Política

Seca: o grande desafio dos eleitos

Grave crise hídrica que assola o Agreste e o Sertão do Estado preocupa novos gestores

A intervenção na PE-27 prevê a reestruturação da malha viária estadual até dezembro de 2022A intervenção na PE-27 prevê a reestruturação da malha viária estadual até dezembro de 2022 - Foto: Divulgação

Todos os dias o jovem Tiago Jaques dos Santos, 17, acorda cedo, no seu singelo sítio Boa Esperança, situado às margens de uma estrada que corta a cidade de Sanharó, no Agreste do Estado, onde convive com a sua mãe, padrasto e duas irmãs, e percorre mais de dois quilômetros de terra batida, em busca de água. 


Ainda que a estiagem na região, que já dura quase cinco anos, tenha dado uma breve trégua, com chuvas passageiras no último fim de semana, os 24 mil habitantes de Sanharó continuarão a conviver com um verdadeiro cemitério de gado a céu aberto. Dos 184 municípios do Estado, aproximadamente 130 vivem esta mesma realidade, que será o grande desafio dos prefeitos eleitos neste ano. A crise hídrica, desta forma, agrava ainda mais a crise econômica herdada pelos novos gestores, que dependem do repasse de recursos para tentar contornar a situação.

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Crise causada por erro de gestão hídrica
Na zona urbana de Sanharó, por exemplo, o abastecimento chega a ocorrer uma vez por mês, na melhor das hipóteses. O prefeito eleito do município, Heraldo de Sinósio (PSB), ressalta que já vem fazendo articulações para garantir o máximo de recurso, nos próximos quatro anos de sua gestão. “Fiz pleito ao governador e ao secretário estadual de agricultura Nilton Motta para limpar a barragem de Sapato Dois. Contamos também com a ampliação da barragem de Ipojuca para melhorar a distribuição de água”, detalhou o futuro prefeito, que também buscará, junto ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), autarquia federal, a construção de novos poços artesianos.
Por sua vez, o prefeito eleito de Sertânia, no Sertão do Estado, Ângelo Ferreira (PSB), acredita que “o desafio é grande”, mas é preciso aprender a criar alternativas. “Não tem como combater a seca. É preciso aprender a conviver com ela. Temos que criar uma estrutura para quando chegar a água na torneira, no momento que você tiver as obras”, disse. Na sua visão, há uma série de obras da Compesa, algumas em fase de conclusão e outras já concluídas, que podem minimizar os impactos na zona rural e, consequentemente, na economia da região. “É importante investir na questão hídrica, pois assim há um aumento na produção, o agricultor precisa de condições para produzir”, concluiu.

Em Granito, no Sertão do Araripe, cidade com sete mil habitantes, a criação de ovinos e caprinos praticamente não existe mais. O prefeito eleito do município, João Bosco, considera que a situação “é gravíssima” e que a resolução passa pelo aumento dos mananciais na região com a construção de barragens e poços. Já o peemedebista Arquimedes Guedes Valença, prefeito eleito de Buíque, vê na ampliação do abastecimento de água, por meio de carros-pipas do Exército, a única salvação.
Em Iguaracy, localizado no Sertão do Pajeú, o novo comandante Zeinha (PSB) viu com o tempo a barragem do Rosário secar. Ele admite que a seca está castigando e a esperança está na ação do tempo, nas obras federais e aporte financeiro do Estado.

“Esperamos um bom inverno, pois se não ocorrer, será muito difícil. Também estamos na expectativa da conclusão do Ramal que chegará a Sertânia e a ampliação do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento Municipal (FEM) para os próximos anos”.
Criado em 2013, o FEM visa apoiar os municípios pernambucanos na implantação de projetos que permitam a retomada de investimentos. Em 2015, foram repassados R$ 263 milhões. Mas o lançamento de novas edições é incerto, diante da crise econômica atual.

Planos frustrados
Com indicadores da Agência Nacional de Águas (ANA) apontando um crescimento de seca extrema, condição desfavorável do solo e uma piora na saúde da vegetação, os atuais prefeitos creditam em boa medida o seu insucesso nas urnas à atual crise hídrica.

E os números confirmam. Dos 184 municípios, apenas 48 gestores renovaram os seus mandatos. Ou seja, 136 chefes do Executivo assumirão pela primeira vez ou retornaram após passagem pelas prefeituras. O Agreste e Sertão, áreas mais atingidas pela estiagem, praticamente mudaram todos os comandos.

Apesar de ter promovido ações para o enfrentamento da seca para diminuir o sofrimento da população com o abastecimento de água, o prefeito de Sanharó, no Agreste, Fernando Edier (PCdoB), foi um dos que saiu derrotado das urnas. Ele perdeu para Heraldo de Sidônio (PSB). O administrador alega que sua gestão sofreu com a queda na produção da pecuária leiteira, principal atividade econômica da região. A situação precária fez com que muitos populares em desespero fossem bater na porta da prefeitura em busca de emprego.

Fechando o orçamento no limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o gestor argumenta que a administração municipal ficou de mãos atadas para resolver o problema. “A crise econômica nem chegou fortemente aqui. Conseguimos manter todos os serviços e pagar a folha de pagamento. Agora, o que mais me atrapalhou nos quatro anos foi a seca. A principal renda é a pecuária leiteira. Com cinco anos de seca, o rebanho sofreu bastante. Com isso, diversos produtores venderam o seu rebanho e ficaram sem fonte de renda levando muitos deles a procurarem a prefeitura”, lamentou o prefeito. Apesar do desgaste, o comunista garante que em sua gestão poços foram perfurados, distribuição de alimentos na entressafra fo­ram feitos e carros-pipas vêm distribuindo água na medida do possível.

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