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Tadeu Alencar defende candidatura de João Campos

Em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, o deputado federal Tadeu Alencar analisa o cenário local e nacional

Tadeu Alencar, deputado federalTadeu Alencar, deputado federal - Foto: Jose Britto/Folha de Pernambuco

Em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, nesta terça-feira (7), o deputado federal Tadeu Alencar, que está encerrando seu mandato na liderança do PSB na Câmara Federal, comentou sobre a disputa interna protagonizada pelos deputados Danilo Cabral (PE) e Alessandro Molon (RJ) para sucedê-lo.

Em julho de 2019, após uma disputa interna no partido que tinha como concorrentes Júlio Delgado (MG) e o próprio Danilo, ambos retiraram as suas candidaturas para construir a unidade da legenda e reconduzir Tadeu ao posto até o final do ano, com a sinalização de que Danilo seria o sucessor, mas a entrada de Molon na disputa, este ano, mudou o cenário. Tadeu também defende a candidatura do deputado federal João Campos (PSB) para a Prefeitura do Recife e aborda outros temas nacionais.


O governador Paulo Câmara e o prefeito Geraldo Julio já declararam apoio a Danilo Cabral para a sucessão na liderança do PSB na Câmara Federal. Contudo, o senhor não declarou apoio a ele. Existe um racha dentro do PSB?

É natural o governador dar apoio a um deputado de Pernambuco e acho também natural do prefeito do Recife, ainda mais sendo um deputado com os atributos para ser líder como o deputado Danilo, que é nosso companheiro e amigo de longa data. Não é uma questão que se dá sob a ótica de Pernambuco. Tem parlamentares do Sul, do Sudeste, do Centro Oeste, do Nordeste e do Norte.

Então, esse debate precisa ser muito equilibrado. Por exemplo, os dois nomes que estão postos, o de Molon e o de Danilo, são nomes que têm dimensão nacional. Molon é um cara conhecido e deu um brilho ao nosso partido e tem os atributos para ser líder. E Danilo do mesmo jeito. Agora, isso não não se faz com alguém que é ungido líder. É uma construção que se faz dentro da bancada. Até porque quem vota, se tiver um bate chapa, são os deputados federais. Qual o meu papel nisso? Meu papel é conversar com todo mundo para que a gente construa a unidade. Não adianta Molon ganhar e uma banda que queria Danilo ficar atrapalhando a gestão de Molon e não adianta o contrário. Na verdade, qualquer dos dois que for eleito eu estarei contemplado porque sou amigo dos dois.

Mas como fica, então, o entendimento com Danilo Cabral sobre a sucessão, firmado em julho de 2019, em consenso com o deputado Julio Delgado para que os dois retirassem a candidatura?

Entendimento bom é onde as partes ficam satisfeitas. Porque se for para eu ficar satisfeito e você insatisfeito, que entendimento, que acordo é esse? E isso se trata internamente, porque quem lê os jornais de Pernambuco hoje pensa que a eleição é decidida pelos cinco deputados de Pernambuco. Se fosse assim já estava resolvido. A gente teve um bocado de percalço nessa caminhada que meio que atrapalhou isso.
 Tivemos a votação da reforma da Previdência onde alguns colegas ficaram numa posição mais refratária e tal. E, na verdade, os candidatos precisam dialogar. Eu não tenho dificuldade de votar em Danilo. Zero. Agora eu não posso dizer que vou votar em Danilo contra Molon sem que o ambiente, inclusive das pessoas que me apoiaram lá para eu ser líder, também estejam em consenso.

Como foi o acordo em julho de 2019 para que Julio Delgado e Danilo retirassem as candidaturas?

A gente estava no processo de discussão. Aí eles apresentaram uma lista dizendo 'olha, a gente apoia Tadeu para terminar o ano e já indica Danilo para o próximo ano'. Na verdade, as pessoas não tinham nenhuma dificuldade com essa formulação, mas não queriam decidir isso por antecipação. Estava nesse debate quando a lista foi apresentada, com 17 nomes.

