Gula, o excesso que começa pelos olhos

Prazer de comer passa pela fartura de um prato e gera definições sobre o que seria, exatamente, um glutão

Karina Rodrigues não se faz de rogada ao seu combo favoritoKarina Rodrigues não se faz de rogada ao seu combo favorito - Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

A empresária Karina Rodri­gues, 35, também aten­de pelo apelido de Magali. Seus amigos justificam que o apetite da menina meiga, desenhada por Maurício de Sousa em 1963, é tão voraz quanto o da nossa per­sonagem da vida real, nos dias de hoje.

Ela, que vestiu a carapu­ça e nunca rebateu o codinome imposto, não se faz de rogada ao matar a fome quantas vezes vier, e se vier. “Tudo pra mim é motivo para comer”, diz ao se declarar uma verdadeira gulosa. Aliás, gula é um tema recorrente. Está na história, na literatura, nos hábitos do cotidiano e tem uma data só sua em 26 de janeiro.

No dicionário, a palavra tem origem no latim e significa o hábito de cometer excessos na comida e bebida. Na prática, é bem mais comum do que se imagina. Você mesmo, em algum momento, já deve ter se perguntado sobre o tamanho real da sua fome. A resposta não é nada fácil, cada um certamente terá sua justi­ficativa. Por isso, esqueça logo a imagem de alguém muito acima do peso como a figura única do glu­tão - nome dado a quem não resiste à fartura de um prato. A gigantesca Dona Redonda, por exemplo, cai melhor no texto escrito por Dias Gomes. Comer com os olhos tem sido prática que não vê cara, nem coração.


Que o diga Karina, que já se pegou saindo para comer hambúrguer com batata frita 14 vezes em um único mês. “Inclusive foi tema da minha fantasia no Carnaval do ano passado, quando saí vestida como a esposa do Ronald MacDonald”, descontrai.

Confessar assim é para poucos, uma vez que a gula permeia um dos sete pecados capitais, sendo o quinto entre eles. Das tentações modernas é uma das mais orgânicas, como dita na abertura do livro “O Clube dos Anjos”, do cronista Luís Fernando Veríssimo. “Não é to­do dia que se quer ouvir uma crocan­te fuga de Bach, mas todos os dias se quer comer. A fome é o único desejo reincidente, pois a visão aca­ba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba - mas a fome continua”.

E ela está tão presente, e se reinventando cada vez mais, como num prato de quem tem a variedade ao alcance das mãos. Já pensou o quanto uma pessoa consegue comer num único bufê? A chef Rafaela Suassuna, do Porto Fino, calcula o limite individual de 1,2 kg de proteína em até seis horas, levando em conta o consumo mínimo em cada item colocado à mesa. “Seria o máximo idealizado, mas nunca vi se concretizar. Fica na média de 450 gramas. Vejo a proporção aumentar em termos de bebida, porque ao comer você se dá conta de um limite”, diz ela ao apontar os frutos do mar como a pedida que mais sai.

Para a estudante Marília Lopes, 27, a tentação é um disco de pizza bem caprichado. “O prato é de pedreiro, mas o coração de mocinha”, define. Num rodízio, ela chega a devorar 23 pedaços, deixando para trás namorado e amigos na marca dos 16. “É algo que me desperta prazer, ao pon­to de ser minha programação preferida, inclusive com o dinheiro já reservado todo o mês”, completa. 

Excesso

Comer até dizer basta é excesso praticado desde os tempos da Roma Antiga, quando os banquetes eram verdadeiras manifestações de luxo e poder, com destaque aos pratos exóticos. Um deleite que mudou de sentido ao passar dos anos e, a depender do contexto cultural, gera hoje definições por quem estuda clinicamente o assunto.

Para o professor de psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Sylvio Ferreira, a gula representa a vontade de preencher perdas. “Uma das maneiras de tentar aplacar a ansiedade gerada é substituir o objeto perdido por outro que, no caso, pode ser a comida”, explica.

Do ponto de vista do cristianismo, trata-se de um pecado capital por dar origem a outros pecados. Dividir, por exemplo, não está entre as primeiras intenções de um aficionado por comida. Mas, calma, nem todo mundo é o glutão que se considera ser. Deparar-se com aquele prato cheio de contexto afetivo, degustado nos momentos de alegria, só pode resultar em festa. “É como o alimento tão carinhoso de uma mãe, feito para o filho no momento de reencontro. Essa comida terá um sentido e não pode se caracterizar gula”, explica Frei Rinaldo, da paróquia Madre de Deus.

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