Caipirinha chega aos 100 anos

Centenária? Apesar da falta de registros históricos, apreciadores de cachaça acreditam que a caipirinha completou um século

Variação sutil da caipirinha leva tangerina e limãoVariação sutil da caipirinha leva tangerina e limão - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Que ela é símbolo de festa e brasilidade, ninguém duvida. Mas um fato curioso é que a caipirinha, como é servida hoje em bares do mundo todo, estaria completando 100 anos de criação em 2018, segundo uma corrente de pesquisadores atenta na origem da bebida. A tese, defendida pela Confraria Paulista da Cachaça com o apoio de produtores, jornalistas e cachaciers, reforça a importância gastronômica e comercial do drinque que não vê o tempo passar.

De acordo com a entidade, formada por apreciadores de cachaça, há uma vertente histórica indicando que a caipirinha teria sido criada a partir de uma receita popular feita com limão, alho e mel, indicada para os doentes da gripe espanhola. Como já era comum colocar álcool em todo remédio caseiro, a famosa branquinha foi sendo usada até alguém retirar o alho e o mel dessa receita-base. Depois, acrescentaram umas colheres de açúcar para adoçar a bebida. O gelo veio na sequência. Mas, por não existir um documento de registro, também é aceita a hipótese de que o drinque surgiu das mãos de fazendeiros de Piracicaba, no interior paulista, como produto que traduzia a cultura canavieira da região.

“Não há um documento claro em termos de data, mas, sim, uma série de fatos recentes como esses e até um que cita a artista Tarsila do Amaral. Ela costumava preparar a bebida para os franceses, na sua temporada em Paris, na década de 1920”, acrescenta o produtor e presidente da Confraria Paulista da Cachaça, Alexandre Bertin. Sem querer entrar no mérito do marco histórico, ele destaca que a força da clássica combinação entre limão, açúcar, cachaça e gelo só fez crescer ao longo do tempo. Mistura que, segundo o pesquisador de gastronomia e antropólogo Raul Lody, mereceria uma data simbólica maior do que apenas 100 anos. “Preparar drinques de frutas à base de álcool é algo que, certamente, acontece no mundo há milhares de anos e, nesse cenário, fica difícil ter uma comprovação de algo”, completa o especialista. Para ele, tão importante quanto a origem é a construção de valores deste e de outros elementos gastronômicos que ultrapassam barreiras territoriais. Mas sem torná-los clichês.

No caso da caipirinha, existe um decreto de lei de 2009 determinando que ela é feita exclusivamente com cachaça, limão e açúcar, com graduação alcoólica entre 15% e 36%. Sem falar que desde 1994 integra a carta de drinques do International Bartenders Association (IBA), responsável por padronizar a produção de coquetéis nas mãos de profissionais do mundo todo. A pedida brasileira, aliás, é a única produção à base de cachaça na lista da instituição.

Caipirinha tradicional

Caipirinha tradicional - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco



Receita perfeita

É por conta da padronização aceita em vários países, que o sabor da caipirinha deve ser único, respeitando as medidas da sua receita original. Se ela vai ao copo mais doce ou com excesso de amargor, é porque algum detalhe passou despercebido em meio a uma preparação simples. Para o bartender Mauro Melo, a boa caipirinha é equilibrada, aromática e visivelmente limpa. “É bom ficar atento ao limão. Retirar a parte branca do meio, fazer fatias e macerar todas as partes diretamente no copo. De maneira leve. Sem esmagar grosseiramente”, sugere.

Bater na coqueteleira é um ato polêmico. “Porque, assim, você acaba misturando, sem controle, todo o amargor presente na casca, mas muitos bartenders fazem”, pondera Melo. A etapa seguinte é utilizar uma cachaça de qualidade, que pode até ser envelhecida. Para adoçar, xarope de açúcar, açúcar refinado ou demerara e até mel entram nas possibilidades. “Mas cuidado com a diluição. Sentir os grãozinhos do açúcar é algo incômodo”, completa. E, em menos de dois minutos, surge a bebida perfeita em copo baixo e transparente, que não deixa de circular uma noite sequer no bar onde o gim é protagonista, como o Em Cima, em Boa Viagem.

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E ai de quem fizer misturas inusitadas, com morango, uva, cajá ou outras frutas tropicais. Para os experts no assunto, essa não é a caipirinha e está mais para as variações comuns com a vodca. “Aliás, são frutas que ninguém vai conseguir aproveitar fora do Brasil. Sendo assim, o que adianta ensinar um alemão, que tanto adora caipirinha, fazer um preparo com caju? Ou o gaúcho a aproveitar a seriguela? Eles não vão conseguir reproduzir isso”, alerta o mixologista Júnior W.M. Fora do Brasil a questão segue complexa. É que, lá fora, o drinque é muito ligado à cachaça e, ainda segundo W.M, os estrangeiros não têm uma visão tão aprofundada sobre a caninha, prova disso é o tempo em que ela era taxada e importada com o rótulo de rum brasileiro. “No mercado europeu, as pessoas entendem mais de rum, por isso o consumo do daiquiri é infinitamente maior. Ainda há muito a se fazer para que, de fato, a cachaça atinja status internacional e todos os seus subprodutos ganhem com isso”, resume o mixologista.

Para não errar...

Ingredientes:

- 60 ml de cachaça de qualidade em temperatura ambiente (pode ser envelhecida)

- Meio limão Taiti

- 1 colher de açúcar refinado ou meia dose de xarope de açúcar ( feito com água e açúcar misturados no liquidificador)

- 5-8 cubos de gelo

Preparo:

Retire o miolo branco do limão e corte em pedaços pequenos. Coloque-os num copo baixo e acrescente o açúcar. Com a ajuda de um macerador, esmague-os levemente. Acrescente a cachaça e mexa. Finalize com pedras de gelo

 

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