Nutella: doce ou amarga?

Polêmicas à parte, tem muita gente que não resiste a uma boa colherada do famoso creme de avelã

NutellaNutella - Foto: Leo Motta

Imagine que a cada 2,5 segundos um pote de Nutella - sim, aquele creme de avelã italiano com letras gordinhas no rótulo - é vendido em algum lugar do mundo, muito mais do que a quantidade de bebês que nascem nos Estados Unidos: um a cada oito segundos. Os dados são do portal gringo Mental Floss e do United States Census Bureau, esse último, órgão que faz a contagem da população norte-americana.

Impressionado, leitor? Então, segura mais essa. A quantidade da guloseima vendida por ano nos 75 países onde está presente é suficiente para cobrir mais de mil estádios de futebol, segundo o site de curiosidades brasileiro Mega Curioso.

Não precisa de muito mais para compreender que a marca criada em 1964 por Michelle Ferrero, do Grupo Ferrero, na região do Piemonte, ao norte da Itália, é um dos maiores fenômenos midiáticos da indústria alimentícia. A aura de fanatismo que cerca o doce chegou a proporções dignas de uma seita extrapolando as prateleiras quando, em 2007, a blogueira Sara Rosso, fã do creme de avelã (será mesmo?), criou o Dia Mundial da Nutella por conta própria, propondo que, em todo 5 de fevereiro, consumidores vorazes como ela dividissem nas redes sociais as combinações favoritas com a guloseima.

Logo, a ideia foi adotada pela própria marca que, hoje, convoca os “nutellamaníacos” a se conectarem. Esse estado de frenesi em torno do produto parece estar longe de acabar, mesmo quando a Nutella vira o epicentro de polêmicas que vão além dos vetos dos nutricionistas, você verá logo mais à frente. Voltamos, então, à pedra fundamental, ao DNA desse item alimentício que consegue ser fenômeno de consumo, mas parece estar sempre na mira de vigilantes fiscais ambientais e de saúde.
A sua primeira versão surgiu pelas mãos de Pietro Ferrero, pai de Michelle, em 1946, logo após a 2ª Guerra, que, entre outras consequências, trouxe a escassez de cacau.

Confeiteiro, Pietro inovou ao bolar um creme doce feito de avelã, açúcar e um pouco de cacau - fórmula que já se transformou bastante -, moldado no formato de bolo que poderia ser fatiado, o qual batizou de Giandujot, em alusão a um personagem do Carnaval local à época. Anos depois, Michelle desenvolveu a fórmula conferindo a cremosidade característica do produto.

Atualmente, longe de ser um alimento artesanal, produzido em escala industrial, o que é uma contradição em se tratando da cultura culinária da Itália - fincada nas manufaturas -, nem os italianos abrem mão do produto, segundo a jornalista gastronômica Letícia Rocha, com Master em Cultura da Alimentação e das Tradições Enogastronômicas Italianas pela Università di Roma Tor Vergata.

Letícia morou em Roma por conta dos estudos e confirma que o café da manhã dos romanos é composto, via de regra, por um cornetto (parecido com o croissant) recheado com Nutella. “Nas casas que dividia com amigos italianos e franceses, cada um tinha um potinho de Nutella em sua respectiva prateleira no armário. Se acabava, meu Deus, eu ouvia: ah, tenho que ir ao mercado hoje, está acabando minha Nutella e o que eu vou comer amanhã, no meu café da manhã?”, lembra a jornalista.

“Certa vez, um namorado italiano disse que achava o café da manhã brasileiro gordo, gorduroso - pão com manteiga, basicamente -, e eu perguntei o que ele achava da Nutella e a massa do cornetto. Ele disse que não era, não! É realmente um fascínio e uma ligação muito forte e cultural que transcende. Eles (os italianos) não acham que é algo industrial e com ingredientes não tão bacanas assim: li em alguns sites que a maior parte é açúcar e depois, o óleo de palma. E que só tem 13% é avelã!”, comenta impressionada.

Ame-o ou deixe-o
Não há como negar que este é um ingrediente polêmico no mercado mundial. Enquanto uns se assumem verdadeiros apaixonados pelo produto, outros erguem a bandeira da sustentabilidade e da boa saúde, motivados por notícias recentes que ganharam destaque na imprensa no começo deste ano.

Foi quando supermercados europeus fizeram uma espécie de boicote ao retirar a marca das prateleiras por conta do alerta da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar sobre a presença de um elemento potencialmente cancerígeno no preparo. Ele seria gerado pelo óleo de palma em alta temperatura, que no Brasil é conhecido como óleo de dendê.

A informação correu solta e pegou até os mais desavisados, levando a Ferreiro reforçar que seu processo industrial inclui temperaturas abaixo de 200 graus Celsius, rebatendo então as críticas e negando a substituição por outro elemento. A questão ainda segue em debate, mas segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), não há recomendação para que as pessoas parem de ingerir o óleo de palma. E não é só isso, o grupo também enfrenta comentários como o da ministra francesa, Ségolène Royal, sobre a necessidade de replantar as palmeiras para evitar desmatamento e aquecimento global.

Mas se engana quem achar que essas questões afetaram a comercialização da marca. De acordo com a empresa, as vendas globais não foram atingidas, aliás, permanecem em crescimento. Em se tratando de consumo, não há polêmica que afete mesmo o vício de comer Nutella quase todos os dias, como na rotina da pequena Gabriela Rodrigues, de 11 anos.

Embora os pais a orientem em relação a quantidade, a pequena faz uso na sobremesa e na hora do lanche, seja com pão, bolacha e até mesmo em cima de uma pizza. “É porque ele tem um gostinho de chocolate que faz toda a diferença na hora de comer”, defende sob o olhar atento da família.



Cardápios
A pasta doce e de textura macia faz o público se envolver com o produto, que no Recife tem um lugar só seu na forma de quiosque. O Nuts é um espaço com duas unidades em shoppings no Recife e aposta numa modalidade comum na Europa, onde os crepes são servidos com o creme de avelã em carrinhos. A adaptação é apenas estrutural, porque o cardápio quer manter o mesmo atrativo da marca no mundo afora.

“Sabíamos que o pernambucano tem paladar para isso, tanto que a faixa etária dos nossos clientes hoje é abrangente. Ele chega e escolhe entre waffle ou crepe com recheio de Nutella ou doce de leite argentino e ele ainda monta com os acompanhamentos a sua escolha”, diz o empreendedor Eduardo Pernambuco.
Por aqui, os endereços abraçam essa opção muito mais do que se imagina. Em Analu Atelier, no Pina, pelo menos três sugestões incluem a pedida, como o afogado e seu copo com bolo de chocolate com brigadeiro quente de Nutella. “Quando as pessoas escutam esse nome, os olhos brilham e acaba que os doces com esse ingrediente vendem bastante”, diz a confeiteira Ana Luiza Souza.

Assim também acredita a empresária Natália Valença para o seu Café com Dengo, nos Aflitos. “O cappuccino com creme de avelã é um dos mais pedidos. Uma mistura de café espresso, leite vaporizado e uma generosa camada da Nutella no fundo da xícara e na borda. É de encher os olhos além de ser uma delícia”, garante.
Recheio perfeito também nas mãos da chef Karyna Maranhão para o menu do Cake & Bake, em Boa Viagem. Por lá, tem sempre um bolo com uma calda especial. “Há um quê de proibido, que o mundo ama, e nós brasileiros um pouco mais por gostarmos tanto de chocolate e brigadeiro, sendo que avelã faz toda a diferença”, completa.

Quem também morre de amores pelo doce é a barista Isabela Almeida, do A vida é bela café, na Várzea. Na casa há algumas produções com a marca e o motivo de tanta aceitação, segundo ela, é o prazer que causa nas pessoas. “Faz parte do imaginário popular de algo capaz de deixar a gente feliz”, define.

Veja também

Sobremesa: prepare um petit gâteau de queijo de coalho
Receita

Sobremesa: prepare um petit gâteau de queijo de coalho

Comemore o Dia Nacional do Queijo atento às novidades da produção em Pernambuco
Gastronomia

Comemore o Dia Nacional do Queijo atento às novidades da produção em Pernambuco