Bolsonaro e o filho Flávio Bolsonaro
Bolsonaro e o filho Flávio BolsonaroFoto: Sergio Lima/AFP

"Talvez venha um tsunami", previu o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Esta semana trouxe ondas volumosas que comprovaram a meteorologia que o chefe do Planalto fez no último dia 10. Após o contigenciamento nos orçamentos de universidades e institutos federais de ensino, milhares de pessoas foram às ruas em mais de 170 cidades do País. No Congresso, o Centrão e a oposição convocaram o ministro da Educação, Abraham Weintraub; em uma derrota de 307 votos a 82. Mais grave do que isso, o Ministério Público do Rio de Janeiro conseguiu quebrar os sigilos bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, de outras 86 pessoas e de nove empresas na apuração que envolve o ex-assessor Fabrício Queiroz.

Foi nesse cenário que o vereador do Rio Carlos Bolsonaro (PSC) escreveu que "o que está por vir pode derrubar o capitão". Ele alertava para a possibilidade de o governo descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) caso não consiga aprovar no Congresso um projeto que autoriza um gasto extra de R$ 248 bilhões - uma das cinco Medidas Provisórias que podem perder a validade caso o Governo não retome as rédeas da relação com o Congresso. "Eu não gostaria de contingenciar nada. Mas isso é uma realidade. Se não fizer isso, eu estaria incluso na Lei de Responsabilidade Fiscal e responderia talvez um impachment até", afirmou o presidente, nos Estados Unidos.

No final da semana, Bolsonaro compartilhou no WhatsApp um texto de um autor desconhecido que afirma que o Brasil é "ingovernável" sem conchavos. "Venho colocando todo meu esforço para governar o Brasil. Os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o País de volta ao trilho do futuro promissor. Que Deus nos ajude!", diz a nota que o presidente distribuiu ao ser questionado sobre a mensagem.

O "tsunami" de crises atinge o governo no momento em que Bolsonaro tem perdido apoios de conservadores. O Movimento Brasil Livre (MBL) subiu o tom das críticas ao Planalto como representante da direita. O músico Lobão disse, em entrevista ao Valor Econômico, que Bolsonaro "não tem a menor capacidade intelectual e emocional para poder gerir o Brasil".

"O relacionamento entre o governo e a sociedade teve um período de lua de mel mais curto do que costuma ter. Na Ciência Política, o tempo de referência que a gente utiliza para falar de lua de mel é de seis meses. Principalmente quando é um governo que inicia um ciclo. Isso ocorreu porque, embora tenha havido uma renovação de expectativas, há um descompasso entre os anseios dos brasileiros e a capacidade do governo de administrar essa agenda. O governo tem tido uma dificuldade muito grande de coordenar sua base no Congresso Nacional; de montar o seu núcleo de dirigentes, sua burocracia; e há um desafio fiscal que também alimenta esse momento de insatisfação", avalia o professor Arthur Leandro, professor da UFPE.

Dentro dessa série de crises, a investigação contra Flávio tem potencial de ser mais explosiva para o governo. Na lista de investigados estão nove funcionários que, além de trabalhar para o hoje senador, também atuaram no gabinete de Jair Bolsonaro, quando o presidente era deputado federal. Entre os alvos, têm também cinco investigados que ainda trabalham com Flávio no Senado; seus salários somam R$ 86,8 mil mensais. A lista dá pistas de que as investigações podem avançar sobre milícias, o PSL, a primeira-dama Michelle Bolsonaro e até a ex-mulher do presidente.

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Fabrício Queiroz indicou para o gabinete de Flávio duas parentes de um ex-PM acusado de comandar uma das milícias mais violentas da cidade: Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonças da Costa da Nóbrega, mãe e mulher de Adriano da Nóbrega, acusado de comandar a milícia de Rio das Pedras e Muzema. Ao mesmo tempo, o gabinete do senador abrigou parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, segunda ex-mulher do presidente com quem ele teve um rompimento atribulado em 2008. Outro ponto que pode ser aprofundado é o pagamento de R$ 24 mil feito por Queiroz à primeira-dama.

