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Janeiro com passaporte e talher na mão

Saiba como fazer um roteiro gastrô certeiro para a tão esperada viagem internacional

Eleven Madison Park é restaurante americano estreladoEleven Madison Park é restaurante americano estrelado - Foto: Vanessa Lins/Cortesia

Quem planejou uma viagem pa­ra fora do Brasil em janei­ro sente que demorou, mas, enfim, chegou a hora. Hotel, deslocamento e passeios estão definidos. No en­­tanto, se não pesquisou com atenção os lugares on­de vai comer, sinto informar que só fez metade do dever de casa. Com esse breve descaso, você e quem estiver ao seu lado correm o sério risco de comer mal e seguir viagem levando uma dor de cabeça que não será necessariamente de fome, mas de raiva. Seja por um prato descuidado, conta supervalo­ri­zada ou qualquer outra situação in­digesta ao turista. Sendo assim, reabra o seu plano de viagem e crie um tópico gastrô no roteiro, de olho nas orientações de quem sabe comer bem.

Cada destino, uma mesa
De maneira objetiva, ir para o exterior é um sonho caro. Se for longe da América do Sul, dólar, euro e libra seguem nas alturas. Portanto, é preciso planejar o quanto será destinado também para a alimentação. Quem segue rumo aos destinos com maior fama gastronômica, deve redobrar o cuidado, pois variedade não está associada à qualidade nos restaurantes de Primeiro Mundo. Itália, França e Portugal seguem como os lugares mais associados à comida, segundo o presidente da Associação Brasileira de Agentes de Viagem de Pernambuco (ABAV-PE), Marcos Teixeira.

“Por conta da moeda, a projeção para 2020 não será de tantos pacotes de viagem para fora do País. Mas quem vai nesses destinos sabe que eles têm uma grande força gastronômica, incluindo a Tailândia, já reconhecida por uma oferta exótica”, completa Teixeira. Na lista dos comensais também estão Holanda, Estados Unidos e Peru, figurando entre os mais famosos da boa mesa (saiba mais na página 8). Ainda de acordo com Teixeira, a alta da moeda tem feito os turistas anteciparem o pagamento de itens essenciais, separando uma quantidade mais suave de dinheiro para o dia a dia. Neste caso, a dica é lembrar que ao menos duas refeições serão feitas ao dia, além dos pequenos lanches. É separar esse valor com margem para os imprevistos.


Procurar e não errar

Escute um amigo que conhece suas preferências e já visitou o seu destino das férias. Marque um café e converse sobre as chances de visitar as indicações que estarão na sua rota. Como o planejamento começa pela verba da alimentação, será que existe apenas um ótimo restaurante longe da sua hospedagem e do metrô? Pesquise os arredores do hotel e veja como se deslocar sem gastos excessivos. No celular, alguns aplicativos podem facilitar a pesquisa.

O Google Maps, além de ajudar nas formas de deslocamento, tem base de dados voltada para os “restaurantes perto de mim”, em mais de 200 países. Se você for usuário participativo no app, ele ainda informa o seu grau de afinidade com o estabelecimento. Já o TripAdvisor enumera os endereços com a opinião de clientes do mundo todo e ainda oferece a possibilidade de reservar uma mesa, através do site parceiro The Fork. O Foodspoting faz parecido. Divulga fotos dos lugares com o comentário do público sobre comida, atendimento e valores.

Mas se a ideia é seguir a avaliação de profissionais no mundo gastronômico, o guia Michelin divulga a classificação pelas suas famosas estrelas. Chefs e restaurantes entram e saem da lista desde 1900. Outro notável é o The Word’s 50 Best, com uma lista produzida pela revista britânica Restaurant, que ranqueia anualmente os melhores do mundo. Há pouco tempo, o grupo lançou a plataforma 50 Best Descovery, que relaciona os estabelecimentos que não entraram na lista, mas, por serem tão bem avaliados, merecem a visita.

Hot Dog é clássico americano

Hot Dog é clássico americano - Crédito: Vanessa Lins/Cortesia

A Nova York de todos os sotaques
Jordânia, Itália, Paquistão, Vietnã, Rússia, Polônia, Grécia, Tailândia. As mais remotas culturas do mundo se encontram na grande maçã que é a ilha de Manhattan, no estado de Nova York. Difícil algum sotaque não se achar nas ruas mais filmadas pelo cinema e pelas séries de TV. Definitivamente, Nova York é o lugar para quem gosta de comer bem, barato ou caro. Tem comida para todos os bolsos e expectativas. Sem falar que o conceito de “casual” é exercido com uma maestria ímpar para qualquer lado que você vá.

