Quando um dos lados do espectro político pende para um projeto autoritário, a lucidez política lhe faz oposição e se posta firmemente no polo oposto. É esse o movimento de muitos atores, antes muito próximos a Bolsonaro, que ao enxergarem a retórica ideológica se descarrilar sob o comando do capitão, agora lhe fazem franca oposição, aumentando o fosso da polarização que hoje se vê no Brasil.

A polarização tem sido frequentemente apontada neste final de segunda década do século XXI ora como a culpada dos tempos caudalosos que nos cercam, ora como conclusão lógica que leva aos distúrbios e protestos nas ruas, que atingem países muito díspares e distantes entre si. De tudo o que se diz sobre a polarização, está a conclusão de que ela tem feito muito mal ao debate político por i) colocar as pessoas em lados francamente opostos, de onde ii) naturalmente o debate se torna quase impossível – e diálogo é o que há de mais saudável em uma democracia.
  
A eleição que levou Bolsonaro ao poder em 2018 foi certamente jogada em termos polarizados, mas aquelas e aqueles desatentos aos movimentos ideológicos do capitão provavelmente nunca se deram conta do que viria pela frente. E o que veio pela frente é sem dúvida, já passados quase onze meses de governo, um presidente que contra tudo e contra todos faz guerra cerrada, a partir do seu polo na extrema-direita. A visível consequência é o debandar de antigos correligionários de primeira hora e a polarização até de quem está no centro do debate político.
  
Mas, a uma plataforma que não para de lançar petardos autoritários, como é a do presidente Bolsonaro, como não se posicionar contra? Parece ser esta a questão que vão colocando atores políticos antigos e novos a respeito do que ora acontece no governo.
E autoritarismo parece ser mesmo esse o projeto bolsonarista – isso fica a cada dia mais claro. A novidade nesta semana é sua intenção de levar as operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para ações de reintegração de posse de propriedades rurais, com o “excludente de ilicitude” para qualquer agente da lei incumbido da tarefa, sejam policiais, militares do exército e até bombeiros. É preciso imaginar o horror que seria a reintegração de uma propriedade ocupada sendo retomada pelas forças da ordem compostas por policiais e militares das forças armadas com autorização de atirar para matar. Quantos Eldorados do Carajá teríamos pela frente com tal insano projeto?

Autoritarismo parece estar até nas declarações do Sr. Ministro da Fazenda, exultante defensor do sistema neoliberal chileno, que levou os chilenos à penúria e que tem sido alvo de protestos recentes. O ministro Paulo Guedes, do alto de sua soberba, mandou ver a bala autoritária aos jornalistas presentes a uma entrevista coletiva em Washington, EUA, quando voltou a falar de AI-5: “Não se assustem se alguém pedir o AI-5 contra protestos”.

Neste momento perigoso para o país e para a democracia, atores políticos vão exercitando a lucidez e condenando esse mergulho no autoritarismo que propõe o presidente no poder e se posicionando no polo oposto, mostrando que polarização nem sempre é fenômeno nefasto e, como agora, até mesmo necessário.

Jorge Waquim
Graduado em filosofia e Tradutor
@JWaq

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