O presidente afirma que o repasse é parte da quitação de um empréstimo de R$ 40 mil dado ao ex-assessor. Michelle, diferente do marido, não tem foro especial e pode ser investigada pela Promotoria no Rio. O pedido de afastamento do sigilo bancário e fiscal foi o primeiro passo judicial de investigação após um relatório do Governo Federal, há quase 500 dias, ter apontado movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta bancária de Queiroz. Além do volume movimentado na conta de quem era apresentado como motorista de Flávio, chamou a atenção a forma com que as operações se davam: depósitos e saques em dinheiro vivo. Queiroz já admitiu que recebia parte dos valores dos salários dos colegas de gabinete. Ele diz que usava esse dinheiro para remunerar assessores informais de Flávio, sem o conhecimento do então deputado. O MP vê indícios de que uma organização criminosa atuava no gabinete do senador.

"Em relação ao Flávio Bolsonaro, esse elemento espefício termina gerando maior dificuldade para o governo. Ele atinge diretamente um membro da família, que é o núcleo duro do Bolsonaro. O Flávio é o mais comedido dos três filhos e é o que busca fazer articulação política. Então essa denúncia acaba gerando um problema extremamente grave. O governo se elegeu com uma bandeira de combate à corrupção. A denúncia do Ministério Público indica a forte possibilidade de crimes como desvio de recursos públicos, enriquecimento ilícito, provável formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Se ele for processado, isso tira a aura de inviolabilidade que a família Bolsonaro tinha até então", alerta o cientista político Antônio Lucena, professor da Faculdade Damas.

Outro desafio do governo é a questão fiscal. Com uma previsão de déficit de R$ 139 bilhões para 2019, a União precisa aprovar ajustes rigorosos, como a reforma da Previdência, capaz de economizar R$ 1,2 trilhão em dez anos. Sem base aliada ampla no Congresso, porém, a reforma só passou da Comissão de Constituição e Justiça, e ainda precisa ser aprovada pela Comissão Especial e pelo plenário antes de ser submetida ao Senado. O atraso na agenda econômica tem levado o mercado a rever a expectativa de crescimento do PIB de 2,5% para 1%. E com menos crescimento, há menos arrecadação.

Em março, o ministro da Economia, Paulo Guedes, já havia anunciado um contingenciamento de R$ 29,7 bilhões. Agora, é esperado novo corte de R$ 10 bilhões. Além disso, a Medida Provisória que reduz o número de ministérios de 29 para 22 perde validade no dia 3 de junho. Se ela não for aprovada pelo Congresso até lá, Bolsonaro voltaria a ter a mesma estrutura do governo Michel Temer (MDB), o que gera mais gastos. Programas sociais também precisam que o governo aprove no Legislativo um crédito suplementar de R$ 248 bilhões, para que o presidente não descumpra a LRF.

É desse contexto que nasce o arrocho nas universidades federais. "Os atos em 26 estados e no Distrito Federal revelam um componente importante que é o retorno dos protestos de rua. Os governos passados também fizeram contingenciamentos, inclusive no Ministério da Educação. Mas a falta de estratégia de comunicação política fez com que uma coisa que poderia ter sido feita de forma técnica fosse superdimensionada: o ministro chamou as universidades de balbúrdia e o presidente disse que os manifestantes eram idiotas úteis", afirma o cientista político Elton Gomes, professor da Faculdade Damas. Apesar disso, ele lembra que o presidente da República ainda tem um "amplo espaço negocial", com todos os cargos e emendas à disposição para os parlamentares.

Líder do PSC na Câmara, o deputado André Ferreira diz que a convocação de Weintraub foi uma "ação orquestrada" para dar palanque à oposição. Ele credita o interesse em atingir o presidente à parte da grande imprensa. O deputado conta não ter visto pessoas da sociedade civil participando dos atos contra os cortes na educação. "Esses protestos foram feitos por pessoas da oposição, por sindicatos ligados à esquerda. Não é um protesto de pessoas sem partido. Me espanta esse pessoal não ter ido às ruas quando houve cortes nos governos Dilma e Lula", disparou.

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