Chegou fevereiro: é tempo de Iemanjá

O orixá mais cultuado no imaginário popular tem na sua mesa ingredientes à altura de uma deusa das águas

Abadô é prato tradicionalAbadô é prato tradicional - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Na música de Dorival Caymmi, dois de fevereiro “é dia de festa no mar”. E como bom devoto, “eu quero ser o primeiro a saudar Iemanjá”. A data, popularizada na canção a partir dos ritos praticados em Salvador, na Bahia, exalta a força de um orixá das religiões de matriz africana, cuja ligação também se estabelece pela comida. É sabor que não dispensa beleza, “afinal, que o dia dela chegou”, segue a composição.

Para os pernambucanos, aliás, as festividades acontecem mais cedo, num período que culmina no oito de dezembro, quando, pelo sincretismo católico, se comemora o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Recife. “Já que todas as nossas senhoras são mães de Jesus, Iemanjá, como divindade materna, é representada por várias delas. Em Salvador, acontece neste sábado, dia em que em alguns lugares na Bahia é celebrado, por exemplo, o dia de Nossa Senhora da Saúde.

Os pescadores fazem uma festa grande e bonita divulgada para todo o Brasil”, adianta o pesquisador e babalorixá Brivaldo de Xangô. Mas não precisa seguir o calendário à risca para montar uma mesa na intenção da Rainha das Águas. “Ainda mais porque há alguns terreiros em Pernambuco que dois de fevereiro também referência”, completa.

Embora a comida ritualística precise de um lugar que respeite certas etapas de preparação, como vestimenta adequada e pensamento elevado, por quem é designado a fazer aquele alimento, montar o cardápio a seguir pode ser tarefa adaptada para dentro de casa. “Seja para ela ou qualquer outro orixá. A gente entende que há um lugar certo para isso, mas a sua fé não pode ser transmutada. Se você acredita que ela receberá a oferta, o importante é essa fé”, defende Brivaldo.

Banquete de rainha 
A devoção dos vizinhos baianos no dia 2 de fevereiro é tanta, que a festa se estende para a mesa de restaurantes soteropolitanos, como a Casa de Tereza, da chef Tereza Paim. Tradicionalmente, ela faz a saudação através de um cardápio específico para quem vai participar do circuito da festa, no bairro do Rio Vermelho, onde os devotos entregam ao mar flores, perfumes e alimentos. Sempre tem bolo, mugunzá, sarapatel e outros ensopados.

Fora do circuito oficial, restaurantes pelo Brasil também costumam homenagear o orixá feminino, explorando itens como peixe, milho e azeite doce. No livro “Santo Também Come”, o antropólogo Raul Lody adianta que a convenção de comer surge da necessidade de nutrição e de sobrevivência e que isso não anula os significados simbólicos próprios de cada prato.

 

Ceviche odoyá

Ceviche odoyá - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

 

Para o chef Leandro Ricardo, que estuda as comidas de oferenda desde os anos 1990, a mesa de Iemanjá segue a mesma energia e fluidez das águas, incluindo alguns preparos tradicionais. “Além de o peixe ser um ingrediente forte, há também o milho branco como uma espécie de vetor para o conforto. Afinal, ela é conhecida como a grande mãe, inclusive também a mãe dos outros orixás”, explica ele, ao apontar uma releitura feita exclusivamente para a nossa reportagem e que não se coloca como produção ritualística.

O prato escolhido por Leandro é o abadô, que reúne os elementos principais de oferenda. “Fiz a partir de uma interpretação mais humana daquilo que eu aprendi. Porque, normalmente, colocamos para ela o peixe inteiro e, sobre ele, o milho branco cozido chamado de abadô, além das uvas para decorar e o azeite doce”, detalha o chef.

Na versão de ceviche, os insumos principais seguem agora um contexto moderno, acrescidos ao típico leite de tigre e à cebola roxa. “Esse último é como um oráculo no candomblé, assim como a maçã, para ter a confirmação de algo consultado, como o que acontece na hora de jogar os búzios”, confirma.

Leia também:
Histórias de quem persistiu na gastronomia
[Fotos] Quem faz a gastronomia pernambucana
Mulheres no comando da gastronomia

Já nos terreiros, os únicos frutos do mar que se costumam oferecer ritualisticamente é o peixe e o camarão seco. O acaçá é um bolinho feito com a pasta do milho enrolado na palha de bananeira. Entre as bebidas, um líquido comum na cultura afro é feito a partir da fermentação de gengibre, milho e especiarias, batizado de aluá. Isso sem falar em bebidas como o vinho branco e moscatel. Já o doce é o manjar à base do acaçá de leite.

Força de sereia
O nome Iemanjá tem origem nos termos do idioma Yorubáyèyé omo ejá’, que significa ‘mãe cujos filhos são como peixes’. “Ela é nossa mãe, deusa das águas, que nos abraça com carinho”, resume Pai Miro, lembrando que esse é um dos nomes mais cultuados no imaginário popular. Ainda mais porque sua representação é comum na forma de uma sereia poderosa e encantadora.

 

Abadô é prato tradicional

Abadô é prato tradicional - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

São referências que não deixam de se conectar ao símbolo de batalha. “Geralmente no Brasil, os orixás são muito parecidos. Fazem entender que as religiões de matrizes africanas que aqui chegaram, algumas escravizadas, precisavam cultuar suas entidades e, na maioria das vezes, elas estavam relacionadas com a guerra e com a agricultura, porque retratam a sobrevivência”, explica Brivaldo de Xangô, lembrando, ainda, que alguns desses espíritos surgem sempre com uma adaga na mão, como se servisse de auxílio e amparo nas horas de necessidade.

Receita
Ceviche Odoyá

Ingredientes:
50g de milho branco cozido
200g de peixe branco de água salgada cortado em cubos
10 unidades de uva verde
Suco de 2 limões
1 cebola roxa cortada em julienne
100ml de azeite
1 colher de sopa de coentro em folhas
Sal a gosto

Preparo:
Tempere o peixe com o sal por 10 minutos. Acrescente o suco de limão. Arrume o milho por baixo e peixe por cima. Acrescente o resto dos ingredientes

Peixe abadô

Ingredientes:
50g de milho branco cozido
200g de peixe branco de água salgada cortado
10 unidades de uva verde
Suco de limão
100ml de azeite
Sal a gosto

Preparo:
Tempere o peixe com o sal por 10 minutos. Acrescente o suco de limão. Tempere o milho com um pouco de todos os ingredientes. Asse o peixe numa frigideira com uma parte do azeite de oliva. Arrume o milho por baixo e o peixe por cima. Acrescente as uvas e o restante do azeite

 

Veja também

Dia da Gula: você tem fome de quê?
Pandemia

Dia da Gula: você tem fome de quê?

Como será a alimentação ao longo de 2021?
Saúde

Como será a alimentação ao longo de 2021?