Passaporte gastrô

Comer e viajar são prazeres que, juntos, soam até redundantes.

Manu Lisboa vai ao Peru pelo menos duas vezes ao anoManu Lisboa vai ao Peru pelo menos duas vezes ao ano - Foto: Alfeu Tavares

Difícil definir o que começa e termina primeiro no roteiro de quem percebe o quanto uma comida pode contar a história de um lugar. Ao turista é dado esse privilégio de tentar. Arriscar algo novo em um CEP diferente. E não ache que o noticiário político e econômico dos últimos tempos tem desanimado os viajantes de plantão. Dados oficiais dão conta de que no ano passado o número de turistas no mundo aumentou em 4%, segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), que considerou esse quantitativo expressivo, apesar das instabilidades.

Tem pimenta no cardápio
O prato que a empresária Manu Lisboa mais gosta diz muito sobre o destino que ela costuma visitar pelo menos duas vezes ao ano. O ceviche, com seus cubos de peixe cober­tos por caldo cítrico, é a pedida de maior saída no Peru. Com ele vai outro ícone da cozinha andina, o aji amarillo, que é a pimenta consumi­da sem moderação do tipo fresca, em pasta ou seca, apontando o quan­to as pessoas de lá gostam mes­mo de sabores marcantes e de temperos exóticos. Está em pratica­mente tudo. “Mas para começar bem, sugiro uma parada no La Mar, em Miraflores, por ser um lugar que representa bem o frescor dos ingredientes locais e ainda estar em um ponto estratégico de Lima”, aponta.

Quem for adepto dos rankings da web, o TripAdvisor elenca os dez restaurantes mais bem avaliados no Peru. Alguns deles também citados por Manu como um teste de memória sobre os já visitados ao longo dos últimos anos. “Claro que não pode faltar o Central, do chef Virgilio, o clássico Astrid & Gastón e, mais recentemente, o Amz, com o uso perfeito de produtos amazônicos”, lembra. Embora sua ida ao país latino tenha relação com a busca por insumos locais para abastecer o restaurante Chiwake, na Zona Norte do Recife, ela e o marido, Biba Fernandes, fazem questão de ainda circular fora da rota convencional. “É quando você percebe que há comida em tudo, do salão estrelado à barraquinha de rua. Mas semelhantes em não ter medo de dar sabor ao alimento. É quando qualquer turista de primeira viagem percebe que o Peru vai muito além de Machu Picchu”, define.

Um petisco e um chope, por favor!
Se o botequim é o Q.G. do boêmio carioca, então é lá que o turista tem que estar. O entra e sai de pessoas com um prato ou bebida na mão é a bagunça organizada que não falta nas idas da jornalista e pesquisadora de gastronomia, Renata do Amaral. Esse clima despretensioso reunindo tudo no mesmo lugar é herança de imigrantes portugueses que se tornou um atrativo de ponta a ponta do Rio. A começar pela visita a um endereço tão tradicional como o Bracarense, no Leblon, onde petiscos e sanduíches caem bem com chope ou caipirinha. Não menos tentador do que o famoso bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, com unidade na Praça da Bandeira, na área Central. Mas se a vontade for outra, quem sabe acatar uma nova sugestão de um amigo ou a dica encontrada na internet? O #ErreJota não para, e Renata tenta acompanhar.

Para dar o gostinho desse sotaque em terras recifenses, levamos a jornalista para o Cia do Chopp, em Boa Viagem. Roupa leve e nada de pressa em provar itens como o sanduíche de pernil coberto por queijo muçarela e molho de pimentões. É assim que o turista se sente no Rio, fazendo de um petisco ou entrada caprichada a melhor parte da refeição. “Isso quando a gente não fala de feijoada, que é muito presente por lá e fácil de encontrar às sextas-feiras”, diz ela com a noção de quem desembarca desde pequena na Cidade Maravilhosa. Só no ano passado foram duas idas intensas, incluindo temporada para um curso de extensão em jornalismo gastronômico. “Mas não tem outra, minhas estadas sempre estão ligadas à comida. Até meus presentes de viagem seguem esse perfil”, completa.

Compra exótica no mercado
Se a gastronomia local salta aos olhos de um turista comum, imagine para um chef de cozinha em visita a países remotos. Tudo é mais intenso no roteiro e nas provas de Alcindo Queiroz, do Patuá. Ele, que tem passagem por lugares como Jerusalém, Jordânia e Líbano, descobre as melhores ofertas a partir de uma pergunta simples a quem é de casa: “Onde se come bem por aqui?”.
Com noção, é possível acertar em escolhas como uma parada no fish market de Sidney. O endereço marcou a viagem de Alcindo à Austrália, e é programa para durar dois turnos. “O mercado é um dos maiores do mundo e reúne restaurantes com ingredientes frescos”, lembra. O jeito oriental de comer com as mãos ainda anuncia que ali é um território sem protocolos. A dica do chef é chegar cedo para circular entre os boxes de frutos de mar, depois caminhar por fora do mercado e voltar à tarde para o almoço em um dos restaurantes com mesas nas áreas interna e externa. Para lembrar essa experiência, Alcindo adiantou para a reportagem um dos pratos que entrarão no cardápio do Patuá. Leva me­xilhões, molho do chef, batatas fritas e maionese de limão.

Andar e conhecer novas ofertas
Cassio Moreira é o bon vivant que adora cozinhar e ter boas experiên­cias gastronômicas entre uma viagem e outra. Para quem trabalha na área comercial de uma empresa de combustível, o lado gourmet se mostra no horário de almoço e jantar, quando suas escolhas são certeiras. “Em São Paulo, se me pedem sugestão de um hambúrguer tradicional eu falo do Joaquins, na Itaim Bibi. Mas se for comida regional (nordestina) tem o Mocotó, na Vila Medeiros”, comenta. O forte de Cassio é arriscar, conhecer lugares como a nova Bráz Ellétrica, pizzaria hipster na rua dos Pinhei­ros. “E fui sozinho”, completa.
“Uma vez, em Munique, vi um restaurante de frios com uma fatiadora da Ferrari. Por esse indício, não tinha como dar errado. Entrei e conheci um lugar incrível”, diz ele, que registra essas andanças no Instagram (@cassio.s.moreira). O jeito comunicativo é favorável para expe­riên­cias como o fato de ser reconhe­cido pelo vendedor de empa­nadas em Buenos Aires. “Adoro a Argenti­na, até por ser apaixonado por carne. Circulando, conheci esse ven­dedor que tem uma birosca por lá. Voltei algumas vezes e, numa des­sas, até fiz contas pra ele”, descontrai.

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