Alex Ribeiro
Alex RibeiroFoto: Divulgação Facebook

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia, cientista político pela UFPE, e jornalista.

O bolsonarismo tem como um dos seus maiores representantes o ex-juiz e agora superministro da Justiça, Sérgio Moro. O seu nome em prol do combate à corrupção era até maior que o do presidente Jair Bolsonaro. Era. Pois agora ele surge como um dos maiores responsáveis pela seletividade do Poder Judiciário, ao lado dos membros do Ministério Público Federal de Curitiba.

Uma das questões que servem de critica a Moro não é apenas pelos moldes da Operação Lava Jato revelados pelo vazamento do Intercept e reproduzido por outros jornais e portais de notícia, como Folha de São Paulo, Revista Veja, Portal Uol e o El País. A chamada “Vaza Jato” é o maior dos entraves, mas existe um grande calo no pé do magistrado. O “calo” atende pelo nome de Fabrício Queiroz.

Queiroz é acusado de ter envolvimento com a família Bolsonaro. Seja com a esposa do presidente, Michele Bolsonaro – no qual diz ter pago dez cheques na devolução de um suposto empréstimo- e também com o senador Flávio Bolsonaro, no qual atuou como assessor e motorista. A Coaf apontou movimentações financeiras de R$ 1,2 milhão feita por Queiroz quando trabalhava ao lado do filho do presidente Bolsonaro.

Queiroz estava “sumido” desde janeiro. Seu último paradeiro divulgado pela imprensa foi no Hospital Albert Einstein. Agora no fim de agosto, depois de quase oito meses, a Revista Veja conseguiu localizá-lo. Ele está morando no Morumbi, em São Paulo, perto do mesmo hospital, para cuidar de um câncer de colón. Vale lembrar que o Alberto Einstein é uma das instituições de saúde mais prestigiadas do país, e para ter acesso aos seus serviços é preciso ter uma renda considerável, algo suspeito para um simples ex-motorista de um parlamentar.

Moro não comenta sobre o caso. Disfarça, desconversa, muda de assunto ao ser entrevistado. Elabora respostas vazias dizendo que “a Polícia Federal atua nas investigações”. É preciso analisar e compreender o modus operandi da Justiça pela atuação de Moro. Ao ser alçado como uma das maiores figuras do governo a sua atuação se torna mais política do que jurídica. Esse é o principal ponto. Suas movimentações também são ideológicas e seguem totalmente aparelhadas com os discursos de Bolsonaro. Porém, para eles, os “ideológicos” são os outros, ou seja, a esquerda e seus aliados.

Moro atua juridicamente por exclusão, e não inclusão. Colocado como um ser imponente diante da classe política na Operação Lava Jato agora se submete aos caprichos do presidente. Desde o caso do confesso caixa 2 pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, na qual o próprio Moro manteve impune - onde é chamado de “meu amigo” nas redes sociais -, até nos casos de interferência de Bolsonaro na gestão de órgãos como a PF, Receita e a Coaf, teoricamente subordinados ao próprio ministro da Justiça.

A polarização da sociedade brasileira reflete na atuação de Moro. Ao não mostrar resultados, ou no mínimo interesse pelas investigações do caso Queiroz e do assassinato da ex-vereadora Marielle Franco, o ex-juiz iguala os episódios com sua indiferença. Ele, Moro, é o próprio reflexo dos protestos da extrema direita no país – caraterizados por pessoas de maioria branca e que possuem renda média ou alta. No qual bravejam sobre o projeto de lei de abuso de autoridade, mas silencia sobre causas progressistas como os incêndios criminosos ocorridos na Amazônia.

A indiferença de Moro alimenta um modelo de democracia exclusiva feita pelo bolsonarismo. A atuação jurídica do ministro se torna política porque ele não atua por e para todos. Levantando a ideia de que a democracia precisa ser reduzida para poucos para assim funcionar. Parafraseando o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo Christian Ingo Lenz Ducker: “a democracia se torna ambivalente, com perde de privilégios para alguns e conquista de direito para outros”.

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