Weintraub usa MEC em guerra contra Wikipédia para controlar seu verbete

A blindagem é feita após longo processo de discussão entre os membros da plataforma e busca proteger a trajetória de figuras públicas

Ministro da Educação, Abraham WeintraubMinistro da Educação, Abraham Weintraub - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Além do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e de seu vice, Hamilton Mourão, apenas três dos 22 ministros do governo federal têm suas biografias blindadas na Wikipédia, enciclopédia on-line escrita de forma colaborativa.

A blindagem é feita após longo processo de discussão entre os membros da plataforma e busca proteger a trajetória de figuras públicas envolvidas em polêmicas de atos de vandalismo e fake news.

O ministro Sergio Moro (Justiça) está nessa lista. Ele é alvo desde junho de reportagens do site The Intercept Brasil e de outros veículos que expuseram a sua proximidade com procuradores da Lava Jato e colocaram em dúvida a sua imparcialidade enquanto juiz federal da operação.

Damares Alves, titular da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também tem esse status. Ela é colecionadora de manifestações polêmicas, como "menino veste azul e menina veste rosa".

O terceiro ministro, no entanto, entrou nesse grupo porque encampou uma guerra pessoal contra a Wikipédia. Abraham Weintraub foi escolhido titular da Educação do
governo de Jair Bolsonaro para apagar o incêndio deixado pelo seu antecessor, Ricardo Vélez Rodrigues.

Weintraub diz não concordar com a sua biografia na versão lusófona (para falantes de língua portuguesa) da enciclopédia. Sua página foi criada em 8 de abril deste ano, mesmo dia em que foi anunciado ministro de Bolsonaro.

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Weintraub já pediu em junho, por meio da assessoria do ministério, para que sua biografia na enciclopédia fosse apagada. Usou a mesma assessoria para editar informações classificadas por ele de "equivocadas" e que têm a intenção de contribuir para "interpretações dúbias". Após várias tentativas de modificações desfeitas por editores da plataforma, ameaçou processar a Wikipédia na Justiça.

Segundo as regras da enciclopédia, edições de conteúdo só podem ser feitas se estiverem amparadas por fontes verificáveis, como documentos públicos e reportagens. O biografado não pode, como buscou Weintraub, entrar na própria página e apagar informações reais e já tornadas públicas, principalmente as que mancham a própria trajetória.

Páginas protegidas têm ainda mais restrições. Só podem ser editadas por voluntários que atingiram a categoria de administradores. Esses supereditores têm no histórico ao menos 2.000 edições registradas e boa reputação na comunidade. A página lusófona da Wikipédia conta com ao menos cem administradores.

O verbete de Weintraub diz que o ministro nasceu em 1971, é paulistano e formado em economia. Também informa que ele é professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e trabalhou no mercado financeiro.

Mas não são esses os dados que têm tirado o sono de Weintraub. Em e-mail encaminhado por sua assessoria à Wikipédia e ao qual a Folha teve acesso, o ministro questiona dois pontos de seu perfil: os cortes nos recursos das universidades e informações sobre sua vida pessoal.

Weintraub nega ter feito cortes no orçamento das universidades, uma medida que inicialmente atingiria as instituições que só faziam "balbúrdia". Para o ministro, houve um contingenciamento das despesas discricionárias (que exclui salários, por exemplo) -uma espécie de bloqueio.

A Wikipédia mantém o termo "cortes" e deu a fonte: como é utilizado pela mídia brasileira. Já sobre a sua vida pessoal, o ministro não esclarece o que o incomoda. A página diz que ele foi acusado de nepotismo ao assumir cargo de professor da Unifesp, onde também estão a sua mulher e o seu irmão. Em entrevistas, o ministro disse ter sido aprovado no concurso porque "outros candidatos não apareceram no dia".

Outro fato relatado é a tentativa de interdição judicial do próprio pai, o psiquiatra Mauro Weintraub, em 2011. Mauro foi perseguido pela ditadura militar e é autor do livro: "Sonhos e Sombras: a Realidade da Maconha", que defendeu a descriminalização da maconha no início dos anos 1980, uma postura progressista para a época. O pedido de interdição de Mauro foi indeferido por falta de subsídios, segundo a Justiça.

Foi Rodrigo Padula, 37, um dos administradores da Wikipédia, quem respondeu uma notificação extrajudicial enviada por e-mail no dia 13 de agosto pela assessoria de Weintraub. O documento diz que com a restrição de acesso à edição de sua página, o ministro ficou "incapacitado de exercer o seu direito à ampla defesa e ao contraditório".

"O Ministério da Educação aguarda um posicionamento sobre o pedido, dentro do prazo de cinco dias do recebimento deste, sendo o seu silêncio tomado como recusa em atender ao presente pleito, ensejando a adoção das medidas judiciais cabíveis". "O ministro cometeu erros graves: usou de forma indevida a assessoria do MEC para uma demanda de cunho pessoal. Numa 'cateirada' clara, tentou nos intimidar porque está insatisfeito com o seu artigo", diz Padula.

Na resposta ao e-mail do MEC, Padula ofereceu um treinamento para orientar a equipe do ministério sobre as regras da Wikipédia, mas não foi atendido até agora."O ministro não entendeu que conflitos de interesse devem ser evitados. É por isso que somos a Wikipédia". Padula diz que ainda não recebeu nenhuma notificação judicial.

Agora, o caso ganhou outra dimensão. O deputado Marcelo Freixo (PSOL) enviou um requerimento ao MEC que questiona o uso da assessoria do ministério para resolver questões de interesse pessoal de Weintraub na Wikipédia.

"Isso é grave, não é republicano e não está à altura de um cargo como ministro da Educação alguém tão raso, alguém com iniciativas tão pequenas", disse Freixo em discurso no plenário da Câmara Federal na semana passada.

O ministro terá 30 dias para responder ao requerimento. Segundo Padula, comportamentos como o do ministro são contraproducentes. "Acaba espantando o trabalho de nossos editores, que são voluntários e vão pensar duas vezes em editar artigos de pessoas públicas", afirma.

A reportagem buscou o posicionamento do ministro Abraham Weintraub por uma semana, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

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