Filho de Bolsonaro se encontra com Steve Bannon
Filho de Bolsonaro se encontra com Steve BannonFoto: reprodução/Twitter

A muitos conhecidos, amigos e familiares, tenho feito um teste: por que você vota em Bolsonaro? Restringindo o escopo da resposta, aviso-lhes que ela não pode conter ataques ao adversário; quero que deem uma resposta razoável para a escolha que ora fazem. No entanto, diante de uma pergunta cuja resposta é tão dramática e em uma eleição tão importante, não conseguem ir além do xingamento da plataforma oponente, da menção à Venezuela, do ódio ao PT, ao comunismo, aos bandidos, etc.; ou respondem xingando a quem pergunta. Ou seja, não conseguem passar no teste.

Escolhas não são completamente racionais, já avisou o médico Antônio Damásio, cientista de notoriedade internacional que pesquisa sobre a relação entre emoção e escolhas, em seu livro “O erro de Descartes”. Nele, Damásio afirma que muitas das escolhas que fazemos não são racionais, mas derivadas da emoção, e para isso ele fornece elementos científicos tirados de sua pesquisa.

A ideia de Damásio talvez explique toda essa euforia em torno do candidato Bolsonaro, que conquistou o entusiasmo de muita gente, até de pessoas que nunca se importaram muito com política. Muitos eleitores de Bolsonaro não conseguem enxergar o perigo da candidatura, e repetem fórmulas prontas, chavões que aprenderam em memes espalhados como “fake News” pelas mídias sociais.

Mostre-lhes o vídeo de Bolsonaro fazendo a apologia ao torturador Brilhante Ustra, sinistro personagem de nossa história recente e eles dão evasivas, não acreditam, mesmo vendo o vídeo, dizendo que está fora de contexto. Ou simplesmente retrucam de maneira agressiva, cheia de emoção, como fez um amigo antigo deste articulista em uma mídia social: “se eu não for votar em quem apoia ditadores e torturadores, não sobra ninguém!”, como se os oponentes do candidato dele tivessem o mesmo discurso contra a democracia, o que absolutamente não é verdade. Ele sabe disso, mas parece que a emoção fala mais alto.

Comentaristas, colunistas, jornalistas, daqui do Brasil e de todo o mundo, de várias fontes, de vários órgãos, estão avisando do perigo de uma vitória do candidato Bolsonaro, sem que cause o menor tremor na intenção de voto de seus eleitores, que no fim das contas, são nossos familiares, amigos, colegas, em resumo, pessoas com as quais nos relacionamos e que de repente se tornaram agressivas, estranhas, como que tomadas por um espírito alheio a elas, quando são instadas sobre a insana escolha.

Uma provável resposta ao mistério dessa onda de apoio a uma candidatura que, em resumo, é vazia de conteúdos e de soluções, está na participação de um personagem chamado Steve Bannon – um dos filhos de Bolsonaro foi se encontrar com ele nos EUA –, que trabalhou para uma empresa, a Cambridge Analytica. Essa empresa tem sido acusada de influenciar a eleição de Trump nos EUA e o referendo do Brexit, no Reino Unido. Utiliza-se de algoritmos para descobrir medos e opiniões das pessoas nas mídias sociais e as influenciar efetivamente.

E ao que tudo indica, por aqui a mídia social escolhida é o WhatsApp, utilizada pelas famílias e grupos de amigos para se comunicarem e trocarem mensagens calorosas. Nesse ambiente familiar, age forte a emoção, sob o efeito de fotos e vídeos de pessoas queridas. E é nesse mesmo ambiente onde se trocam as “fake news” produzidas pelos apoiadores do candidato. Será que as pessoas estão mesmo sendo manipuladas por memes e vídeos incrivelmente inverossímeis, espalhados por essa mídia? Qual o papel que a emoção está tendo na formação da crença nessas mensagens?

E enquanto este artigo é escrito, pipocam no território nacional agressões de todos os tipos, inclusive com o assassinato de Moa do Katendê, em Salvador. Ódios e preconceitos são despertados pelo discurso violento e bélico de Bolsonaro, como que destampando um fétido buraco onde moram todas as emoções mais sombrias de uma sociedade. Emoções que militam contra a racionalidade civilizatória.

*Jorge Walkim, filósofo pela Universidade de Paris Nanterre.

comece o dia bem informado: