e nas emissoras de rádio e, de modo intenso, por meio das redes sociais.

Um candidato sempre se disse da extrema direita, o capitão Bolsonaro.

O outro, professor universitário, carrega em seu currículo profissional e político a marca da persuasão, longe de extremismos.

A restauração de um ambiente de respeito mútuo, de apaziguamento social e de convivência democrática é indispensável à mudança de rumos do País, através do voto.

Não será exagero afirmar que o voto da maioria decidirá entre duas tendências opostas: a barbárie e a civilização. 

comece o dia bem informado: