Bairro do Recife recebe Festival da Cultura Judaica neste domingo

Memórias tão presentes no Recife originaram festival

Mesa judaicaMesa judaica - Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

Para os judeus, o ato de comer vai além da ingestão de alimentos e sua conotação orgânica. É rotina associada à tradição com respeito a cada prato escolhido para ir à mesa no intuito de satisfazer familiares e amigos, principalmente quando se trata de datas comemorativas. Muitas receitas atravessaram gerações, inspiraram as comunidades de hoje e, assim, seguem ligadas às suas recordações afetivas. Memórias tão presentes aqui no Recife, que originaram até um festival com a 25ª edição agendada para promover a cultura de um grupo estimado em 300 famílias em Pernambuco, segundo o último Censo Comunitário.

O evento será montado na rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, no próximo domingo (27), com ven­da de produtos ligados à te­mática histórica e religiosa. Co­mo não poderia deixar de ser, na linha de frente de tan­tas ofertas estarão comidas bem conhecidas desse público específico e de pessoas interessadas na cultura judaica. Isso porque, em algum momento você, leitor, já ouviu falar em strudel, falafel ou fluden. Pois essas são algumas das produções típicas aprimoradas ao longo dos tempos, que não saem do cardápio rotineiro. Segundo o livro “Cozinha judaica - 5.000 anos de histórias e gastronomia”, de Marcia Algrante, séculos atrás os judeus foram banidos da Palestina e então migraram pelo mundo fazendo uso dos ingredientes que podiam dispor, conservando inclusive algumas leis dietéticas impostas pela religião.

Strudel

Bureka
“É quando entra o termo ‘Kosher’ aplicado à comida apropriada ao consumo. Um conceito que proíbe itens como carne de porco e a combinação de carne com leite, por exemplo”, lembra a empresária Beatriz Kozmhinsky ao se referir a uma prática ainda muito comum entre os ortodoxos. As regras são defendidas em prol da saúde do corpo e do bem social. Ela, inclusive, utilizou as referências familiares para montar uma marca de comidas por encomenda com a sócia também judia Germana Zaicaner. Embora trabalhem um cardápio amplo para todos os gostos, é frequente o pedido por pessoas da comunidade que querem montar uma mesa com suas produções artesanais. “Sai bastante o pão de ló com maçã e passas ao vinho e as burekas recheadas com cebola frita no óleo com sal e pimenta. Opções do dia a dia, servidas como lanche entre as principais refeições”, acrescenta Zaicaner.

Vale lembrar que essa é uma religião carregada de história e comportamentos próprios, que tornou a vida sempre muito difícil nos países de coexistência, o que resultou em massacres e perseguições. Por mais esse motivo, a gastronomia represen­ta o vínculo às origens, o verda­deiro retorno para casa. “Lembro de cozinhar com mi­nha avó e depois com mi­nha mãe, aqui no Recife, as receitas que vieram da Polônia. É algo muito resistente por gerações e com grande for­ça sentimental”, diz a voluntária da Federação Israelita de Pernambuco, Renata Gedanken. Não é á toa que itens como batata são frequentes na cozinha, por estarem vinculadas à sobrevivência de quem se dispersou pelo mundo.

“Sem falar na presença mar­cante de cebola, alho, sal e pimenta, como base em diversos preparos”, complemen­ta Zaicaner, que tem to­dos os insumos sempre a mão, com exceção de alguns itens vindos de São Paulo ou mes­mo de Israel. Em alguns ca­sos é possível até adaptar, aproximando ainda mais o gosto tradicional ao paladar de quem é daqui. Há, inclusi­ve, quem faça o fluden - doce típico servido em comemorações - recheado com jambo, numa forma de tropicalização, segundo o historia­dor Jacques Ribemboim.

Apreciador dessa gastrono­mia, ele lembra as influências recebidas em diversas partes do mundo, a exemplo da culinária judaica conhecida no Leste Europeu, que teve inter­ferências das tradições alemãs. “Sendo essa a mais difun­dida por aqui em Pernam­bu­co com os judeus asquena­zes. Assim não faltam, por exemplo, tortas de cebola e conservas de pepino no cardápio local”, completa.

- Os judeus se concentram, em sua maior parte, nos Estados Unidos e em Israel. Estima-se que, no mundo, haja cerca de 14 milhões deles
- O calendário hebraico é do tipo lunar, baseado nos ciclos da Lua, composto alternadamente por 12 ou 13 meses de período igual ao de uma lunação
- Entre as festividades mais conhecidas estão páscoa judaica, ano novo judaico e dia do perdão - dez dias após o ano novo, com 24h de jejum para estimular a auto-reflexão
- A Sinagoga Kahal Zur Israel, que fica na rua do Bom Jesus, chamada antigamente de rua dos Judeus, no Bairro do Recife, trata-se da primeira sinagoga oficial dos judeus nas Américas

Serviço:
25º Festival da Cultura Judaica
Domingo (27), a partir das 15h30
Na Rua do Bom Jesus – antiga Rua dos Judeus (em frente à Sinagoga Kahal Zur Israel)
Acesso gratuito ao Festival
Visita ao Museu Sinagoga Kahal Zur Israel: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia) 

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