Suspeição de Moro importa mais para direitos políticos de Lula, diz Haddad

Haddad, como todo o PT, entende que esse julgamento tem mais relevância do que a decisão sobre prisão após condenação em segunda instância

Fernando Haddad Fernando Haddad  - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Candidato derrotado à Presidência da República em 2018, Fernando Haddad (PT) afirma que, "como cidadão", quer ver o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputar novamente a corrida ao Palácio do Planalto.

Para isso, o ex-prefeito de São Paulo diz apostar no resultado do julgamento da alegada suspeição do ex-juiz Sergio Moro -hoje ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PSL)-, que pode levar à anulação da condenação do petista no caso do tríplex de Guarujá (SP). Haddad, como todo o PT, entende que esse julgamento tem mais relevância do que a decisão sobre prisão após condenação em segunda instância -a análise sobre o tema tramita no Supremo Tribunal Federal e pode beneficiar Lula.

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"Gostaria de ver Lula livre e com seus direitos políticos assegurados. É o que todos nós desejamos", afirmou. À reportagem, Haddad afirma fazer parte de um time e que não importa se, em 2022, será "técnico, zagueiro ou artilheiro". O importante, diz, é o time ganhar. "Pertenço a um time que quer mudar o Brasil para melhor."

Ascensão de Bolsonaro e crise no PSL

Diante da implosão da centro-direita, de partidos como PSDB e MDB, que estavam em torno do governo Michel Temer, surgiu uma pessoa sem projeto que galvanizou um projeto de insatisfação, congregando perspectivas bastante incongruentes: amantes do mercado a todo custo, que querem passar nos cobres o patrimônio público, o ultraliberalismo do [Paulo] Guedes; gente que não tem apreço pela democracia e quer uma saída autoritária para a crise, que é a turma do Moro e dos militares; e tem a turma fundamentalista, que quer o Estado teocrático no Brasil, que é a Damares [Alves], o [Abraham] Weintraub, o [Ernesto] Araújo e o [Ricardo] Salles -o quarteto fantástico.

Foi para baixo do guarda-chuva do Bolsonaro uma porção de perspectivas que não encontravam uma expressão política. A bancada do PSL é isso, é esse samba que ninguém entende, de desafinação. Não existe ali um partido propriamente.

Bolsonarismo em crise?
Bolsonaro é, ele próprio, uma crise. Ele se alimenta dela. É impossível imaginar um governo Bolsonaro que aposta na estabilidade. Ele vive dessa instabilidade porque é uma maneira de ele preencher o espaço vazio da chefia do Estado. É quase uma necessidade espiritual e psicológica.

A busca de coerência faria ele perder base. É difícil entender porque é um fenômeno novo, mas a coerência, a racionalidade, a estabilidade são conceitos que produzem mais problemas para ele do que essa instabilidade na qual ele navega e a partir da qual ele mantém conexão com esse eleitorado, que, pela primeira vez, encontrou um canal político de se exprimir.

Unidade da esquerda e eleições 2020
Em toda eleição, acontece um baile entre os parecidos para ver quem vai representar na disputa. A eleição do ano que vem será a primeira sem coligação proporcional. É natural que os partidos ajam, em primeiro lugar, olhando para a sua sobrevivência, para a cláusula de barreira, [visando] lançar novos nomes. Ninguém pode pedir para esses cinco partidos (PDT, PSB, PC do B, PSOL e PT) que abram mão imediatamente [de lançar candidatos].

Mas tem um processo de construção da convergência. Não vejo indisposição da parte desses partidos em construir unidades duradouras.

A política é a construção do imponderável. Se a centro-esquerda souber jogar o jogo, vai estar no segundo turno. Mas tem de tomar cuidado para não acontecer o que aconteceu em vários países, em que a centro-esquerda desaparece e fica a centro-direita discutindo com extrema direita.

Suspeição de Sergio Moro

Como a votação do habeas corpus [da alegada suspeição do ex-juiz Sergio Moro] já teve início, entendo que o Lula, com razão, está olhando para esse julgamento. Desde o início, ele diz com todas as letras: não estou sendo julgado por um juiz imparcial, porque não há provas contra mim.

São suposições, é quase um conto do Gabriel García Márquez que não para em pé. Quem teve paciência para ler o processo, pelo menos as principais peças, percebe que ali não tem uma narrativa que permitisse um juiz condenar.

Acho que o Lula, com razão, está aguardando o posicionamento do Supremo sobre a suspeição do Moro. Depois das revelações do The Intercept, tem pelo menos uma dúzia de razões [para declarar a suspeição]. Foi tudo muito meticulosamente construído pelo próprio juiz. Se isso não for razão para declarar a suspeição, eu diria que nenhum juiz vai ser declarado suspeito nunca mais. A Lava Jato pecou quando resolveu fazer política. No caso do Lula, isso é patente.

Lula candidato em 2022
Gostaria de ver Lula livre e com seus direitos políticos assegurados. É o que todos nós desejamos. Se você perguntar o que eu gostaria, eu disse na campanha de 2018: este país só vai encontrar paz no dia em que o Lula subir a rampa do Planalto. Essa é minha opinião.

O Lula é um político incomum, reconhecido pelos adversários. Eu, como cidadão, gostaria muito de vê-lo disputar uma eleição.

Papel pós-liberdade de Lula
Em janeiro de 2018, o Lula me convidou para coordenar o programa de governo dele e me sondou para ser ministro da Fazenda. Não sei se esse convite vai se repetir, mas, no momento em que ele imaginava que ia ser candidato com chances de vitória, me sondou para coordenar o programa com essa perspectiva.

Sou uma pessoa disciplinada. Se for comparar com um atleta, chego no horário do treino, não falto, faço mais exercício do que o técnico manda. Eu me sinto membro de um time que quer disputar o campeonato para ganhar.

Se vou ser o artilheiro, o zagueiro, o capitão, o técnico, vamos ver, mas pertenço a um time que quer mudar o Brasil para melhor, que quer enfrentar a desigualdade, oferecer oportunidade, ver o Brasil se aproximar das grandes potências. O Brasil respeitado fora e dentro por cada um dos seus cidadãos.

Disparos em massa via WhatsApp
Se o Tribunal Superior Eleitoral quiser investigar, todos os especialistas sabem como fazer o caminho de volta e descobrir se Bolsonaro usou caixa dois de empresário para fazer os disparos que todo mundo sabe que aconteceram. Foram mais de 1 bilhão de mensagens disseminadas com calúnias, injúrias contra mim, contra a Manuela [D'Ávila] e contra o PT.

Se o tribunal quiser essa investigação, basta chamar o WhatsApp, que sabe como tecnicamente tem de fazer para chegar aos responsáveis pelos disparos e saber quem pagou. Não estou vendo o ânimo de buscar a verdade. O caminho que eles estão escolhendo é o mais longo. Vamos ver se a CPI das fake news consegue acelerar o passo.

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