Foi o Julio Delgado quem apresentou a lista. Aí houve uma reação muito grande porque as pessoas acharam que ali era meio que uma coisa imposta e que não topavam aquilo. Aí eu tive uma conversa com Danilo e disse 'Danilo, você deve ser líder de todo o conjunto da bancada e não de 17, rapaz. Você faça o seguinte: você não tem 17 assinaturas? Você tem seis meses para conquistar o voto dos 15 que não assinaram e conte comigo para isso'. Só que isso não aconteceu, chegamos no final do ano e esse trabalho de convencimento das pessoas não foi feito e as coisas foram se encaminhando em outra direção. Agora, meu trabalho será de tentar construir essa unidade que eu acho que é perfeitamente possível de se construir.

O que faltou para consolidar o consenso em torno do nome de Danilo Cabral para a liderança?

Não é porque alguém merece ser líder e quer ser líder que as coisas acontecem no automático. É preciso um convencimento. Todo eleitor gosta de ser convencido e quer saber os compromissos que se faz com ele. E você imagine quando esse eleitor é um deputado federal, acostumado com eleição e a pedir voto, ele gosta que venham pedir voto a ele. Eu acho que talvez tenha faltado um pouco isso.

Mas olhando friamente para esse quadro, nós temos o mês de janeiro - e eu vou investir fortemente nisso. Agora, para eu ter apoio das pessoas que me apoiaram e que eu tenho talvez um diálogo mais fluido, é preciso que a gente converse. Porque não tem da minha parte absolutamente nenhuma dificuldade. Nós tivemos uma conversa preliminar no final de dezembro e ficamos de conversar em janeiro.

Qual seria o consenso possível, diante da disputa entre Danilo e Molon, na sua opinião?

Acho perfeitamente possível que a gente combine algum jogo, seja ele qual for. Que Danilo seja agora e Molon depois, ou Molon seja agora e a gente já assumir um compromisso que Danilo seja depois. Da minha parte não tem nenhuma dificuldade. Agora, eu tenho uma liderança que é da bancada toda e eu não posso tratar isso como se fosse uma questão de Pernambuco. Eu não posso funcionar como deputado de Pernambuco, eu sou líder da bancada e só tenho a confiança de muitos de meus colegas porque ajo dessa forma.

Nossa turma aqui também teve os espaços reconhecidos. Danilo ocupa a comissão mais importante e foi para a comissão da reforma da Previdência e foi muito prestigiado. O problema não é Danilo , de maneira nenhuma. Nem da minha parte. Agora no final do ano falamos e dissemos que era importante a coisa da unidade. Vamos apostar nisso.

Como o PSB está preparando as articulações para a disputa das eleições municipais?
Em Pernambuco nós temos um legado. Se você olhar de 2007 para que nós tivemos dois governos de Eduardo, um de Paulo e agora o segundo dele que tem resultados consistentes. Em momentos econômicos diferentes. (...) Nós temos agora 70 prefeitos do PSB e talvez uns 130 da Frente Popular. Se tivermos uma visão exclusivista dizendo que tem que ser os 130 do PSB talvez não mantenhamos nem os 70. Nós temos um zelo muito grande com o símbolo que é a Capital do estado e acho que a gestão de Geraldo tem um reconhecimento da população.

Então, o PSB vai colocar o nome de João (Campos), não há outro nome. Agora, é óbvio que isso tem que ser uma visão nossa e dos demais parceiros da Frente Popular. Não vamos empurrar João goela abaixo e dizer que ele vai de todo jeito, se for desse jeito ele estará começando muito mal. Agora, o nosso nome é João e nós queremos dialogar com o PT,PDT, PSD, MDB que podem ter candidato. Esses partidos todos são da Frente Popular hoje. O nosso esforço vai ser o de construir junto com eles o nome de João para representar não o PSB, mas a todos nós. E onde for importante para cada um desses partidos, cada um tem as suas preferências, é perfeitamente possível compatibilizar e dizer que queremos o apoio no Recife mas que vamos apoiar candidatos em outros municípios. Então, acho que se a gente tiver essa visão de compartilhamento de responsabilidades, representando um conjunto político e uma forma de governar, acho que a gente tem uma possibilidade grande de sucesso.

