Vereadora de João Alfredo, no Agreste, é eleita na UTI

Faltando cinco dias para eleições, Socorro Soares sofreu edema cerebral e foi levada às pressas para um hospital na Capital

Sergio Leite (PSC) foi empossado deputado estadualSergio Leite (PSC) foi empossado deputado estadual - Foto: Sabrina Nóbrega/Alepe

 

Projetada nacionalmente por ser a pátria-mãe do responsável pela maior zebra da história de uma eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados, o ex-deputado Severino Cavalcanti (PP) - cassado do car­go pouco tempo depois por desvios éticos - , a cidade de João Alfredo, no Agreste Setentrional, a 106 km do Recife, também escreveu um incrível e chocante capítulo nas eleições municipais de 2016: eleger uma vereadora internada em estado gravíssimo numa UTI de um hospital da Capital.
Aos 62 anos, remanescente da comunidade quilombola Olho D` água Cercado, a 6 km do centro urbano de João Alfredo, Socorro Soares (PP) recebeu a segunda maior votação entre os 11 vereadores do município - 1.062 votos - na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital Português, no Recife, para onde foi transportada, já desacordada por uma forte dor na cabeça, faltando cinco dias para as eleições de 2 de outubro passado.
Não teve direito sequer a votar nela própria e só soube que estava eleita uma semana depois, quando reagiu lentamente à enfermidade que lhe tirou a visão, também, por 29 dias. “Fiquei cega por quase um mês e o médico chegou a falar que se eu escapasse ficaria sem enxergar para o resto da vida”, diz a parlamentar, que regressou ao município há dez dias, já com a visão recuperada. Segunda-feira passada, em meio a uma grande emoção vivida por ela e seus pares, foi bater o ponto na Câmara, com outro semblante, já sem os longos cabelos pretos, roubados pelas sessões de radioterapia.
Gratidão
No plenário da Câmara, onde vai iniciar ser terceiro mandato, Socorro agradeceu a belíssima votação, a solidariedade do seu povo e prometeu retribuir fazendo mais do que já faz pelo social, marca da sua ação parlamentar. Em sua região de atuação, ela é conhecida como a vereadora da saúde, porque usa seu carro particular, um velho Fiat, para transportar doentes aos hospitais da Região e Recife.
Socorro sofreu um forte apagão em consequência de um edema cerebral. Há dois anos, ela extraiu uma mama e, de imediato, os médicos passaram a desconfiar que o seu caso pudesse ser um novo câncer, desta feita no cérebro. Depois de passar por dois dos hospitais, inclusive um especializado, o Hospital do Câncer, no Recife, a vereadora saberá em definitivo seu diagnóstico nos próximos dias, quando receberá os exames feitos durante o período em que esteve internada.
Duracel
Mulher de fé e guerreira, de uma energia tão positiva que foi apelidada de “Duracel”, pelos pacientes do Hospital do Câncer, Socorro está otimista. “Eu sei que não tenho mais nada e os exames vão confirmar que estou curada”, antecipa. Embora a fé mova montanhas, sua família está bastante apreensiva.
“Os médicos que estão acompanhando o seu caso suspeitam de um câncer no cérebro, mas ela acha que não tem nada”, diz a filha Jaira Soares, que a socorreu para o hospital praticamente na véspera da eleição. Segundo ela, a notícia que se espalhou nos tradicionais redutos eleitorais da brava parlamentar é que estaria morta.
Mesmo diante de tamanha boataria, sem que a família tivesse a certeza de que a matriarca voltaria vivinha da silva para os seus, os eleitores deram a Coca, como é conhecida, uma votação mais expressiva do que a do pleito anterior, em 2012.
“Eu acho que o povo ficou impactado e votou solidário à minha dor”, afirma a parlamentar, para quem, neste episódio, a pior coisa que ocorreu foi ter deixado de votar. “Já pensou de eu tivesse perdido por um voto? Eu ia arrancar a goela do médico que me proibiu de sair da UTI”, brinca.

 

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