Repúdio

PUC-SP e Comissão Arns repudiam homenagem a coronel da ditadura militar pelo governo Tarcísio em SP

Militar Erasmo Dias, responsável por repressão ao movimento estudantil, dará nome a viaduto em cidade do interior paulista

Deputado Erasmo DiaDeputado Erasmo Dia - Foto: Divulgação / Libelu: Abaixo a Ditadura

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e a Comissão de Defesa de Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns criticaram a sanção, pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), a um projeto que rebatiza como Deputado Erasmo Dias um viaduto da Rodovia Manílio Gobbi em Paraguaçu Paulista. O homenageado é Antônio Erasmo Dias (1924-2010), coronel que foi um dos expoentes do período da ditadura militar.

A sanção ao projeto foi assinada na terça-feira pelo vice-governador, Felício Ramuth (PSD). Na data, Tarcísio estava em Portugal participando de um fórum econômico. A proposta havia sido apresentada em 2020 pelo então deputado Frederico D'Ávila (ex-PSL, hoje no PL). O parlamentar justificou a homenagem afirmando que o coronel Erasmo Dias “representa a imagem do cidadão de bem, íntegro, de nobres valores, que alicerçou sua vida na carreira militar com diferenciado empenho”.

A PUC-SP lembra, em nota de repúdio assinada pela reitoria da universidade, que Erasmo Dias foi responsável pela repressão truculenta a estudantes da instituição ocorrida em 22 de setembro de 1977, quando o militar ocupava o cargo de secretário de Segurança. Na ocasião, policiais invadiram a PUC e agrediram dezenas de alunos que integravam o movimento estudantil pró-democracia. Professores e funcionários também foram detidos.

A universidade considera a homenagem ao coronel um “acinte e um desrespeito”, não só à PUC-SP, mas “principalmente à democracia e à cidadania brasileiras”.

“O reaquecimento da extrema direita brasileira, apoiado também na memória, em condutas e valores antidemocráticos e anticivilizatórios da ditadura, abriu espaços para celebrar torturadores e outros criminosos do regime militar, para fazer escárnio dos mortos e desaparecidos políticos, para relativizar e, às vezes, golpear a democracia brasileira, que foi duramente conquistada e ainda é carente de muitos aperfeiçoamentos”, diz o texto, que prossegue: “A PUC-SP foi vítima direta da violência de Estado na ditadura, de sua truculência e ilegitimidade. O coronel Erasmo Dias comandou a violação em 22 de setembro de 1977. A cada ano lembramos a data para repudiar o arbítrio e o obscurantismo, um gesto cidadão e de formação de nossos estudantes para que a memória nos ajude a evitar que acontecimentos como aquele se repitam: ditadura nunca mais!”.

'Mácula na história'
A Comissão Arns, por sua vez, enviou carta a Tarcísio pedindo a reconsideração da homenagem ao militar. Diz que Erasmo Dias foi “responsável por graves violações a direitos e à dignidade humana” e que o estado “não merece ter esta mácula em sua história”.

“Adepto do uso da truculência contra a população civil, os estudantes e os militantes da resistência ao golpe militar, Erasmo Dias, falecido em 2010, ostenta um tenebroso currículo formado a partir das suas posições de comando, quando empreendeu ações de repressão, tortura e morte nos chamados anos de chumbo”, destaca o grupo de defesa dos direitos humanos.

Além de coronel do Exército e secretário de Segurança, Erasmo Dias foi também deputado federal e deputado estadual por três mandatos. Atuou na repressão a participantes do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), em 1968. Também no cerco fracassado das forças de repressão da ditadura ao guerrilheiro Carlos Lamarca na cidade de Registro (SP), em 1970. Morreu aos 85 anos, vítima de câncer no estômago e no fígado

Procurada pelo GLOBO, a assessoria de comunicação do governo de São Paulo não se manifestou a respeito das notas de repúdio à homenagem ao ex-militar.

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