Marco Feliciano é um dos nomes cotados
Marco Feliciano é um dos nomes cotadosFoto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil

Integrante da bancada evangélica que se aproximou mais ainda do presidente Jair Bolsonaro (PSL) nos últimos tempos, o deputado Pastor Marco Feliciano (Pode-SP), 46, afirmou em entrevista que o vice-presidente, Hamilton Mourão, e o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, minam a autoridade do presidente e o fazem parecer um "estelionatário eleitoral".

"As pessoas deveriam só entender qual é seu lugar. Nós falamos do Mourão, ele se aquietou, tá lá agora, é só o vice-presidente, como tem que ser. Santos Cruz tem que fazer a mesma coisa." Os dois generais são os principais alvos da ala ideológica do governo, ligada ao escritor Olavo de Carvalho.

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O sr. considera que os militares que estão hoje no Executivo são um problema para a gestão Bolsonaro?
Não todos. São alguns casos pontuais. Mourão e Santos Cruz. Eles minam a autoridade presidencial e tiram do presidente toda a sua fala de campanha, transformando o presidente em um estelionatário eleitoral.

Quais exemplos o sr. tem para afirmar isso?
No caso do Santos Cruz, a propaganda do Banco do Brasil. O Santos Cruz não sabe a ideologia do nosso presidente. A questão da homofobia e outras coisas mais. O presidente sofreu processos por expor seu pensamento, e eu também. Ai vem o ministro Santos Cruz, que detém essa força toda da mídia [as propagandas mercadológicas das estatais não passam pela chancela do Poder Executivo, diz o governo] e gasta R$ 17 milhões numa propaganda que vai contra o pensamento da família brasileira?

Qual o problema que o sr. vê, exatamente, nessa propaganda?
Foi a... a... seria colocar como... deixa eu achar a palavra certinha aqui... é você criar uma raça superior à raça normal. Porque o homem e a mulher não podem ser medidos do pescoço pra baixo. O que eu faço com o meu corpo, sexualmente falando, é uma coisa de foro íntimo meu. Quando uma estatal patrocina uma propaganda como essa, ela tá dizendo: "Isso é bonito". Porque glamoriza esse ato.

Mas, desculpa a insistência, o que é o 'isso' a que o sr. se refere?
A questão em si. Quando você glamoriza demais aquilo que é de menos, você rompe com o tecido social. Eu cito sempre o Clodovil [1937-2009, apresentador e deputado federal]. Foi o primeiro parlamentar homossexual assumido e era contra as pautas da agenda LGBT, porque dizia que o que ele fazia com o sexo dele era foro íntimo dele. Dizia que não tinha que sentir orgulho daquilo, né? Não saio pra rua dizendo que tenho orgulho de ser hétero. Por que alguém tem que sair na rua dizendo que tem orgulho de ser gay?

O sr. viu, então, nessa propaganda, uma glamorização do orgulho LGBT, algo nesse sentido?
Exatamente. Essa é do Santos Cruz. Do Mourão tem um milhão de casos. O presidente falou sobre a embaixada de Israel ser transferida [de Tel Aviv] para Jerusalém, o Mourão disse que é contra. O presidente é contra o aborto, o Mourão disse que é a favor. O presidente fala uma coisa da China, o Mourão vem e diz outra. Quando o vice desdiz rotineiramente o presidente, ele mina a autoridade presidencial.

O sr. se encontrou recentemente, várias vezes, com o presidente Bolsonaro...
Inclusive ontem [a entrevista ocorreu na quarta-feira, dia 8]

O sr. manifestou essas opiniões a ele?
Sim, Manifestei. Ele sorri, nada diz. Ele é um estadista. O silêncio dele é um grito que ensurdece essas outras pessoas. Eu continuo vice-líder do governo.

O que o sr. achou da manifestação do general Eduardo Villas Bôas [ex-comandante do Exército que criticou Olavo de Carvalho, a quem se referiu como "Trótski de direita"]?
Tenho um profundo respeito pelo general Villas Bôas, pela sua história e pelo momento que ele passa de dificuldade [o general tem uma doença degenerativa].

Eu acredito que a ala militar que é contra o presidente o usou. Eles sabiam que ao falar, que ao tocar no Olavo... O Olavo é um senhor de quase 80 anos [Olavo, na verdade, tem 72 anos], quando você puxa a orelha publicamente de uma pessoa idosa, automaticamente essa pessoa vai responder. E o Olavo respondeu. Quando vi na imprensa, eu pensei: "Meu Deus, Olavo acabou com o Villas Bôas". Mas quando fui ler, não foi. Distorceram tudo.

