Deputado federal Tadeu Alencar (PSB) pode encontrar deputado Vitor Hugo, nesta quinta (21), um dia após pronunciamento do texto da reforma da Previdência
Deputado federal Tadeu Alencar (PSB) pode encontrar deputado Vitor Hugo, nesta quinta (21), um dia após pronunciamento do texto da reforma da PrevidênciaFoto: Leonardo Malafaia/ Folha de Pernambuco

O senhor, na condição de líder do partido na Câmara dos Deputados, tem a função de organizar os espaços que os parlamentares suspensos pelo partido vão deixar na Casa. Como será essa condução? O senhor já tem alguma definição?
Estou aguardando a notificação - com a respectiva certidão do julgamento - para examinar, a partir daí, os exatos termos em que este se deu. Quando se trata de medidas que trazem limitações às atividades partidárias de pessoas é necessário toda a cautela.
Cumprir integralmente a decisão é cumprir bem, com segurança, para que tenha sustentabilidade jurídica e regimental e possa resistir a eventuais questionamentos. Esse exame será feito com rigorosa isenção. Mas os bois devem sempre andar à frente do carro. Vamos aguardar.

A decisão do diretório nacional do PSB que resultou na expulsão do deputado Átila Lira (PI) e na suspensão das atividades partidárias de outros nove, dentre eles o pernambucano Felipe Carreras, está sendo criticada por parlamentares. O próprio Carreras afirma que a decisão é uma “mordaça” e que a suspensão é pior do que a expulsão. O senhor avalia que o julgamento foi justo?
Eu sempre defendi que a decisão do Conselho de Ética e do Diretório Nacional deveria guardar duas preocupações: fazer respeitada a autoridade da decisão partidária, de um lado, sem a qual os partidos tendem à flacidez e, de outro lado, que não fosse uma punição extremada, a expulsão. Afinal, era importante possibilitar a reconexão desses colegas com o partido, se assim o desejassem. Acho que uma suspensão por 12 meses é longa. Defendi, nas conversas que precederam a votação, que não houvesse expulsão e que a suspensão vigorasse por prazo menor. Terminou ficando 12 meses, com a possibilidade de a suspensão cessar os seus efeitos depois de 6 meses, isto é, em fevereiro, desde que haja sinais de que o parlamentar, nas questões essenciais, acompanha o Partido. Na prática, para os que o desejarem, a punição será de 06 ( seis ) meses, com a incidência real dos seus efeitos até início do recesso, em dezembro, vale dizer, este ano. No caso de Átila Lira, por quem tenho o maior apreço, prevaleceu a questão de que era caso de reincidência e de baixa observância das orientações partidárias nas deliberações em plenário. Isso pesou contra ele. Lamento, de verdade! Ninguém fica feliz com isso, nem celebra a punição de um colega. Afinal, são todos nossos amigos. Mas nesses quatro anos e meio, de 2015 até aqui o PSB fechou questão duas vezes, apenas: na reforma trabalhista do Temer e na reforma da previdência de Bolsonaro. Esta última, a pretexto de combater privilégios, fará recair sobre o regime geral - média de R$ 1.300,00 de aposentadorias - e sobre os que ganham menos, até 3 salários mínimos, 80% dos seus efeitos.

Os dirigentes do PSB de Pernambuco tentaram se mobilizar para amenizar esta pena? Vocês foram surpreendidos com a punição já que muitas lideranças como o prefeito Geraldo Julio e Paulo Câmara saíram em defesa de Felipe Carreras?
O Diretório Nacional do Partido tem 137 membros, com a representação de governadores, ex-governadores, prefeitos, ex-prefeitos, parlamentares, ex-parlamentares, os segmentos sociais, lideranças de todas as regiões do País. Não é um colegiado uniforme, com um pensamento único. Muitos de nós advogamos que não se aplicasse a indicação do parecer do Conselho de Ética que era pela expulsão de todos e que a suspensão fosse por um tempo menor do que 12 meses, mas o resultado é o que foi possível.

O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, declarou que, caso os deputados deixem o partido antes da janela partidária, o partido irá à Justiça para cassar seus mandatos. O senhor concorda com essa posição?
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no sentido de reconhecer que o mandato pertence ao Partido, salvo se este tiver mudado os fundamentos do seu programa ou incorrer em discriminação ou perseguição. Na hipótese, não parece ocorrer nem uma coisa nem outra. Mas como a situação não está posta, ao menos neste momento, deixarei para emitir a minha opinião em momento próprio, diante de algum caso concreto, se for o caso.

