Jejum é abstinência à mesa que começa na Quaresma

Para os cristãos, o período que antecede a Páscoa inclui a penitência da restrição alimentar. A prática, no entanto, atravessa milénios e hoje provoca dúvidas sobre seus métodos e efeitos. Saiba diferenciá-los com a orientação de especialistas

Religiosos pregam o jejum, a partir de qualquer restrição alimentarReligiosos pregam o jejum, a partir de qualquer restrição alimentar - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Passada a euforia do Carnaval, cristãos de todas as partes iniciam o chamado período litúrgico de preparação para a Páscoa. É na Quaresma, que dura 40 dias entre a Quarta-Feira de Cinzas e o Domingo da Ressurreição, que católicos e judeus exercem algum tipo de penitência em nome de seus arrependimentos e reflexões.

Contexto para o jejum simbolizar atitude de reclusão e abstinência do indivíduo, por tirar da sua rotina um dos maiores prazeres da vida, que é o ato de comer.
Ainda na corrente religiosa, essa é uma forma de purificação da alma para que, ao chegar na Semana Santa, o fiel esteja mais puro diante do sacrifício de Cristo.

Houve uma época em que era, inclusive, uma restrição obrigatória pela Igreja Católica. Atualmente, segue como uma orientação importante. A origem, segundo o padre Rinaldo, da Igreja da Madre de Deus, no Bairro do Recife, está na ida de Jesus ao deserto, onde ele se isolou para meditar por exatos 40 dias. “O deserto é o lugar do essencial. Olhemos para as nossas vidas: quantas coisas inúteis nos circundam. Seguimos mil coisas que parecem necessárias, mas na realidade não são”, diz, ao reforçar um trecho do discurso do papa Francisco sobre a Quaresma deste ano.

A carne vermelha segue como o principal alvo nessa história, por simbolizar um tipo de fartura e prazer gastronômico que o período dispensa. Razão para os judeus considerarem o peixe um alimento limpo, além de representar maior simplicidade à mesa. E, sim, a carne de frango também é sinônimo de abundância.

Embora o jejum tenha passagens importantes na Bíblia, trata-se de uma das tradições mais antigas que a história tem conhecimento. Os registros dão conta de que Hipócrates de Cós (460-370 AC), conhecido como o “pai da medicina”, defendeu a abstinência alimentar como uma espécie de processo de cura para doenças. Pensadores gregos, como Platão e Aristóteles, também entendiam a restrição como expressão do instinto humano de não se alimentar quando se está doente. Sendo uma atitude universal a todos os homens. Já outra corrente de pensadores afirmava que esse é o caminho para despertar habilidades cognitivas, permitindo que o sangue circule melhor pelo cérebro e não pelo intestino - como acontece depois de se alimentar sem culpa.

Não é difícil imaginar que muito antes dessas reflexões, o homem do paleolítico, a aproximadamente dois milhões de anos atrás, enfrentava todo tipo de limitação. O fogo nem era uma realidade e a maneira de estocar a carne não estava perto de ser descoberta. Restava então se alimentar pela oportunidade da caça, resultando em horas e até dias de jejum da proteína animal. Tanto que, hoje, essa restrição ancestral é preceito básico para uma das dietas mais conhecidas da atualidade, que leva o mesmo nome do período pré-histórico, pregando a alimentação livre de horários muito restritos.

Peixe é carne branca que representa simplicidade e limpeza

Peixe é carne branca que representa simplicidade e limpeza - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco

O que diz a Ciência?
Não à toa, esse é um assunto que sempre despertou o interesse de médicos e estudiosos de saúde ao longo do tempo. Afinal, o que acontece com o corpo a partir das limitações calóricas tão úteis para funções básicas do corpo? Segundo o nutrólogo Jêmede Valença, o jejum retira parte do gasto energético destinado à metabolização de nutrientes, sendo esse o momento exato para gerar outro tipo de equilíbrio ao organismo.

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“O que temos de novidade na prática do jejum intermitente, por exemplo, é ele ser benéfico para a longevidade. Talvez a gente não saiba se vai gerar benefício a partir de qualquer idade. Ou seja, um indivíduo de 70 anos começar a fazer agora e não termos a certeza se é suficiente para aumentar seu tempo de vida. Por outro lado, jovens que tendem a fazer essa ação, devidamente aprovados e avaliados, experimentam, sim, benefícios”, conclui. A afirmação é baseada em estudos internacionais sobre envelhecimento, como o que foi publicado em 1935, a partir de testes feitos com ratos que passaram a ingerir menos comida na fase adulta, sem entrar em desnutrição, vivendo entre 30% e 60% a mais do que o esperado.

Outro exemplo ratificante é o de populações onde esse hábito está ligado à espiritualidade e qualidade de vida, como nos povos do Oriente Médio. Um deles, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), é Israel, com expectativa de vida entre 77 e 85 anos. Nos consultórios, o jejum intermitente indica abstinência alimentar em torno de 16 horas. “Só assim para perceber efeitos metabólicos como a redução de resistência à insulina, a baixa do hormônio grelina (também conhecido como o hormônio da fo­me), aumento do hormônio adipo­nectica, que regula várias funções e gera melhor adaptação ao estresse oxidativo”, completa Valença.


Quando há restrições
De acordo com especialistas, o fato de o jejum estar ligado apenas a benefícios estéticos em muitos textos da internet, uma vez que ocorre a perda natural de peso, contribui para o uso desregular pela população. Para se ter uma ideia, a maioria dos pacientes da nutricionista Carol Chambel vai à consulta já interessada nessa solução como alternativa rápida de emagrecimento. “Mas há restrições sérias para crianças, grávidas, idosos e quem tem patologias como diabetes tipo 1 e 2, além de pessoas com problemas renais, doenças autoimunes e que contribuem para o metabolismo queimar calorias de forma acelerada, provocando diminuição severa de peso”, conclui Chambel.

Situações avançadas de sarcopenia, doença responsável pela perda de massa magra, também são do grupo de risco. Por outro lado, quem não sofre dessa patologia, ainda segundo Jêmede Valença, não tem risco de desenvolvê-la através do jejum intermitente, como muitos pensam sobre como o organismo encontra uma nova forma de obter energia. “Como a restrição calórica equilibra outras etapas metabólicas, inclusive àquelas ligadas à sarcopenia, não há aumento de casos”, reforça, lembrando a proteção da saúde do intestino, a manutenção da flora bacteriana e o auxílio nas funções cognitivas.

 

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