Jorge Walkim
Jorge WalkimFoto: Divulgação

Jorge Walkim, Filósofo na Universidade Paris Nanterre 

A perplexidade a respeito da candidatura Bolsonaro toma articulistas daqui e do mundo, de todos os naipes, de todas as colorações políticas, de todos os azimutes. Claro está que tentam entender o fenômeno, que se não é exclusivo do Brasil, por aqui assume características de ameaça séria e concreta à democracia – a opinião é geral e unânime.

A perplexidade neste e em outros articulistas advém de uma pergunta aparentemente simples: como um candidato que profere tanta sordidez e que pronuncia tantas ameaças conseguiu amealhar essa quantidade de votos e chegar ao segundo turno, com grande probabilidade de vencer o pleito?

Este texto pretensiosamente vai propor que o problema está na confusão da sociedade brasileira em lidar com a modernidade, e que a candidatura de Bolsonaro milita contra e ganha da modernidade justamente se aproveitando dessa confusão.
A confusa modernidade tupiniquim torna-se patente com o discurso que Bolsonaro fez em tempo real a partir de um telefone celular dirigido às pessoas presentes naquele momento em manifestações pelas ruas do país, no domingo 21 de outubro. O discurso bisonho, lançando ameaças de todo tipo – até mesmo a ameaça física a seus opositores, como a anunciar a barbárie que será seu governo –, extrapola tudo o que o pensamento moderno conquistou em termos de direitos humanos e de Estado civilizatório. No entanto, o agudo recurso que faz à tecnologia, transmitindo suas bravatas autoritárias a partir do jardim de sua casa, coloca-o bem no meio da modernidade tecnológica e transforma o Brasil em uma espécie de laboratório daquilo que se tornarão as sociedades hodiernas.

Contrariando essa modernidade tecnológica, há um outro sentido mais importante. Este implica na valorização do indivíduo, atribuindo-lhe valores e direitos, gestados e pensados como uma reação ao feudalismo, que submetia todos a uma ordem hierárquica e dogmática, a partir dos séculos 16 e 17, e desembocando no iluminismo do século 18 e na revolução francesa de 1789.

E por isso mesmo, implica na emergência do indivíduo e na capacidade do ser humano em analisar por conta própria o mundo e sobre ele tirar conclusões. A máxima do filósofo francês, Descartes, “penso, logo existo” (“cogito ergo sum”), anuncia o indivíduo que se descobre em sua própria reflexão, solitariamente, sem a ajuda de igreja ou príncipe: o verbo na primeira pessoa no tempo presente.

A campanha de Bolsonaro ameaça esses direitos de forma clara e evidente, e não somente o seu líder, o próprio candidato, mas também o seu vice e muitos de sua equipe, formada por generais. O cidadão recebe a ameaçadora mensagem sob forma de memes e de vídeos editados em plataformas que há alguns anos nem a ficção científica conseguiria prever.

A modernidade no Brasil cultiva quase sempre apenas seu lado tecnológico: os carros cada dia mais possantes e grandes, os smartphones, a climatização dos ambientes, os centros de compras, a importação de artefatos desenvolvidos por outras sociedades. No entanto, ela ainda não incorporou completamente todos os princípios que tornam um país verdadeiramente moderno: a cidadania, a busca pela igualdade e um Estado que equalize o conflito entre as partes de maneira equânime e efetiva.

Daí o recurso desesperado e caótico por alguém que promete baixar o sarrafo nos bandidos, acabar com “os ativismos” nas próprias palavras do candidato – como se uma democracia pudesse prescindir da luta por mais direitos – e abater sumariamente, atirando antes e perguntando depois. A solução é mágica e contraria a razão: “vamos acabar com isso aí”.

Essa modernidade tecnológica, que erra nas tentativas de encontrar a razão e a dignidade, torna os tempos obscuros no país. O candidato Bolsonaro acorda medos primários, insurge-se contra a razão, evita o debate democrático e característico de todas as sociedades chamadas justamente de modernas e promete a escuridão da justiça, que deveria ser prenhe da razão moderna.

O que teremos com ele será uma volta a um passado sem modernidade, que teimamos em revisitar.

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