Se confirmada a candidatura de João Campos, Marília Arraes e Túlio Gadêlha, teremos uma eleição marcada por jovens. Como o senhor enxerga esse cenário?
Quanto à juventude de João, eu fico impressionado porque eu conheço jovens que são velhos e velhos que são jovens, inconsequentes e infantis. João é um cara que muito jovem foi o deputado federal mais votado de Pernambuco. Foi secretário de Estado muito jovem na Casa Civil. Ele não é um deslumbrado. João é um deputado aplicado, estudioso, corajoso. Um menino novo que chegou lá e faz enfrentamentos que são notáveis.

Eu vejo a juventude como uma virtude e não como um defeito. O que é defeito é a inconsequência, a falta de espírito público e de visão republicana. Virtudes que eu vejo que todas elas João tem. Então eu acho que João vai ser um grande candidato e tenho a convicção ainda maior de que ele será um grande prefeito do Recife.

O senhor acha Lula terá um papel importante na eleição do Recife?
Lula é sempre alguém que terá uma influência forte na política em qualquer circunstância, ainda mais no Nordeste onde ele tem um grande apelo e isso ficou muito evidente no resultado do segundo turno, onde praticamente no Nordeste todo ganhou o candidato do PT, com Lula preso. E Lula solto terá um apelo ainda maior. É óbvio que o PT é o maior partido. Aqueles que advogavam que o PT estava enterrado, viram o PT renascer das cinzas e fazer o maior número de governadores e a maior bancada e tem a maior liderança popular do Brasil. Agora, o PSB não é o PT. Nós temos um jeito próprio, temos aliança com o PT em muitos lugares, mas o PSB é um partido que tem uma história e uma visão própria. Nós não somos nem extensão muito menos um anexo de nenhum partido de oposição.

Cada partido tem um jeito. E nem por isso nós deixamos de ter um nível de convergência importante para conseguir barrar algumas coisas que eram muito graves do ponto de vista institucional, de ataque à democracia, à cultura, à saúde e à educação. É desastroso quando você olha em um ano tudo que aconteceu. Então, mesmo cada um com sua característica, um estilo, a gente guarda uma zona de convergência onde é perfeitamente possível, mantendo esse estilo, atuar em sintonia e fizemos isso muito bem.

O presidente Jair Bolsonaro disse, recentemente, que se vetasse o Fundo Eleitoral aprovado pelo Congresso, poderia sofrer impeachment. Como o senhor vê essa afirmação?

Todo dia chegam para ele projetos aprovados pelo Congresso onde ele pode ou sancionar ou vetar. É o exercício regular de seu papel de presidente da República. De onde ele tirou a ideia de que isso pode geral o impeachment?

Porque ele é um prestidigitador mal acabado que fala para uma plateia de devotos, só que subestima a inteligência do povo, porque impeachment é uma coisa muito séria. Ele não vai vetar porque vai sofrer a mais fragorosa derrota já vista no Congresso. Isso foi negociado por todos os líderes no Congresso. Ele mandou uma proposta com R$ 2 bilhões e pouco e depois quer 'tirar casquinha' em cima de todo mundo.

Porque há tanta resistência sobre o Fundo Eleitoral?
A sociedade está tão irritada com os erros da política que você poderia colocar qualquer valor que seria visto como uma coisa indevida. Porque o patrocínio de uma atividade criminalizada como está a politica, a sociedade não aceita que se gaste dinheiro com isso. Ninguém está discutindo qual é o modelo de financiamento que melhor atende uma democracia de massa como é a do Brasil.

Se é o financiamento privado que ficou identificado pelos escândalos de corrupção que a Lava Jato detectou e vinculados umbilicalmente ao modelo onde se financia governadores e parlamentares e depois captura as votações no Congresso e as decisões do executivo para atender os interesses privados. Isso é o barato que sai caro.

Como anda a discussão da reforma Tributária na Câmara Federal?
Está bem na ordem do dia a discussão da reforma Tributária. Ela já era para ter andado e não foi possível porque tinham muitos projetos e o governo anida vai mandar um outro. É um debate que nos interessa, porque o Estado brasileiro é caro, é perdulário, é patrimonialista, corporativo e burocrático.

Então, ele tem que ser enfrentado nesse burocratismo cartorial, porque isso são séculos do 'império do carimbo'. Esse debate é muito importante. As propostas que há trabalham só na simplificação. O problema é que os pobres no Brasil pagam muito mais tributos do que os ricos. Os bancos praticamente não pagam imposto.

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