O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, fala à imprensa
O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, fala à imprensaFoto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Em meio à disputa entre o Planalto e a Câmara sobre a tramitação da reforma da Previdência, um dos principais assessores de Jair Bolsonaro (PSL) foi às redes sociais conclamar uma "mobilização popular" para aprovar a agenda legislativa do governo. Disse que "é necessário, em suma, mostrar que o povo manda no país".

Jogou tal lenha na fogueira Filipe Martins, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência. Amigo do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente que é seu mentor de estratégia digital, ele era responsável pela área internacional do PSL e um dos alunos do escritor Olavo de Carvalho com destaque no governo.

Com a série de postagens, ele joga pelo aprofundamento da crise entre o Planalto e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a quem Bolsonaro comparou a uma namorada que quer deixar o relacionamento devido à sua ameaça de abandonar a articulação pela votação da reforma da Previdência.

Vai na linha contrária do pai e do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), outro filho do presidente que postou mensagens de conciliação acerca da reforma.

Sem citar Maia, Martins desfiou críticas às queixas do deputado, pressionado justamente pelos elementos mais radicais do bolsonarismo por não alinhar-se automaticamente às demandas do governo. "Há uma flagrante tentativa de isolar a ala antiestablishment do governo Bolsonaro, lançando sobre ela uma série de adjetivações maliciosas e de acusações infundadas que não cumprem outra função senão a de torná-la tóxica e malvista pelas outras alas que compõem o governo."

"Fazem isso porque sabem que essa é a maneira mais eficaz de quebrar a mobilização popular. Assim, tentam vender para a equipe econômica a ilusão de que é possível romper com o sistema patrimonialista que existe há 500 anos por meio da cooperação ativa com os oligarcas e sem romper com a forma convencional de fazer política no Brasil".

O texto atira também contra Maia em seu embate com o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), que deseja a tramitação simultânea da reforma com seu pacote de medidas anticorrupção, algo que o deputado rejeita e cuja reação bolsonarista o fez perder a paciência e ameaçar o Planalto.

"O establishment também tenta promover essa perspectiva porque sabe que sem um apoio popular massivo, destravado sobretudo pela ala anti-establishment do governo, não será possível manter a Operação Lava-Jato e muito menos quebrar a espinha dorsal do crime organizado", disse.

Na sequência, também afirma que "tentam vender" para a equipe de Moro "a ilusão de que representantes da velha política e membros da elite oligárquica que se beneficiam dos esquemas da corrupção e do crime organizado vão aprovar o pacote anticrime, desde que haja diálogo".

Com a enxurrada de postagens, Martins escancara o desconforto da dita ala ideológica do governo e do entorno de Bolsonaro, da qual faz parte. Ela é encabeçada por Carlos e Eduardo Bolsonaro, o deputado que se dedica mais à política externa, e tem como membros os ministros Eduardo Araújo (Itamaraty) e Ricardo Vélez (Educação) -todos olavistas de carteirinha.

Em oposição ao grupo, há as áreas técnicas (economia e Justiça) e os militares do governo. Esse núcleo soma a Vice-Presidência, 8 de 22 ministros e uma série de cargos estratégicos. Os fardados são os mais vocais adversários dos ideológicos, e já houve diversos embates entre as alas.

Martins tenta, nas postagens, fazer crer que o antagonismo entre os grupos é culpa de terceiros, mas a realidade é diferente. Os generais da reserva no governo e os da ativa veem com maus olhos as interferências do grupo em políticas de Estado, em especial quando os filhos do presidente estão envolvidos.

O assessor ao fim recorre a um discurso muito comum na bolha de internet em que habitam os apoiadores de Bolsonaro desde a campanha: a ideia de que a pressão popular irá mudar o modo de fazer política em Brasília.

"A única forma de ativar a lógica da sobrevivência política é por meio da pressão popular, por meio da mesma força que converteu a campanha eleitoral do PR [presidente da República] Bolsonaro em um movimento cívico e tornou possível sua vitória. É necessário, em suma, mostrar que o povo manda no país", escreveu.

Ele pede "coordenação efetiva entre as diferentes alas do governo" para que tal mobilização popular ocorra, dizendo contudo que apenas o seu grupo tem uma agenda de valores capaz de promover reformas econômicas, proteger a Operação Lava Jato e quebrar o que chama de velha política.

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