O amargo sabor da derrota

Perdemos o mundial, mas ficamos com o legado da cozinha

Nós brasileiros ficamos apenas com o estrogonofeNós brasileiros ficamos apenas com o estrogonofe - Foto: Da editoria de Arte

A Copa do Mundo acabou domingo passado, com a vitória dos franceses. Mais que justo, que mereceram mesmo. Durante um mês, este que é o maior espetáculo da terra, invadiu jornais, rádios, televisões, internet e vasto conjunto de meios de transmissão de informação com o qual sequer se sonhava, na primeira Copa do Mundo (em 1930), no Uruguai.

Bom lembrar que este país foi o escolhido porque, dois anos antes, ganhou a medalha de ouro nos jogos olímpicos. Junto com a Copa, entrou em nossas casas um pouco da história de cada país participante; e, sobretudo, da Rússia - o país sede. Monumentos, festas, museus, cidadezinhas perdidas no tempo, grandes metrópoles, rios, maneiras diferentes de torcer, suas gentes, culturas, cores, bandeiras.

Hinos também, tocados de maneira solene antes de cada jogo. Quase sempre falando da disposição em lutar pela pátria. O francês é o mais conhecido de todos - “Allons enfants de la Patrie/ Le jour de gloire est arrivé”. O russo, herança do hino da União Soviética, fala do amor pelo país: “Rússia é o nosso estado sagrado,/ Rússia é o nosso amado país”.

O belga fala de “Le Roi, la Loi, la Liberté”. O inglês homenageia a rainha “God save de Queen”. O mexicano diz que ao grito de guerra “El acero aprestad y el bridón”. O português fala de suas conquistas: “Heróis do mar, nobre povo/ Nação valente e imortal/ Levantai hoje de novo/ O esplendor de Portugal”. Sem esquecer o nosso hino, com letra de Osório Duque Estrada e música de Francisco Manoel da Silva. Vai ficar para sempre, na nossa memória, brasileiros cantando, mesmo depois do tempo oficial, “Terra adorada/ Entre outras mil/ És tu Brasil/ Ó Pátria amada”.

Chegou em nossas casas também notícias da culinária de alguns desses lugares. Nossa feijoada, Parrilla (Uruguai), Bife de Chorizo (Argentina), Ceviche (Peru), Ajuaco (Colômbia), Taco (México), Paella (Espanha), Bacalhau (Portugal), Cassoulet (França), Yorkshire Pudding (Inglaterra), Stoemp (Bélgica), Raclette (Suiça), Eisbein (Alemanha), Fricadeller (Dinamarca), Pyttipanna (Suécia), Goulash com vinho (Croácia), Plieskavica (Servia), Muhallebi (Turquia). A Rússia nos mostrou Borscht (sopa de beterraba), Goluptsi (carne moída e arroz enrolados em folha de couve), Draniki (panqueca de batata) e o famoso Stroganov. Embora nosso estrogonofe seja bem diferente daquele servido por lá.

Só para lembrar, essa receita nasceu na Rússia do séc. XVI. Quando as rações dos soldados era, basicamente, carnes cortadas em pedaços. Essas carnes, nos depósitos de mantimentos das tropas, ficavam em grandes barris - misturadas com sal grosso e aguardente, para que se conservassem por mais tempo.

Na hora de preparar, era frita em gordura e servida com cebolas. Só mais tarde o prato ganhou esse nome - no reinado de Pedro, o Grande (1682-1725). Mais precisamente, quando o Imperador pediu a seu cozinheiro que preparasse um jantar especial, em homenagem ao General Stroganov. Não era um militar qualquer. Pertencia a família nobre de Novgorod, lugarejo que fica no entorno de São Petersburgo - esta, cidade fundada pelo próprio Pedro.

Os Stroganov construíram vilas, fortalezas, fábricas de armas e, como se fosse pouco, até conquistaram a Sibéria. Sem contar que esse ilustre General acabara de derrotar, na Poltava (1709), Carlos XII. O experiente cozinheiro decidiu então servir algo que lembrasse aquela carne picada tão apreciada pelo General nos campos de batalha. Dando ao prato, claro, novo visual. Acrescentando creme azedo, o mesmo usado nos blinis do Imperador. A aprovação foi apoteótica. Depois, o prato acabou ganhando novos ingredientes. E passou a frequentar todas as mesas nobres.

No final do séc. XIX, Thierry Coster, famoso cozinheiro francês, passou uma temporada trabalhando em palácios da Rússia. E aproveitou para introduzir, na receita, requintes europeus - cogumelos franceses, mostarda alemã, páprica dos húngaros. Foi mais longe. Decidiu flambar a carne com conhaque, ainda substituindo aquele creme azedo por um creme de leite fresco. A receita logo ganhou o mundo, na bagagem da aristocracia russa expulsa de sua terra pelos bolcheviques de Lênin, com a revolução de 1917. Na França, tanto sucesso fez que acabou até incluída, pelo conde Serge Alexandrovitch, no cardápio de Maxim’s de Paris.

Ao Brasil, chegou na segunda guerra. Trazida por imigrantes russos. Entre elas, uma descendente da família Stroganov, Sophie - que casou e viveu em São Paulo até agosto de 96, quando morreu no frescor de seus 82 anos. Aqui, novos jeitos de preparar o prato foram surgindo. Tendo como base já não apenas carne, mas também frango, camarão ou presunto. Hoje, os descendentes de Sophie reconstruíram a velha mansão em Novgorod, que passou a ser um museu. Expondo feitos e pertences da família. Inclusive a origem do prato famoso.

Este artigo é homenagem à Rússia, que organizou uma Copa do Mundo perfeita. E, com o sabor amargo da derrota (porque poderia ter sido o Brasil o campeão), também homenagem à França, que ganhou a Copa do Mundo no último domingo. Agora só nos resta esperar mais quatro anos. Quem sabe na próxima Copa, no Catar, vamos poder gritar “Brasil Hexa Campeão”. Tanto que já guardei, com cuidado, a camisa verde e amarela usada, este ano, menos do que gostaria.

RECEITA: ESTROGONOFE (receita de D. Sophia Stroganov)
INGREDIENTES:
1kg de filé mignon
100g de manteiga
1 cebola grande picada
Alho picado a gosto
Sal e pimenta-do-reino, moída a gosto
Páprica doce
Suco de ½ limão
2 tabletes de caldo de carne
300g de cogumelos
½ litro de creme de leite
½ xícara de conhaque
1 colher de sopa de trigo

PREPARO:
· Corte o filé em tiras finas (no sentido das fibras da carne)
· Tempere com sal, pimenta, páprica e limão
· Passe a carne na farinha de trigo e frite na manteiga (junto com cebola e alho), até que fique dourada
· Despeje o conhaque e flambe
· Acrescente os tabletes de caldo de carne, dissolvidos em bem pouca água. Esfregue bem o fundo da panela, fazendo um molho escuro. Deixe reduzir o molho
· Junte creme de leite e cogumelos
Sirva com arroz branco e batatas cozidas, passadas ligeiramente na manteiga

*É especialista em Gastronomia e escreve semanalmente neste espaço

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