As pessoas deveriam só entender qual é seu lugar. Nós falamos do Mourão, ele se aquietou, tá lá agora, é só o vice-presidente, como tem que ser. Santos Cruz tem que fazer a mesma coisa, ele é empregado. Casa Civil [Santos Cruz ocupa a Secretaria de Governo, na verdade] não é caserna. Ele tem que deixar a patente dele lá onde é o lugar devido.

O sr. já conversou pessoalmente com o Santos Cruz?
Uma vez. E, inclusive, ele sorriu. O Santos Cruz sorrir é o ó, né. Foi de passagem, no corredor [do Palácio do Planalto]. Falei: "O senhor é o general Santos Cruz, né?" Ele disse: "Sou eu". Ai falei: "Dizem que o sr. não sorri". Aí ele abriu um sorriso. Tiramos uma selfie, eu e ele, sorrindo [o deputado mostrou a foto em seu telefone celular, mas diz que não pretende por enquanto torná-la pública].

O sr. concorda com os termos que o Olavo usou para criticar os militares?
Como sou pastor, sou contra palavrão. Mas você sabe que Olavo é um gênio. E todo gênio é louco. E Olavo não é bobo, sabe que, se você falar assim 'Você é uma pessoa muito interessante', ninguém discute. Mas se falar 'Ô seu filho daquilo', todo mundo que está ao redor olha.

Ele criou essa dinâmica para chamar a atenção das pessoas. E funcionou. Eu não faria [desse jeito]. As pessoas estão fazendo uma leitura errada sobre o Olavo. Se pegar nos últimos 20 anos, o Olavo foi o único intelectual que defendeu os militares, que mostrou o sucateamento. Olavo não é contra o Exército.

Ele fala que o regime militar ressuscitou o comunismo, entregou o governo para a esquerda...
É um pensamento dele como historiador. Ele conhece mais a fundo a história do que eu. A história tem os dois lados. Já estudei muito com ele, continuo estudando. Os argumentos dele são basicamente irrefutáveis.

Quais foram os estudos? Curso a distância?
Curso a distância, ele mora fora [Virgínia, nos Estados Unidos]. Fiz o primeiro curso em 2015, quando saí do furacão da comissão de Direitos Humanos da Câmara [Feliciano presidiu o colegiado e travou vários embates com a esquerda]. Ele me chamou de burro [risos]. Olavo foi incisivo. Me mandaram um vídeo. E, como tenho uma graça que Deus me deu -a vida para mim é um carro, e a marcha mais forte do carro é a marcha à ré-, então falei: deixa eu ouvir. E quando escutei o Olavo falar sobre política, eu falei: eu sou um analfabeto político mesmo, eu sou um burro político, eu vou estudar para conhecer esquerda, direita, o que é o pensamento político. Ai me embrenhei nos livros.

De Olavo pra cá eu li uns cem livros sobre política. Eu estava de fato errado. Inclusive, a palavra ignorante, ou melhor, a palavra imbecil, não sei se você sabia, a raiz dela do latim fala sobre aquele que desconhece política. Tanto é que é Olavo escreveu 'O Imbecil Coletivo'. Então, quando você chama uma pessoa de imbecil, pra nossa língua rasa hoje, você está chamando a pessoa de burra, né? Ah, imbecil não, idiota, melhor dizendo. Porque a palavra idiota vem de idiotes [grego], aquele que desconhece a vida pública e não se mistura com ela. Então eu era um idiota político. Hoje não sou mais.

A relação do governo com o Congresso está sendo efetiva, em sua opinião?
Tá melhorando. Onyx [Lorenzoni, ministro da Casa Civil] está sobrecarregado. O Santos Cruz poderia fazer mais e não faz. Tive acesso à agenda dele e, no mesmo período, o Onyx atendeu mais de 150 deputados. O Santos Cruz atendeu, no mesmo período, 50. E o presidente deveria falar mais com a população, que é a base dele. O que ele fez no [programa] Silvio Santos foi fantástico. O povo parou para ouvir ele.

Tem que falar mais, rádio, TV, até jornal. Vocês tinham que fumar o cachimbo da paz, Folha de S.Paulo. Outro dia eu falei com a Mônica Bergamo [colunista da Folha de S.Paulo], consegui colocar ela [em contato] com o presidente [e ela fez uma entrevista com ele sobre crise na Venezuela]. Ela ficou toda feliz, falou assim: "Olha, presidente, precisamos voltar a conversar". Falei: "Precisa". Mas vocês têm que fazer... Vocês amedrontaram [Bolsonaro], só bateram, bateram, bateram. Tem que bater quando é necessário, mas, quando tem coisa boa, tem que mostrar também. Senão ficamos sendo o país do caos. E não somos o país do caos, o brasileiro é gente boa.

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