Cientista político Alex Ribeiro
Cientista político Alex RibeiroFoto: Pedro Farias

Por Alex Ribeiro. Doutorando em História pela Universidade Federal da Bahia, cientista político e jornalista.

O olhar do deputado Jean Wyllys (PSOL-SP) para alguns dos parlamentares que não saíam de perto do microfone na Câmara, no momento da votação do processo do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), possui vários simbolismos. Afinal, o uso de um echarpe por um deputado e o seu discurso contra a ordem vigente é um desafio, dentre tantos, para protagonizar uma mudança cultural que ocorre a passos lentos no País.

O sorriso irônico e o burburinho dos parlamentares que estavam ao seu redor não representa só os seus sentimentos, e sim da grande maioria da sua base eleitoral. O discurso homofóbico, em “favor da moral e dos bons costumes” é fruto de uma parcela da sociedade conservadora que é retratada, em sua maioria, por deputados da bancada do Boi, Bala e Bíblia, principalmente essa última, que tem a facilidade de ter acessos a comunidades pouco alcançadas pelo Poder Público e reproduzem suas práticas contra as minorias.

“O deputado Bolsonaro não é o único que tem essa prática agressiva. Alguns outros começam a xingar o deputado com expressões de baixo calão, principalmente os da Bancada da Bala. Isso é muito comum”, relatou um dos assessores de Wyllys,

relembrando a história em que o parlamentar acabou cuspindo em direção ao deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), depois deste o ter xingado durante a votação do impeachment. Um outro vídeo acabou flagrando o filho do social-cristão, Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), tentado cuspir o psolista, logo depois do ocorrido.

Aqui, neste ponto, mostra-se que o debate no Legislativo é interrompido para tentar calar as minorias. Estas que sempre tentam ter voz ativa na história e acabam sendo camufladas pelos grupos que regem as sociedades – como brancos, héteros e de família cristã.

“Como o Congresso é uma instituição masculina e heterossexual, Jean, assim como as mulheres, também são figuras dissonantes naquele contexto. Então, Jean quando entrou ali (para votar contra o impeachment) colocou a mão nos ombros. É de fato de uma espécie de ‘corporificação’ da opressão, uma performance opressora, tanto no ponto de vista das mulheres, quanto dos homens que estão de fora da masculinidade hegemônica. O Congresso parecia um bar, que quando entra uma mulher, uma bicha, é olhada de maneira enviesada”, analisou o doutor em Comunicação e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Soares.

“Acho essencial para a comunidade sexodiversa a presença e atuação do Jean Wyllys na Câmara porque ele se apresenta talvez como um dos únicos canais de voz dessa comunidade em Brasília. E, num meio tão hostil aos gays, sua voz reverbera de forma essencial e necessária”, defende o professor e mestre em História, Alberon Lemos.

O debate sobre a participação de Jean Willys na Câmara deve ser ampliado para discutir o chamado empoderamento das minorias contra o bonde tradicional da história. Os seus argumentos voltados ao público LGBT podem ser aparelhados ao discurso dos negros e do feminismo. Estes, entre outros setores, se identificam e repudiam o contexto existente na Câmara.

São práticas culturais que são aceitas de forma gradual e lenta, como na maioria das mudanças na história. É um contrassenso a estereótipos de heróis inventados e enaltecidos no País. As vozes das minorias aos poucos estão tendo representatividade, e é preciso, no mínimo, respeitá-las, assim como todas as outras.

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