Pandemia

Dia da Gula: você tem fome de quê?

O dia da Gula se aproxima e ganha novo significado nesses tempos de restrição

Dia da GulaDia da Gula - Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A gula tem um dia para chamar de seu. E é no próximo 26 de janeiro em que o pecado capital, integrante de uma lista de sete deslizes morais considerados severos pela Igreja Católica, é lembrado com um quê de folclore e inspira memes na internet. Andei pensando sobre o motivo de a gula ser condenada, condenável. Se o ato de comer proporciona satisfação e felicidade, por que seria algo maldito?


A priori, a gula está diretamente ligada a um comportamento egoísta, ganancioso e insaciável - de querer sempre mais, unicamente para si, ultrapassando os limites da necessidade fisiológica, ou seja, com o não contentamento com o que já se tem. Em outros termos, a gula é a absoluta falta de controle sobre algo que deveria ser usado apenas por necessidade: alimento necessário para cessar a fome. 

O refrão “Você tem fome de quê?”, da música “Comida” dos Titãs, nunca foi tão, metaforicamente, significativo. Em tempos de escassez - de liberdade, de ir e vir, da impossibilidade de abraços e afeto tête-à-tête, parece que nosso apetite está cada dia mais ávido. Não falo ‘somente’ de comida que mata a fome, essa problemática latente e histórica em várias nações, mas, sim, do alimento da alma, do espírito. 

A pandemia do novo coronavírus passa como um rolo compressor no que é tão essencial à nossa saúde, e está dando um novo sentido a uma série de coisas. Inclusive a este pecado capital ao qual me atenho neste texto. A gula foi ressignificada no seu objeto primeiro. 

Temos fome, temos apetite, temos gula do que vivemos até março de 2020, antes do estado de calamidade mundial provocado por um vírus letal. Passamos os dias entre a fome de (re)viver quase tudo o que vivemos até aquele mês. Mais do que nunca, vivemos de memória. Nos alimentamos de #tbs e #tbts no Instagram. Nunca antes quisemos tanto voltar no tempo. 

Hoje, a gente tem gula dos abraços interditados. Fome dos beijos não dados. Apetite da convivência com amigos, colegas de trabalho e, principalmente, familiares. 

Estamos com muita sede também. De toques, apertos de mão, de sentar grudado numa mesa de bar com o amigo, com a melhor amiga. Sede de dar uma garfada no prato do outro só para saber se é tão gostoso quanto o que você pediu para si. 
Nunca estivemos tão famintos. Gulosos. Sedentos. Fomos tomados por uma ganância nunca antes sentida por uma geração nos últimos 100 anos. Temos fome de Carvanal, São João e das ceias de Natal e Réveillon. Já perceberam que todas as nossas saudades de hoje são de gente perto, muita gente junta, de calor humano e compartilhamento de bons momentos?
À espreita, se regozijando, a gula in natura, em estado bruto, foi vivida ainda em nossos confinamentos de meses. Impedidos de conviver, descontamos nossos medos e anseios, muitas vezes na comida. 

Que esse estado “de fome” nos faça melhorar como gente. Que o futuro melhor chegue com fome de boas mudanças. Que nossa gula de hoje não nos faça seres mais egoístas que antes. Enfim, que tenhamos fome de sermos melhores e de fazer o melhor para o outros. 

 

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