Mais dicas
Por Vanessa Lins

Vamos começar com um clichê da cidade, o hot dog. Vendido a 2 dólares, a combinação de pão com salsicha, um fio de catchup e outro de mostarda - em alguns carrinhos é acrescido molho de tomate com cebola picada - é o almoço de gente apressada e de turistas que não dispensam provar a “iguaria” local. Particularmente, acho sem graça (sou mais o cachorro-quente nas versões brasileiras, atolado de toppings). Espalhados pela cidade também há os carrinhos de lanches árabes - sanduíche de falafel e refeições na ‘marmitex’ - a 7 e 8 dólares em média. A rede Halal Guys é a mais famosa da Big Apple, sempre com fila de novaiorquinos e muitos, muitos turistas que querem economizar. Pretzels são outra atração dos trucks nas ruas principais.

- Mas pera lá, estamos em Nova York! Não dispense a chance de explorar culinárias longínquas - tailandesa, vietnamita, indiana, iraniana, grega, das Filipinas. Há muitos pequenos restaurantes e lanchonetes simples que valem o quanto cobram: sem luxo, sem rituais, é escolher, pagar e levar. Tenho ótima lembrança dos rolinhos veganos que comi no Sao Mai, uma casa simples no East Village, com porções grandes para compartilhar. E o preço, ó, amistoso. Em outra ida a Nova York, fui a um bar chamado Pravda - soube que fechou -, mas ficava no subsolo, lembrava um bunker, tinha degustação de vodcas e de caviar, estrogonofe original e atendentes russas que pareciam ter saído dos editoriais de moda. Que lugar! Em um bistrô indiano cafona, que não lembro o nome, era dezembro, me dei mal com um chicken masala - o curry era tão, mas tão apimentado, que eu simplesmente não consegui comer. Depois de muita água, ri horrores da experiência e matei a fome com algum hambúrguer perto do hotel.

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- Cenário do filme “When Harry Met Sally” (1989), com Billy Crystal e Meg Ryan, a Katz´s Deli é uma instituição de Manhattan - funciona desde 1888 - e fabrica o próprio pastrami, transformado em sanduíche gigante, sua principal atração. Superestimada é a rede de cupcakes The Magnolia Bakery, que ficou famosona ao aparecer no seriado “Sex and the City”. Até hoje, turistas fazem fila para garantir os bolinhos.

-Estando em Nova York, fuja dos fast food famosos, arrisque. A marca de hambúrguer de rua mais bem-sucedida é a Shake Shack, atualmente com filial até no Japão. O conceito de smash burger foi popularizado aqui. O quiosque no Madison Square Park é a filial mais agradável. Tem mesinhas no jardim, cardápio para cachorro e todo o burburinho dessa região. Perto dali, fica o três estrelas Michelin Eleven Madison Park, o restaurante mais incrível que visitei até hoje, o Eataly e o Upland - bistrô charmosíssimo com comida ótima, de pizza à salada, do chef Justin Smillie. Vez ou outra, Obama come hambúrguer lá.

- A lista de dicas não teria fim, dada a minha paixão por gastronomia, por Nova York e por viagem. Mas se puder ainda incluir um bar de drinques, o faça. A cidade é um dos spots no assunto, junto a Londres, e define as tendências das coqueteleiras. O Employees Only e o Dead Rabbit são duas referências. Há pizzarias por toda a cidade, a maioria vendendo slices (fatias) a dois, três dólares, são ótimas opções para comer rapidinho. Dificilmente, você vai esbarrar com uma pizza verdadeiramente ruim. A Roberta´s Pizza, no distrito do Brooklyn, é o grande nome quando se trata da receita. A fama se dá por dois motivos: a ótima pizza criada pelo pizzaiolo Anthony Falco (não mais na casa, sócio da Braz Elétrica, em São Paulo) e pelo conceito de pizzaria completamente inovador. O restaurante é meio detonado, com grafites na fachada e heavy metal tocando no delivery. Reserve.

Vai para Londres?
“A maioria dos restaurantes tem menu no site. Cheque antes as possibilidades. Você vai ganhar tempo e não vai precisar alugar o garçom perguntando o que é tal ingrediente. Caso você não tenha alergia ou restrição alimentar, é recomendável não pedir trocar de itens no seu pedido”, diz sem arrodeios a jornalista brasileira e uma das autoras do guia “Londres Gastronômica”, Manoella Valadares. Ela e as amigas Angélica Bueno, Denise Neves e Marta Barbosa Stephens reuniram na publicação a resenha de 35 restaurantes visitados anonimamente.

O fato de morar na terra da rainha Elizabeth faz Manoella ter propriedade no assunto. Por isso, ela ainda reforça que a palavra mágica para comer com qualidade sem arriscar voltar na porta é reserva. “Em Londres, tem muito lugar onde o ambiente é lindo, a comida mais ou menos e a conta cara! Faça sua pesquisa antes da sua chegada em guias, aplicativos como o Foursquare e um básico Google. A Timeout oferece bons descontos em lugares com padrão aceitável”, completa.

