Senador Álvaro Dias
Senador Álvaro DiasFoto: Divulgação

Inspirado na tendência europeia, o senador Álvaro Dias deixou o Partido Verde e apostou na criação de um “partido-movimento”: O Podemos. Em entrevista à Folha de Pernambuco, conta como se baseou nas novas demandas da sociedade para reorientar sua própria visão da política. Na sua opinião, hoje, os partidos “não podem ser estáticos” e precisam representar “causas”.

O que marcou essa mudança de postura de PTN para Podemos?

O objetivo é fazer a leitura do que se passa no País corretamente. Os partidos tradicionais foram arrasados pela operação Lava-Jato, são condenados pela opinião pública, as pesquisas demonstram isso com clareza, há uma rejeição enorme. Na Europa surgiu um movimento dessa natureza para preencher esse vazio da ausência de partidos com credibilidade. Lá idealizaram esse “partido-movimento”, que é um partido de causas que têm esse vínculo que se estabelece muitas vezes de forma equivocada com ideologias extremas. Então o que nós queremos no Brasil é construir um partido-movimento representante de causas, que eleja as prioridades da sociedade como objetivos, por isso que o nome do partido é “movimento”, porque as prioridades se alteram. O partido não pode ser estático. Se vamos conseguir construir um partido com esse perfil - que atenda as expectativas da sociedade - dependemos das pessoas que aderirem. Só essa constatação da adesão de pessoas que possam ter essa visão de modernidade com relação à política é que vai nos assegurar a construção desse partido.

Diante da carreira extensa que o senhor tem na política, como é trabalhar nesse projeto que fala de novidade?

Eu creio que a experiência política deve ser valorizada nesse momento de construção de algo novo porque é possível identificar o novo em função das ideias e não da idade. Aliás, a minha trajetória foi marcada pela inconformidade, tanto é que eu mudei algumas vezes de sigla - e eu digo sigla porque não são partidos, são siglas - exatamente pelo desconforto que me causava permanecer em partidos sem identidade programática e que se construíram apenas da sigla para registro de candidaturas. Essa foi a razão das mudanças. O que ocorre é exatamente esse sentimento que me trouxe para o Podemos, exatamente na esperança de encontrar, efetivamente, um partido. Que seja próximo das expectativas da população.

O Podemos, em seu programa, fala em democracia partidária sem donos de partidos. Como isso ocorre na prática? Não há a figura do líder no partido?

Na verdade, o fato do partido ser aberto, democrático e transparente, consultando a população permanentemente, não exclui ele ter lideranças expressivas. O partido tem que ter ideias, propostas, mas tem que ter um intérprete dessas propostas, alguém que sinalize a possibilidade de execução, por isso o partido definiu que será uma alternativa para a Presidência da República.

O senhor está à frente?

O partido fez essa convocação, no dia primeiro de julho. Exatamente porque quer não só defender as causas prioritárias da população, mas quer oferecer perspectivas de solução para o país.

De que maneira vocês pretendem solucionar essa crise de identidade? Existe um modelo ideal de democracia?

O partido pretende fazer a leitura de quais são as prioridades da população, isso significa realizar consulta popular. Permanentemente ouvir a população, isso é teoricamente democracia direta. Agora evidente que nós vamos defender que as pessoas que aderirem ao projeto vão incorporar esse conceito novo de partido ou não? Só o tempo vai comprovar se teremos sucesso ou não.

A reforma política que está sendo votada pode abalar o projeto de vocês?

Em razão ao partido não vejo ameaça. Acho que o que se pretende na Câmara pode afrontar a sociedade, especialmente na instituição do fundo eleitoral. Obviamente isso é recebido com indignação, mas com relação ao partido não vejo que possa afetar, nem o “Distritão”, ou mesmo a cláusula de barreira. O nosso partido tem força e peso para atender as exigências.

A cláusula não poderia ser?

Vamos chegar perto de 30 deputados em todos os estados, não há nenhuma possibilidade do partido ser prejudicado, nós somos favoráveis a ela.

Outros partidos adotam essa estratégia do Podemos de não se prender a siglas. Usa-se uma ideia que representa o grupo político, como a Rede Sustentabilidade, Avante, Solidariedade, etc. A que o senhor credita essas mudanças de postura?

É uma tentativa de atender as expectativas da sociedade. Claro que não basta mudar o nome, é preciso mudar o comportamento, a cultura política. Eu tenho dito que esse sentimento de mudança que há no País, que temos nas ruas, com as grandes manifestações, é irreversível e se os políticos não mudarem serão atropelados. O desgaste dos partidos políticos, alguns considerados verdadeiras organizações criminosas pelos procuradores, esse quadro de degradação partidária é o que leva a essa iniciativa de mudança. Não basta só mudar o nome, tem que mudar o comportamento para atender essa expectativa.

Fora da polarização, há candidatos que estão trabalham nessa linha do diferente, como Marina Silva e, agora, Ciro Gomes. O que lhe diferencia com relação aos outros possíveis candidatos?

Eu acho que o debate eleitoral é que definirá o perfil de cada um. Vejo que há três vertentes da extrema esquerda, extrema direita e uma ao centro. Eu imagino estar ocupando esse espaço ao centro. Mas durante a campanha, o discurso e a proposta vão desenhar bem o espaço de cada pretendente.

Como é disputar a presidência para o senhor?

Eu acho que é uma questão de responsabilidade. Estou com 42 anos de mandatos eletivos, e praticamente na oposição. Só fui governo quando fui governador e mais seis meses do segundo mandato do presidente Fernando Henrique (PSDB). De resto sempre fui oposição. Nos últimos quinze anos, uma oposição bastante vigorosa, crítica, contundente, investigativa. Acho que tenho a responsabilidade de oferecer alternativas e propor, me colocar no espaço da construção, me valendo da experiência adquirida como governador do estado e toda experiência política no Legislativo. Por isso, acho que é uma questão de responsabilidade, o País está buscando o seu rumo. E as pessoas lúcidas, não só da política, mas também fora dela, não podem se omitir. É uma participação de protagonismo para que a solução de 2018 seja favorável ao país. Esse é o nosso objetivo.

Como avalia o atual governo, do presidente Temer?

No meu entendimento, é um desgoverno, com o presidente da República, pela primeira vez na nossa história, um presidente no exercício do mandato denunciado pela Procuradoria-Geral da República. Utilizando o seu tempo na busca de estratégias de defesa do próprio mandato e o País sangrando. É um momento histórico, mas lastimável. O entorno do presidente é feito a sua imagem e semelhança. Companheiros que agiram de forma equivocada em muitas oportunidades, cujas consequências estamos agora verificando com a operação Lava-jato revelando.

O Podemos tem intenção de atuar de forma mais contundente contra o atual governo?

Como nós estamos vivendo uma fase de transição, em que há certa ação delicada de posicionamento político, às vezes confundem uma oposição ao governo Temer como se fosse uma parceria com o PT. Isso constrange muitas vezes fazer-se uma oposição de forma declarada, aberta e escancarada. Por isso o partido definiu-se pela independência, dando liberdade aos seus integrantes, nessa fase de transição, para definir seu voto e sua opinião de acordo com suas consciências. Teremos, certamente, posições contraditórias no partido em relação ao governo.

Em relação ao Nordeste, o senhor já tem alguma agenda acertada?

Estou indo amanhã (quinta, 17) para a Bahia, receber o título de cidadão honorário. Já fui ao Maranhão, Rio Grande do Norte, fui ao Pará no último final de semana e vamos continuar. Temos uma agenda de final de semana, porque prezamos pelo cumprimento do nosso mandato na sua completude.

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