Deputado estadual Edílson Silva, do PSol.
Deputado estadual Edílson Silva, do PSol.Foto: Arthur Mota

Por Edilson Silva, deputado estadual do PSOL-PE e membro da Executiva Nacional do PSOL

Um espectro ronda o nosso tempo. O espectro da ordem. E por isso as razões da resistência da “ideia Bolsonaro” entre tantos e tantas no Brasil não podem ser buscadas somente nas particularidades da conjuntura brasileira. Devemos trazer para o tabuleiro o segundo turno entre Macron e Le Pen na França. O fortalecimento dos partidos neonazistas em praticamente toda a Europa. O Brexit na Inglaterra. O apoio popular ao governo assassino de Duterte nas Filipinas. A vitória de Trump nos EUA. A força de Putin na Rússia. Há outros exemplos, mas estes são já suficientes para verificarmos uma tendência que não pode ser confundida com coincidência.

A sociedade mundial está estressada. Cansada do terrorismo crescente, da violência do narcotráfico e suas guerras, da criminalidade sem solução, cansada das crises com refugiados. Cansada de corrupção. Tudo isso se relacionando com crises econômicas que geram escassez de emprego e renda, fome e misérias de toda ordem. A percepção que fica é que se está sob o império da desordem e muitos são arrebatados pela busca da ordem, rápida, pura e simples.

É flagrante que um senso comum, até então desengajado na política, vai se manifestando nesta situação, operando a partir de uma lógica simples, formal, binária, que se processa num ambiente de tempo e espaço comprimidos como nunca, por uma geografia digitalizada pelas mídias da internet, em que vanguardas da modernidade se confrontam sem mediação com a não modernidade. Vai se vertebrando aí uma dinâmica de esclarecimento pelo avesso, uma informação que deseduca e cujo vetor resultante está apontando para abaixo daquilo que a sociedade já tinha positivado como normas jurídicas. Há um choque de modos de vida, de patamares civilizatórios. Tudo isso manipulado e potencializado pelas conhecidas e poderosas fakenews.

O atual tempo presente, e o futuro que lhe é inerente, se localizam no quadrante da distopia para este senso comum em processo de empoderamento político. O passado passa a ser desejado e perseguido então, como utopia.

Para este sujeito social político que vai emergindo e se materializando em figuras como Trump, Duterte e Bolsonaro, a desordem do presente não existia no passado. Antes, os filhos obedeciam aos pais; os alunos obedeciam aos professores; a insegurança pública era suportável. Mas, ao mesmo tempo, também não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente e nem Conselhos Tutelares, muito menos uma Lei que impedisse que pais “corrigissem” seus filhos com palmadas; a população LGBT ficava quietinha no fundo de seus armários, sem incentivar seus comportamentos publicamente; as famílias eram estruturadas num formato tradicional, com as mulheres acuadas e subalternas. Enfim, lá, no passado, não existia tanta liberdade, direitos e democracia. E, supõe-se, por esta lógica equivocada, que a vida era melhor. Assim vai se cristalizando um conservadorismo e um retrocesso neste senso comum. Um conservadorismo que busca freneticamente mudança, mas para o passado, buscando uma ordem que resgate tempos idos.

Usando a analogia de Lênin, amplos segmentos sociais começam a operar a Lei da Curvatura da Vara. A desordem extrema exige seu extremo oposto, a ordem extrema. A disposição em relativizar direitos, liberdades e democracia, entra no terreno não só do aceitável ou tolerável, mas do necessário. Fica-se de costas para o presente, assume-se um discurso de mudança radical, mas prostrando-se de frente para o passado.

No Brasil esta situação ”apenas” se potencializa fortemente com o componente da corrupção, da Lava Jato e da demonização do PT, que encarna neste senso comum a imagem de um fator central da desordem.

Óbvio que nesta avalanche impulsionada pela busca da ordem como meio de se resolver problemas objetivos da vida das pessoas, e que confere uma base popular massiva para este fenômeno, há elementos fascistas que se misturam e parasitam esta movimentação, inclusive assumindo a sua direção política. Óbvio que a direita ultraliberal também parasita o fenômeno e tentará passar no meio da turba suas medidas fortemente antipopulares. Óbvio que há uma classe média branca, que é bem minoritária no Brasil, vibrando com a possibilidade de voltar a ter duas ou três meninas pobres semi-escravizadas em seu ambiente doméstico. Mas não é razoável supor que a ampla maioria da sociedade brasileira que apostou suas fichas em Bolsonaro tenha sido arrebatada pelo ódio, pelo desamor, pelo fascismo, contra seus próprios direitos e interesses.

O presidente eleito, então, carrega consigo uma forte carga de contradições e expectativas de uma população que acreditou que ele trará soluções para a desordem da corrupção, do desemprego, da criminalidade, da falta de saúde, moradia, etc. Há entre seus apoiadores uma nata empresarial selvagem que quer escravizar o povo, mas há um povo que quer e precisa de empregos, salários e dignidade humana. E são estas contradições internas à candidatura do agora eleito Presidente Bolsonaro que estiveram na sustentação maior do seu silêncio e da sua fuga dos debates e entrevistas. Bolsonaro não suportaria ficar de frente com essas contradições. Ele não fugia somente de seu oponente, Haddad. Ele fugia de qualquer jornalista ou veículo de imprensa. Fugia de si mesmo, pois concentra em si um tal número de paradoxos e expectativas que são inadministráveis numa entrevista e insuportáveis num governo.

As frustrações costumam ser tão fortes quanto as expectativas. O povo tem pressa e vai cobrar esta fatura. O povo não quer a ordem pela ordem, mas aceitou este caminho para chegar à “terra prometida”. Cabe às forças progressistas, numa ampla frente democrática e de oposição, compreender bem este fenômeno, antes de tentar combatê-lo irrefletidamente, pois isto pode exatamente fortalecê-lo.

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