Pão com fubá? Bolacha com feijão? Qual a sua mistura?

Nem todo mundo assume o seu paladar nada convencional

Feijão com bolachaFeijão com bolacha - Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

 

Sair do lugar comum é atitude que exige peito, concorda? Pois imagine o tamanho dessa valentia em quem substitui o trivial de uma refeição por combinações nada usuais, mesmo sob olhares de estranheza. Justificam de pronto: “gosto não se discute”. E gra­­ças a esse dito popu­lar, usado como uma espécie de selo pessoal de garantia, não falta gente matando a vontade de unir quente e frio ou ter na mesma colherada doce com salgado. A variedade de ingredientes faz essas mirabolantes criações.

É como abrir o pão francês quentinho no café da manhã e encaixar nele um pedaço generoso de cuscuz lambuzado com manteiga. A pedida é indispensável no cardápio matinal de Dona Zélia, 75, que nem tem ideia de quando pegou gosto pelo tal sanduíche de toque regional. “Talvez pelos meus avós que vieram de Orobó (Agreste pernambucano) e mantiveram o hábito da mesa farta e a casa cheia. Esse tipo de comida aparecia aos montes”, lembra incerta. Consciente de que este não é um prato comum, ela encara a suspei­ta alheia com tranquilidade. “Na fa­mília só minha irmã pegou esse há­bito. Eu, como não gosto de presun­to e outros embutidos, tenho a combinação certa”, resume.

Mas antes que alguém torça o nariz para a preferência de Dona Zélia e das outras ousadias a seguir, é bom lembrar o quanto a relação com o alimento é mesmo complexa e capaz de despertar não só prazer, mas uma série de memórias individuais. É como explica o filósofo ita­liano Nicola Perullo em um dos seus sete livros. Em “O gosto como experiência”, ele teoriza que as escolhas não precisam ser impostas, mas sim transformadas no decorrer do tempo a partir da vivência de ca­da um. Com a experiência de quem estuda o tema há mais de 20 anos, o autor reforça que o gosto pode sofrer influências por causa da sociedade e do contexto de onde as pessoas estão inseridas, sendo essas as causadoras de vários tipos de rejeição.

Essa nagativa passa longe na mesa do cabeleireiro Diego Otaviano, 27. Quando pequeno, comia o que tinha disponível em casa e, por isso, algumas combinações foram deixando de ser esquisitas para se tornarem comuns com o passar dos anos. Bas­ta montar o feijão no pão ou mes­mo numa base de bolacha para sol­tar um “delicioso” logo na primei­ra mordida. Um lanche saboroso até mesmo para a mãe, Maria das Do­res, que já acompanhou de um tudo no cardápio do filho. “É a melhor das invenções. E vocês também deveriam experimentar pão com jaca. Fica ótimo. Sem falar ainda em pipoca com picolé”, relaciona. Ai de quem questionar. “Para encerrar o assunto, sempre digo que cada um tem sua preferência, essa é a minha”, enfatiza Diego.

Influências
A quebra de fronteiras para ingredientes até então exóticos também mexe com os preparos tradicionais. Hoje, é comum que alguns segredos culinários andem de uma região para a outra, incluindo o uso de vegetais, frutas e sementes antes conhecidos só pelo nome ou numa viagem. Que o diga o açaí de agora no Recife, se comparado tempos atrás, quando as noções sobre a polpa escura e cremosa eram bem mais restritas. Para o pernambucano pode soar estranho, por exemplo, o fruto do pequi ser cozido junto a arroz, feijão ou mesmo galinha, mas no Centro-Oeste brasileiro esta é uma iguaria das mais valiosas.

O aroma intenso que o caroço de pequi acrescenta à comida não é fácil de agradar aos desacostumados. Por isso, na casa da jornalista Anna Beatriz Malaquias, as refeições com o ingrediente ficam limitadas aos mais chegados. “O cheiro é forte e a aparência nem é tão atraente, mas é uma delícia quando servido no arroz. Somos tão alucinados por esse fruto, que sempre damos um jeito de conseguir os caroços vindos do interior de Brasília, Goiás ou Crato. Eles vêm pelos Correios, de carona ou encomenda, antes de finalmente congelarmos”, explica a anfitriã que, após o uso nas receitas, lava cada pequi e guarda no congelador. “É para nova reutilização, porque temos poucos”, defende.

Por mais ousada que seja a formação do prato, não existe uma regra nutricional julgando como criminosa certas combinações. Elas, em si, não causam problemas à saúde. É como dizer que manga com leite faz mal. “É um tipo de crença que as pessoas tomam como realidade, a partir de algum fato isolado”, rebate. O cuidado vai para quem precisa seguir uma dieta balanceada por questões de saúde. “Se você tem diabetes ou dificuldades de perder peso, unir dois carboidratos simples numa única situação pode ser uma atitude arriscada”, completa a especialista.

Cardápio
A oferta criada por alguns restau­ran­tes mostra que o costume de ca­sa vai mesmo à praça, seja ela qual for. Isso porque as opções nada con­vencionais no menu despontam entre as mais procuradas pelo público. É como o sushi de feijoada, proposto pelo chef Douglas Vander Ley ao Love Japan, no Bairro do Reci­fe, que leva feijão japonês azuki, ar­roz, couve frito, calabresa, pepino e laranja. Provar uma peça é o mesmo que experimentar um prato de feijoada. Quem prefere sobremesa, imagine a combinação de café, sorvete de creme, chantilly e pamonha. O frapê regional é uma espécie de shake, servido em taça no Ripe Café, no Espinheiro, que tem chamado a atenção dos visitantes pelo seu jeito diferentão e nordestino.

 

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