A arte de comer bem

Nela, destaque para armário de madeira pesado e sempre fechado.

Humberto durante giro pelo SertãoHumberto durante giro pelo Sertão - Foto: Roberto Stuckert Filho/Divulgação

 

Manuel Bandeira, em sua “Evocação ao Recife”, fala com saudade da casa do seu avô - onde “tudo parecia impregnado de eternidade”. Para mim esse espaço, impregnado de eternidade e saudade, é a cozinha da minha avó Maria José. Mais parecia uma enorme sala de visitas. Arquitetura sóbria, austera até, não tinha adornos tão ao gosto de hoje.

Nela, destaque para armário de madeira pesado e sempre fechado. Um armário com mistérios e cheiros - de pães, biscoitos, tentações, bolos e pecados. Na primeira prateleira desse armário guardava, como uma relíquia preciosa, o seu caderno de receitas. Não era grande, nem muito grosso. Simples, tinha capa dura estampada e folhas precocemente amareladas pelo tempo. Todo escrito por ela mesma, com aquela letra desenhada que as moças daquele tempo aprendiam em exercícios de caligrafia. Era, esse caderno de receitas, o que havia ali de mais precioso. Nele guardava segredos que ninguém mais podia decifrar. Nas receitas, lembro como se fosse hoje, tantas vezes faltavam ingredientes importantes. Talvez fosse de propósito. As dosagens, por exemplo, eram pouco precisas - “um pires”, “uma cuia”, “um prato”, “um bocado”, “o quanto baste”. Ou vago o modo de preparar - “mexa até que chegue no ponto”, “asse até que fique bom”, “misture até que sinta que está bom”. Os outros até poderiam não saber exatamente como preparar. Ela não. Com aquelas receitas fazia pratos que jamais esquecerei. Dia desses tentei saber com quem estaria aquele caderno perdido no passado. Não consegui. É pena. Mas ele ficará para sempre na minha memória, como uma lembrança boa.
Falo daquele Caderno de Receitas para referir um livro raro que recebi de Carlos Augusto Lira - A arte de comer bem (9ª edição, 1938). Que pertenceu a sua avó. Até encontrei, no livro, algumas receitas dela, em pequenos papeis, marcados pelo tempo.

 A autora, Rosa Maria, juntou no livro receitas do Conde Fé de Ostiani (que esteve no Brasil como ministro da Itália) e que “era um grande gourmet”. E, outras, do caderno de receitas de sua tia Ritinha - “que apesar de abastada fazendeira gostava, ele própria, de fazer os quitutes que até hoje têm fama na família”. Além das receitas, apresentava também sugestões de cardápios para: jantar e almoço “de cerimonia”, “de menos cerimonia”, “mais íntimo”, “simples”, “de arte”. Para gente de todo tipo - “intelectuais”, “epicuristas”, “vegetarianos”. Para todos os lugares - “praianos” ou “para roça”.

Também: “almoço ajantarado”, ceia (simples, fina, boa) e chás. Sem esquecer as bebidas - coquetéis, refrescos, vinhos, licores, café.
Dedicou o livro à filha. E deu-lhe sugestões importantes: “Lembro-te que além dos temperos, há outras prescrições indispensáveis para conseguires agradar os teus convidados: A dona da casa deve comer pouco, observar muito e não deixar que ninguém tenha tempo de formular um desejo... Não deve esquecer do conjunto geral, e sobretudo da harmonia das flores na ornamentação da mesa... Num jantar pode haver modéstia, mas nunca falta de gosto nem de gentileza... Com inteligência de habilidade, a dona da casa pode suprimir diversos requintes de luxo, sem que se note. Principalmente se ela for amável e simples. Um sorriso, uma palavra boa, faz esquecer muitas falhas”. Uma relíquia boa esse livro. Saborosa. Que vou guardar para sempre.

 

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