Mais dicas
Por Manoella Valadares

-Nao gaste dinheiro com água mineral e ajude o meio ambiente. Peça tap water (água da torneira), que já vem filtrada
-Diferente de NYC, em Londres não é “obrigado” a deixar gorjeta. Deixe se achar que vale
-Se é adepto de custo-benefício, vá no “set menu” oferecido no almoço dos restaurantes
-Não esqueça “thank you” e “please”. Palavras básicas que garantirão um bom atendimento
-Afternoon tea (chá da tarde) é legal para mergulhar mais pela atmosfera desse hábito londrino do que pela gastronomia. O preço pode ser um pouco salgado. Se realmente quer ir, pesquise antes da reserva
-Não gaste tempo indo na sua acomodação para trocar de roupa antes do jantar. Em Londres, geralmente se janta cedo, então as pessoas emendam com trabalho ou passeios
-Mercados de rua são uma ótima dica para quem gosta de diversidade

Para Letícia Rocha, carbonara em Roma é no Da Enzo al 29

Para Letícia Rocha, carbonara em Roma é no Da Enzo al 29 - Crédito: Letícia Rocha/Cortesia

Check in em Roma
Não existe Itália sem as famosas pizzas e massas. Mas a quantidade de ofertas é proporcional ao número de ciladas. Os atrativos estão na clássica carbonara, no apimentado cacio e pepe, feito com pecorino e pimenta-do-reino, além da famosa amatriciana, à base de tomate, pancetta e pimentas. Para encontrar as melhores, a jornalista Letícia Rocha, idealizadora do blog Rome Sweet Rome, sugere ir ao bairro típico das trattorias, chamado Trastevere, e fugir das ruas principais. “Da Enzo al 29 e Roma Sparita são boas opções. Esse último já ficou famosinho depois do chef Antonhy Bourdain, mas, ao menos, não está tão no buxixo da exploração turística. Pizza aqui é no La Bocaccia”, sugere.

Mais dicas
Por Letícia Rocha

-Perto do Vaticano, Hostaria Dino y Toni, frequentado só por locais, tem sugestões que custam 10 euros no almoço. Por ali, café da manhã no Fiorentina 1942, na frente do imperdivel Mercato Trionfale
-Perto do Pantheon, um clássico é o Armando al Pantheon. Melhor reservar ou chegar cedo
-Gelato: experimente os de fruta, melone e fragola (morango), dois sabores sem graça e na Itália são dos deuses
-Entenda: pizza bianca (como uma focaccia) e pizza rossa (só com molho tomate picante ou não)
-Ainda no Campo dei Fiori: é ali a feira mais famosa de Roma, tanto que já virou turística, chinesa, mas ainda tem coisas boas e vale a visita
Pizza redonda: nem pense em pedir pra mudar o recheio ou fazer meia a meia. O italiano pode voar na sua cabeça
-Em Roma: o metrô fecha cedo, às 23h30; na sexta e sábado, 1h30; mas a cidade é bem servida dos ônibus noturnos sinalizados nos pontos pela letra N. A água dos ‘bebedouros’ é potável

Lisboa, ora pois!
A proximidade com o nosso cardápio facilita a escolha. Prova disso é a fartura dos pratos com pescados e os cozidos servidos em pratos caudalosos. Queijos, bolos e a infinidade de doces à base de ovo, leite e açúcar também não é novo para os brasileiros. Junte tanta comida à oferta de vinhos distribuídos diretamente pelos produtores e não se incomode com os quilinhos a mais adquiridos nessa viagem.

Mais dicas
Por Edi Souza

-O Mercado da Ribeira - Time Out Market é uma espécie de praça de alimentação permanente - com os melhores nomes gastrô de Lisboa - na versão pocket. Anote Leitão da Ribeira, Alexandre Silva, Manteigaria, O prego da peixaria, Henrique Sá Pessoa e outros
-A alta temporada em Portugal acontece entre julho e setembro, no verão, e entre dezembro e fevereiro, no inverno
-Os portugueses tendem a ser bastante precisos no quesito atendimento. Quando pedir algo no restaurante, seja o mais objetivo e cordial possível
-Um clássico: pastel de Belém só em Belém! Nos demais lugares, chama-se pastel de nata
-Quer conhecer um dos melhores bares do mundo? O Red Frog está entre os 100 estabelecimentos no mundo que merecem a visita, segundo o The World’s 50 Best Bars.

Não erre na gorjeta
Segundo a gerente de Vendas da CVC, Yaskara Queiroz, na Itália e na França, a conta já chega com a taxa de 15% de serviço definida por lei, portanto, não é necessário dar gorjetas extras. “Mas, muitos turistas costumam deixar um par de euros a mais junto com o pagamento nos restaurantes. É opcional”, explica. Nos Estados Unidos a gratificação de 15% a 20% do valor da conta não vem descriminada, “mas é bastante aguardada. Saias justas podem surgir caso o valor da gorjeta não seja o esperado”, aponta Queiroz.

 

 

 

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