Empoderamento

Chefs pernambucanas refletem o espaço conquistado pelas mulheres ao longo das últimas décadas

Mulheres conquistando espaços de destaque na gastronomiaMulheres conquistando espaços de destaque na gastronomia - Foto: Greg Vieira / Arte FolhaPE

A gastronomia, assim como em outras profissões, sempre foi um ambiente dominado pelos homens e, por muito tempo, hostil às mulheres. Para mostrar que o lugar delas é pilotando o fogão e onde mais elas quiserem, a reportagem consultou chefs reconhecidas no mercado pernambucano, de olho no debate em torno do Dia Internacional da Mulher, comemorado neste mês.

Essa luta pelo espaço na cozinha profissional é antiga e, ao longo dos últimos 70 anos, tem mudado a realidade desse mercado. A chef californiana Julia Child foi uma das pioneiras na inserção da mulher na alta gastronomia. Ela descobriu um novo rumo profissional, estudando e se formando no Le Cordon Bleu, de Paris, em 1951, antes de se tornar um ícone da gastronomia, protagonizando um programa culinário na TV e publicando livros em uma época em que chefs mulheres eram minoria.

Quebra de preconceitos
Quando decidiu se tornar uma chef e consultora de gastronomia, a paulista radicada no Recife Miau Caldas precisou enfrentar barreiras na própria família. "Os maiores desafios que a mulher encontra desde o momento que ela decide entrar para essa área é dentro de casa. Muitas vezes, as pessoas não entendem, não compreendem. Há quase 15 anos foi bem complicado, não tinha essa glamourização toda, programas de televisão, nem se falava disso", conta.

Apesar da falta de conhecimento e de apoio da família, decidiu mudar de área – cursava Publicidade - e se formar em Gastronomia. Depois de superar a dificuldade de uma mudança brusca de carreira, foi o momento dela sentir na pele que os obstáculos estavam apenas começando. "Os desafios são eternos, todo dia, desde a hora de acordar e escolher a roupa para ir. 'Ah, essa calça está muito apertada, melhor não', 'essa blusa tá muito decotada, vamos evitar'. A gente, infelizmente, ainda sofre muito. Tem assédio, tem olhares, isso em todo canto, na rua, descendo de elevadores, no prédio, mas o ambiente da gente é muito machista”, detalha.

Miau Caldas, chef de cozinhaMiau Caldas, chef de cozinha e consultora

No contexto acadêmico 
"A formação em Gastronomia é acessível a homens e mulheres e nas faculdades vemos um número bem equilibrado de alunos homens e alunas mulheres. No mercado de Recife ainda é possível encontrar alguma resistência e pessoas que têm a visão machista de que mulheres não têm a mesma performance que os homens (já ouvi que o problema é que 'mulheres engravidam', mas esquecem que mulheres engravidam DE HOMENS). Apesar disso, pessoalmente eu não tive e não tenho dificuldades de inserção no mercado", conta a chef e consultora de gastronomia, Luciana Sultanum, professora do curso de Gastronomia da Faculdade Senac.

"É assim no ambiente gastronômico, é o mundo, não só na cozinha, todas as profissões são machistas. Mas, sinceramente, isso não me incomoda, acho que tudo tem seu tempo e as coisas acontecem naturalmente. Estamos provando ao longo desses anos que temos capacidade, força e somos determinadas assim como os chefs homens", avalia Karyna Maranhão, graduada e pós-graduada em alta gastronomia e chef de cozinha. "É difícil trabalhar em um ambiente chato ou pesado. Comida boa só sai quando o cozinheiro está bem, é puro sentimento. Por isso, no projeto do Café KM um café afetivo, somos a maioria mulheres na cozinha, 90% mulherada", explica. 

Chef Luciana Sultanum Chef, professora e consultora de gastronomia, Luciana Sultanum

Por um futuro igualitário
"Até os brinquedos infantis - panelinhas, pratinhos - sempre tem como apelo clichês femininos, como fotos de meninas brincando, florzinhas cor de rosa, etc. Isso tem impacto no comportamento dos meninos e da sociedade, pois a mulher é sempre associada à cozinha doméstica e o homem à cozinha profissional. Precisamos rever isso tudo com muita atenção", sugere a chef Luciana.
 
“Essa coisa do machismo, do preconceito, de dizer não pode, não consegue, que mulheres não podem levantar uma panela pesada, isso aí é da velha guarda, são aqueles homens bem mais velhos, de cabeça pequena e fechada, do machismo estrutural, que mata. A nova geração é muito mais aberta. A gente está tendo uma renovação e graças a isso as coisas melhoram”, avalia a chef Miau Caldas.

 

ChefChef Karyna MaranhãoChef Karyna Maranhão, pós-graduada em gastronomia

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