Cajuína do Piauí é patrimônio tombado

Bebida é considerada elemento de relevante interesse cultural do estado nordestino

Miguel Coelho em entrevista à Rádio Folha FM 96,7Miguel Coelho em entrevista à Rádio Folha FM 96,7 - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

Apesar de raro no Brasil, o processo de tombamento de práticas ligadas à feitura de alimentos existe e, a passos lentos, vem engrossando o livro de bens imateriais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que, no Nordeste, já reconheceu como patrimônio imaterial a atividade das acarajezeiras da Bahia. São essas baianas que garantem a perpetuação da receita tradicional do mais famoso acepipe daquele estado.

Há dois anos, o mesmo Iphan - único órgão, junto à Unesco, a ter autoridade para definir patrimonializações oficiais - incluiu no seu Livro de Registro dos Saberes a produção tradicional e as práticas socioculturais associadas à cajuína no Piauí. Isso significa dizer que quem recebeu o tombamento não foi a bebida pronta, mas, sim, a forma como ela é feita, garantindo que sabor, cor e propriedades nutricionais sejam exatamente as mesmas com o passar do tempo, evitando a descaracterização do produto.
Com toda a tradição de consumo, a cajuína piauien­­­se só ganhou força como elemento cultural quando a Cooperativa de Produtores de Cajuína do Piauí (Cajuespi) entrou em cena, estimulando a produção artesanal, a sistematização dos processos manuais e o consequente crescimento da cadeia produtiva. Uma das maiores incentivadoras do processo de tombamento, enfim. Atualmente, sob a tutela de Lenildo de Lima, a cooperativa movimenta um contingente de 2.700 pessoas envolvidas em alguma etapa da cadeia e reúne 120 produtores comprometidos com as normas pós-tombamento.

O resultado do trabalho de formiguinha é visível. Recentemente, a reportagem esteve em Teresina e se deparou com cajuína sendo em todos os lugares por onde passou. A patrimonialização devolveu à sociedade local o orgulho de ter um produto regional e confere importância à própria cultura.

Como é feita?
Ao contrário do que muita gente pensa, a cajuína não é um refrigerante, aliás em nada lembra a bebida gaseificada. No Piauí, sobretudo, por conta do tombamento, a bebida deve ser feita apenas com suco clarificado do caju, cozido em banho-maria, e só. Não são acrescentados açúcar tão pouco álcool de qualquer tipo. O processo é todo artesanal, sem automatização, apenas fogão, coadores de pano, panelas. O envasamento é obrigatoriamente em garrafa de vidro incolor. Variações de sabor e tonalidade ocorrem, não pelo descumprimento de alguma das etapas de confecção, mas sim pelo tipo de caju usado. Alguns são mais adocicados, outros, mais ácidos. Resumindo, a safra é quem define o produto final. Algumas têm gosto proeminente de passa de caju, outros ganham notas de defumado, não é possível domar os caprichos da natureza. A diversão é experimentar várias marcas. Não tem coisa melhor para aliviar o calor de 38º C médios que assola a capital do Piauí. Cajuína geladinha, geladíssima, é melhor que picolé. Vai por mim.

*A jornalista visitou a Cajuespi, em Teresina, a convite do Festival Maria Isabel 2016, do Sebrae Piauí

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