Michelle e Jair Bolsonaro cumprimentam a multidão
Michelle e Jair Bolsonaro cumprimentam a multidãoFoto: Carl de Souza/Divulgação

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela.” Foi assim que o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) fechou seu discurso de posse, no dia 1º de janeiro, sendo aclamado de “mito” pelos milhares de apoiadores na Praça dos Três Poderes. Libertar o Brasil de “amarras ideológicas”, na visão de especialistas ouvidos pela Folha de Pernambuco, parece ser um fator que alinha o chefe do Executivo e os seus auxiliares numa tentativa de deslocar o seu discurso para o espectro do senso comum desbancando a ideologia anterior, experimentada durante os governos petistas.

Governar ou fazer política sem ideologias, contudo, conforme dizem os especialistas, é missão impossível. “Podemos caracterizar ideologia como conjunto de valores e crenças defendidos por um sujeito ou grupo”, define o cientista político Elton Gomes, professor da Faculdade Damas. “Não existe um discurso político sem ideologia. A ideologia representa um ideário, conjunto de ideias e perspectivas para enxergar o mundo, calçada em valores e, muitas vezes, provida de um conteúdo programático, de políticas públicas”, propõe o cientista político Wladimir Ganzelevitch Gramacho, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Embora algumas ideias estivessem fortemente representadas naquele pronunciamento da posse - como nacionalismo, cristianismo, conservadorismo e liberalismo econômico - o presidente reivindicou para si uma suposta isenção e a virtude própria do interesse nacional, atribuindo a “ideologias nefastas” a corrosão de valores e tradições do País. Desde a campanha eleitoral que Bolsonaro se refere às ideologias como um inimigo a ser combatido. “Me coloco diante de toda a nação neste dia como o dia que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”, proclamou o pesselista, colocando-se como a voz das ruas, das urnas, do desejo de mudança.

Há um diagnóstico generalizado, especialmente nos Estados Unidos, de movimentos neoconservadores que utilizam termos como "politicamente correto" para "seduzir eleitores, em sua maioria brancos, ressentidos com mudanças de padrões culturais e sociais". Moira Weigel, pesquisadora associada da Harvard Society of Fellows, estudou o fenômeno ao longo da história norte-americana e atualmente, quando o presidente Donald Trump instrumentalizou essa estratégia a seu favor.

"Falando sem parar sobre o politicamente correto, Trump criou o mito de que tinha inimigos poderosos e desonestos que queriam impedi-lo de enfrentar os grandes desafios do país", explica Weigel. "Com isso, pessoas que estavam em dificuldades econômicas ou furiosas com as mudanças da sociedade, que se sentiam impotentes e desvalorizadas por lutar contra um sistema manipulado, acabavam enxergando a si mesmas em Trump", arremata.

No caso brasileiro, é ao Partido dos Trabalhadores que Bolsonaro se refere, quando utiliza o termo “ideologia nefasta”. “O entendimento bolsonarista, como direita conservadora, é substituir a anterior, vinculada ao lulismo e ao petismo, cujo espectro ideológico vai do centro à extrema-esquerda, abrangendo a esquerda trabalhista, a identitária e a revolucionária”, explica Gomes. “Quando Lula chegou ao poder, ele se considerava fruto de um movimento e não chegaria onde chegou sem o apoio dos intelectuais, de setores da igreja, movimentos sociais, como uma força orgânica. É contra isso que essa nova elite política quer se colocar”, argumenta o cientista.

É possível aferir, na prática, a inversão de prioridades, tendo como exemplo o discurso do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM) no sentido de "despetizar" o Governo Federal. "Bolsonaro quer promover uma ideologia predominantemente conservadora nos costumes, liberal em termos econômicos. É uma ideologização por outro prisma. Ele quer desaparelhar, fazer uma limpeza geral no Estado", aponta Elton Gomes. "Assim, acontecem as desonerações, o realinhamento na política externa do ministro Ernesto Araújo, na política de Direitos Humanos. Para o novo governo, essas estruturas estariam contaminadas pelo pensamento marxista, por isso seria necessária uma missão saneadora", esclarece.

Novo modelo
O filósofo e professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado, acredita que, com essa estratégia, Bolsonaro tenta a normalização de posições muito extremas. "É uma resposta aos governos petistas, pois é flagrante a retórica anti-petista, mas também anti-partidos políticos tradicionais. Ele não está deslocando só o PT. Tentando se colocar como um centro neutro, Bolsonaro atinge PT, PSDB e MDB. Ele está tentando criar um novo normal, o que considero uma aposta muito ousada", avalia.

"Ideologia todo mundo tem. Todas as posições são carregadas de ideologias e valores. É possível fazer políticas mais pragmáticas, conciliadoras. O problema é que Bolsonaro está enxergando ideologia demais nas ações dos outros e de menos nas ações deles. Ele não tem feito discursos pragmáticos", acredita.

Para o professor Wladimir Gramacho, a tática bolsonarista é natural de discursos populistas. "Em outros momentos da história no Brasil, tivemos presidentes que quiseram passar por cima da classe política, dos partidos, e apelar diretamente à população. O presidente não aceita e não responde à mediação de atores importantes, especialmente a imprensa", alega. "Uma das grandes vantagens e lições do Bolsonaro durante a campanha é que foi-se o tempo em que era possível fazer campanha eleitoral num certo período. A gente está na era das campanhas permanentes, nenhum político que se pretenda competitivo pode deixar de fazer campanha", analisa Gramacho.

A vantagem de estar em campanha reside no fato de o governante ter em suas mãos a narrativa. "A ideologia de Bolsonaro está presente na narrativa da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, sobre roupas de menino e menina, na narrativa do novo minstro do Gabinete de Segurança Institucional, general Heleno, sobre índios, na narrativa sobre esse decreto que pretende estimular ou permitir o porte de armas", exemplifica o professor da UnB. Dessa forma, temas com pouca aderência como as reformas econômicas, que foram amplamente rejeitadas no Governo Temer, sofrem uma espécie de "cortina de fumaça" criada pelos temas morais, que dividem a população.

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