Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor.
Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor.Foto: Divulgação

A democracia brasileira, flor frágil e largada aos ventos, flerta com o abismo. E no nosso abismo moram os regimes autoritários, com os quais já perdemos preciosos anos da nossa história.

A democracia, mas uma vez é preciso dizer isso, não se resume a eleições. Houve entre nós ditaduras com eleições, manietadas e limitadas é certo, e nem por isso podem receber outro nome, pois uma democracia exige outros elementos.

Um deles é a imprensa. E não, como querem alguns, uma imprensa que apenas divulgue fatos e acontecimentos, mas imprensa investigativa sobre os atos dos ocupantes dos diversos postos do Estado. Vejam só, com este tipo de imprensa nós no Brasil não estamos ainda acostumados, e os ocupantes que ora estão no poder recusam o que consideram ser intromissão em seus atos públicos por parte de uma certa imprensa mais ativa. A nossa democracia é imperfeita e por isso caminha na fina lâmina que nos separa do abismo.

Para demonstrar essa imperfeição, basta verificar que, entre nós, a seguinte pergunta procede: o que pretende um órgão de imprensa, como o Intercept, ao divulgar atos impróprios do então juiz que hoje se senta na cadeira de ministro da justiça? E ela não se origina apenas nas bocas do ministro e do presidente da República, mas ecoa em muitos órgãos de imprensa, que acusam o Intercept de divulgar mensagens ilegais obtidas de forma criminosa. Em países com democracias estáveis, não caberia esse tipo de argumento, pois nelas o papel da imprensa investigativa não é apenas indiscutível, mas é também essencial. Não é o nosso caso, entre nós ainda há vozes poderosas que contra ela se insurgem.

Voz do Presidente, que falou em “cana” para Glenn Greenwald, o diretor do Intercept; voz do próprio ministro da justiça, que não para de acusar o crime das mensagens divulgadas pelo Intercept. E aí está outro elemento que compõe as democracias modernas: a separação dos poderes. O executivo não se mete na justiça, a justiça não se mete na política. Não parece ser o nosso caso.

Em uma democracia acabada, um presidente da República não poderia estar dizendo nem a metade do que diz todos os dias, contrariando dados científicos do INPE, do IBGE, abrindo fogo contra a Academia, contra artistas, contra o cinema brasileiro, contra a comunidade LGBT, contra o NE do país, e querendo debelar de vez o que considera ser a erva daninha da esquerda, que chama de comunista.

Nesta segunda-feira, 29 de julho, ele acaba de lançar petardos contra a OAB, que defendia o advogado de Adélio Bispo contra intromissões do Estado – em uma democracia, as comunicações de um advogado são invioláveis, está aí outro elemento das democracias; e se há espaço para o Presidente se imiscuir nesse tipo de assunto, sem que a totalidade da imprensa e dos políticos condene, é porque ainda não chegamos ao patamar de uma democracia em pleno funcionamento.

Mais grave do que isso, o Presidente nessa coletiva falou em nome dos porões da ditadura, que desapareceram o pai do presidente da OAB.

Uma democracia é construída sobre o fundamento da pluralidade das vozes, mas parece que o Presidente e outros componentes de seu governo querem que apenas uma voz e uma verdade sejam ouvidas.

Ou será que todas essas declarações antirrepublicanas são apenas bombas que ele lança à democracia brasileira para sentir os espaços que esta dá, enquanto planeja atos mais nefastos? Da resposta a essa pergunta e da reação da democracia em não se lançar em abismos depende o nosso futuro.

Jorge Waquim
Filósofo por Paris Nanterre e Tradutor.
@jwaq

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