É a segunda vez que o PSB pune um grande número de deputados por votações divergentes em pautas importantes. Falta unidade programática ao partido? Por que a sigla não consegue filiar quadros alinhados com seu pensamento?
 O PSB é um Partido de verdade, tem 72 anos de história, marcados pela defesa dos interesses do povo brasileiro, da Democracia, da soberania nacional e por uma permanente busca de justiça social, combatendo essa chaga planetária que é a desigualdade que, no Brasil, ganha ares de escândalo. Isto por ser - entre os países democráticos - o de maior concentração de renda do mundo. A vida dos seus líderes fala por si: João Mangabeira, Antônio Houaiss, Barbosa Lima Sobrinho, Jamil Haddad, Miguel Arraes e Eduardo Campos e tantos outros que sempre agiram em defesa das liberdades e na busca por justiça. Não me nos parece faltar unidade programática. Entendo que as divergências são naturais e devem ser admitidas, as ideias não podem ser uma camisa de força, mas é necessário que em questões centrais, que afeta os rumos do País e do seu povo, o Partido sinalize politicamente qual o caminho a ser seguido. Senão a sociedade e a sua militância, os seus integrantes e simpatizantes, podem não compreender o que afinal representamos. O problema é que no Brasil há pouca densidade programática dos partidos e às vezes somos levados a pensar que são todos iguais, mas não são. E não acho que a nossa bancada, mesmo os que votaram a favor da previdência, não é alinhada com o partido. De maneira geral acho que é alinhada sim e vai ter oportunidade de demonstra-lo, estou convicto disso. O momento pede de todos nós, maturidade, precisamos deixar decantar as coisas. Todos os colegas merecem respeito. O desafio é nos mantermos próximos ao que nos levaram a vir para o PSB. As forças progressistas precisam olhar para a frente e não ficarem reféns dos velhos clichês. Tem um espaço a ser ocupado na esquerda brasileira e a crise - que aprofunda as desigualdades, milhões de desempregados é o nosso problema real. Precisamos ajudar a resolve-lo.

O PSB anunciou, durante a reunião do diretório nacional, que fará uma autorreforma. Como o senhor avalia essas mudanças? Quais seriam?
Os Partidos Políticos são importantes para a Democracia. É através deles que as pessoas abraçam valores com os quais se identificam e que passam a atuar - na gestão pública, no parlamento, na sociedade - de acordo com esses valores. Tanto mais tenhamos partidos com densidade programática, com uma cara definida, com conexão com parcelas da sociedade, mais chance teremos de fortalecer o regime democrático e a pactuação política em torno de questões fundamentais para o País. Para onde queremos ir, que modelo de desenvolvimento - sustentável ou predatório - achamos adequado para um Brasil com desigualdades sociais e regionais gritantes, que reformas devem ser feitas e quem deve financiar a atividade estatal, entre outras coisas. Os partidos são - e se nao são claudicam em seus deveres - expressão da sociedade. Mas numa sociedade de massas, marcada por uma nova plataforma de comunicação onde se vocifera incontrolável a intolerância é preciso atualizar o seu ideário, fortalecendo os seus valores, incorporando novos, como o da sustentabilidade e da economia criativa, ampliando o diálogo interno e externo, democratizando a participação dos seus integrantes e se integrando aos seus congêneres, no plano internacional. Enquanto a sociedade caminha a passos largos no mundo digital os governos e os partidos são analógicos, burocráticos, cartoriais, um mobiliário que dá a impressão de pertencer a outro tempo. Precisamos areja-los, abri-los às novas ideias, à participação da juventude e dos artistas, como esforço de reconquista da confiança - avara, hoje - da sociedade na política.

O senhor defende o fechamento de questão para a reforma Tributária?
Acho que o momento não é de fechar novamente questão. É o que me parece, sob a ótica estritamente pessoal. A reforma tributária, em tese, deveria ter um grau menor de conflituosidade. Claro que se vier uma proposta que agrave ainda mais a regressividade do sistema - onde os pobres pagam muito mais impostos que os ricos - naturalmente é proposta que não poderíamos apoiar. Somos favoráveis à simplificação - essa babel tributária é um caro monumento à ineficiência da nossa economia -, a não aumentar a carga , a uma transição longa que acomode as disputas federativas e a um peso maior nos tributos diretos, tributando menos o consumo e mais a propriedade e a renda, como quase todos os países do mundo, inclusive a pátria do liberalismo, os Estados Unidos. Nessa matéria faria bem ao Brasil se aproximar dos países desenvolvidos.

Fora Recife, o PSB não tem nenhuma candidatura consolidada em cidades importantes da Região Metropolitana como Olinda e Jaboatão. Isso não prejudica o fortalecimento do partido?
O PSB tem 71 prefeitos de cidades em todas as regiões do Estado, inclusive a capital, Recife, onde o Prefeito Geraldo Julio faz um excelente e reconhecido trabalho. Por outro lado, o governador Paulo Câmara, cujo governo exempla o Brasil em matéria de segurança pública - 20 meses de redução dos indicadores de criminalidade - e de educação - a melhor escola de ensino médio do País - , foi reeleito no 1º turno e vem também tendo o reconhecimento em outras áreas, na atração de investimentos, na saúde, apesar de todas as dificuldades, e lançou um arrojado programa de recuperação da malha rodoviária estadual, ao custo de R$ 500 milhões. No ano que vem, hora de cuidar de eleição, vamos ter bons candidatos do PSB, ou de algum partido da nossa base aliada, em todas ou nas principais cidades do Estado, inclusive em Olinda e em Jaboatão. Tenho segurança de que o partido sairá fortalecido. Fadiga só aparece quando a população avalia que os seus dirigentes não estão a cuidar dos problemas do povo. Não é o caso do PSB. Sem nenhuma arrogância, quem viver, verá.

 

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