Baixista, vocalista e compositor, Cannibal faz suas músicas ao lado de Neilton e Cello
Baixista, vocalista e compositor, Cannibal faz suas músicas ao lado de Neilton e CelloFoto: Arthur de Souza/Arquivo Folha

Cannibal, vocalista da banda Devotos, disse no seu livro Música para o povo que não
ouve (CEPE, 2018) que sua história com a música começou quando se deu conta que fazia parte da população brasileira que teve seus direitos básicos negados. Entre ficar calado e gritar, Cannibal resolveu gritar! Assim, quando a Assembléia Legislativa de Pernambuco, em Sessão Solene, homenageia a banda de punk rock hardcore Devotos pelos seus 30 anos de contribuição à cultura pernambucana, de certa forma é um indicativo de que o grito de Cannibal foi ouvido. Mais: é possível perceber Cannibal, Cello e Neilton como representantes dos negros (pretos e pardos) das nossas periferias. Entendo essa solenidade como uma espécie de reparação do poder público, que cumpre a tarefa de destruir, do imaginário das pessoas, a discriminação e o racismo que ele mesmo forjou outrora.

De fato, se nos reportássemos ao Brasil dos anos 1870/1930, tanto o poder público
quanto os intelectuais ajudaram a construir certa ideia sobre os negros, identificando-os como degenerados. Os europeus (que se reconheciam como aptos) apostavam em quantos anos o Brasil desapareceria, por causa da inapta negritude e mestiçagem. Nossa intelectualidade (via Institutos Históricos e Geográficos, museus, Faculdades de Direito e de Medicina) se amparava especialmente no Darwinismo Social e colocava-se a estudar não o crime, a doença, o intelecto, a higiene, mas o criminoso, o doente, o incapaz intelectualmente, o sujo, o miserável – de antemão, negros (pretos e pardos). Enquanto isso, o poder público efetivava políticas de branqueamento, de saneamento, de reclusão, de hospícios... Institucionalizava o racismo biológico.

Mesmo com a posterior refutação ao Darwinismo Social e a criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), ficou no imaginário de muitos brasileiros a repulsa diante da cor, do cabelo, do nariz, da pele, do cheiro dos negros (pretos e pardos). Não é a toa que foi preciso efetivar uma lei para tratar o racismo (agora social) como crime. Pior, dados como os trazidos pelo Atlas da Violência 2019 (produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública) comprovam que, do total dos homicídios que ocorreram no Brasil, 75,5 % dos mortos eram negros... Então, Cannibal, por favor: continue a gritar!

*Kelma Beltrão é doutora em Educação pela UFPE e Professora da FAFIRE
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