No primeiro dia do II Encontro Semiárido e Educação foram discutidas políticas públicas para a região. Promovido pela Fundaj, evento é realizado até amanhã (25), em Petrolina
No primeiro dia do II Encontro Semiárido e Educação foram discutidas políticas públicas para a região. Promovido pela Fundaj, evento é realizado até amanhã (25), em PetrolinaFoto: Divulgação

No primeiro dia do II Encontro Semiárido e Educação foram discutidas políticas públicas para a região. Promovido pela Fundaj, evento é realizado até amanhã (25), em Petrolina.

“Todo homem é um ser local e ninguém se perde no caminho da volta.” Citando o escritor russo Liev Tolstói, inspiração do poeta Ariano Suassuna, o presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Antônio Campos, abriu o II Encontro Semiárido e Educação: convergências, impasses e possibilidades. Realizado no município de Petrolina, no Sertão pernambucano, o evento debateu em seu primeiro dia (24) políticas públicas e direcionamentos para o desenvolvimento de uma educação voltada para o semiárido.

A mesa de abertura foi formada pelo presidente Antônio Campos, o diretor de Pesquisas Sociais (Dipes), Carlos Osório, a coordenadora do Centro de Estudos em Dinâmicas Sociais (Cedist), Edilene Pinto, a coordenadora-geral de formação de professores da diretoria de capacitação técnica pedagógica e de gestão de profissionais de educação do Ministério da Educação (MEC), Vanessa Matos, o secretário executivo da Rede de Educação do Semiárido (Resab), Edmerson Reis, e a vice-prefeita de Petrolina. Esses esses dois últimos representando instituições parceiras da Fundaj na realização do seminário.

“Acredito na educação como a força que pode transformar um país profundamente. Aqueles que investiram fortemente na educação deram um salto maior, de qualidade. É por meio dela que temos que enfrentar as desigualdades”, declarou o presidente da Fundaj. Mitigar diferenças sociais, promover inclusão social, valorizar o jovem, o professor e o nordestino foram pontuados pelo presidente como os grandes eixos de um evento como este, que reúne representantes da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), secretários municipais de educação de todos os estados do Nordeste e do Norte de Minas Gerais, prefeitos de municípios. Ele mencionou também a reedição dos volumes 1 e 2 do livro “Conhecendo o Semiárido", feita pela Editora Massangana e lançada na XII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, no início de outubro.

Saudando o trabalho de cada integrante da mesa, o diretor da Dipes, Carlos Osório, reforçou que o investimento realizado na educação de crianças são os maiores que se pode fazer, pois são elas que darão o maior retorno social. “Que a gente não termine aqui. Que a gente pense desdobramentos e faça deste seminário uma passagem, que trará a educação para melhores dias.”

Edilene Pinto, responsável pela coordenação que promove o Programa de Ações para o Semiárido, afirmou que a pesquisa Educação para Convivência com o Semiárido mostrou o quanto é preciso investir na formação continuada de professores, na produção de material didático contextualizado, e no espaço físico das escolas do semiárido. “Transformar em um espaço acolhedor e interessante é o que torna a formação de um ser humano consciente de sua potencialidade como forma de reproduzir sua cultura, sua história e seu ambiente natural.”

Representando a Secretaria de Educação Básica do MEC, Vanessa Matos, afirmou que o grande anseio da autarquia é atender às necessidade de cada professor em seu contexto e realidade. Ela agradeceu a oportunidade de contribuir com questões que podem ser aprimoradas. “Meu desejo é que possamos desenvolver políticas que realmente sejam sustentáveis e que coloquemos no papel ações que possam ser efetivadas.”

O Nordeste e o semiárido brasileiro vêm trabalhando por sua própria educação contextualizada. Quem atesta é o secretário executivo da Resab, Edmerson Reis. “Pensar em uma educação com esse viés é uma afirmação de caminhada de reconhecimento de povos e suas diferenças, na tentativa de recompor uma história” Essa luta, segundo ele, vai além da educação e busca também ressignificar imagens que foram previamente construídas da região, mais especificamente do semiárido.

“Tão forte quanto nosso sol, é forte a nossa sede de fazer daqui um lugar melhor para se viver”, declarou a vice-prefeita de Petrolina, Luska Portela. O desafio da prefeitura, segundo ela, continua sendo pensar proposta na perspectiva da convivência com o semiárido brasileiro para garantir que o povo petrolinense permaneça no local com condições dignas de cidadania em todas as esferas. “Se não mudarmos a educação, não seguiremos por outro caminho”, afirmou.

Desfeita a mesa de abertura, a coordenadora do Seminário e pesquisadora da Fundaj, Janirza C. da Rocha Lima, fez a apresentação da conferencista, a professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Maria do Socorro Silva, que falou sobre Educação Contextualizada: Convergências, Impasses e Possibilidades. Ela também seguiu na temática da convivência com o semiárido, apontando controvérsias no discurso de “combate a seca” em detrimento a uma convivência adequada às necessidades do semiárido. “Os modelos universalizantes negam a variedade do semiárido, que é o que vem acontecendo nas escolas”, explicou.

O evento contou também com apresentação da Orquestra Philarmonica 21 de Setembro, símbolo da resistência petrolinense, que apresentou-se para o público com um repertório que transitou do erudito ao popular. Clássicos como “Eu Só Quero um Xodó” e “Gostoso Demais”, do compositor Dominguinhos, foram algumas das canções regidas pelo maestro Hélio Lima e interpretadas pelos 23 músicos componentes da banda, aplaudidos de pé ao fim da apresentação.

Workshop

À tarde, foi realizado um Workshop para apresentar visões que pudessem contribuir na formação política dentro dos princípios da Educação Contextualizada para a Convivência com o Semiárido Brasileiro. A pedagoga Edneusa Ferreira Sousa, especialista em EJA pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) é membro da REAB e co-escreveu os livros didáticos Conhecendo o Semiárido 1 e 2. Durante uma peregrinação entre escolas, descobriu que os mesmos livros veiculados nas regiões Sul e Sudeste eram veiculados no Nordeste. “Alguém sempre falou por nós, escreveu livros para nós, fomos sempre o outro nas narrativas oficiais. Precisamos garantir nossos direitos, e temos o direito de escolher como devem ser nossas escolas e quais materiais devemos estudar. Isso não acontece somente na educação.”

Rios, paisagens estrangeiras, morros de neve. Tudo isso habita profundamente o imaginário do nordestino. Rosemar da Silva Martins, pedagogo habilitado em Educação de Adultos pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Juazeiro/BA (FFLCJ) ministrou a segunda parte do Workshop e aprofundou o tema trazendo exemplos de como a educação universalizada trazia uma realidade distante para quem é natural do semiárido. “Esse imaginário é constituído por dentro. Somos profundamente colonizados pelo conceitos que os livros nos dão. E lidamos com ele como se fossem ficções que habitam as páginas e não podem fazer paralelo com a realidade.”

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