Um doce de Portugal com um pedaço no Brasil

Cartão-postal da gastronomia portuguesa, os pastéis de Belém atraem turistas do mundo inteiro

Deputado André Ferreira (PSC)Deputado André Ferreira (PSC) - Foto: Roberto Soares/Alepe

 

Lisboa - Um aviso antes de você iniciar a leitura: esta é uma reportagem para dar água na boca. O problema é que o leitor pernambucano precisará atravessar o oceano Atlântico. Pois bem, nem o gosto amargo de uma crise econômica europeia afasta dos olfatos o aroma desse doce secular. O apetitoso pastel de Belém, cartão-postal da gastronomia portuguesa, tal qual (e tão bom quanto) o bacalhau, o azeite e o vinho, feito exclusivamente na disputada padaria Pastéis de Belém. Lá, a pequena iguaria rouba olhares dos visitantes, que pela delícia, esquecem por um instante do Mosteiro dos Jerônimos e da Torre de Belém, de onde partiram as caravelas de Cabral rumo ao Brasil.
E é justamente nessa história da relação entre Portugal e sua pátria colonizada que a receita ganha forma. Os herdeiros da padaria dizem que as gemas dos ovos oferecidos pelos fiéis aos católicos religiosos do mosteiro vizinho à confeitaria foram misturadas à farinha de trigo e ao açúcar da terra descoberta. Nascia, então, depois de 1830, em um local sagrado, uma tentação chamada pastel de Belém.
Para saborear um deles no local que faz o melhor e mais antigo, os comensais disputarão um lugar no balcão, depois de enfrentar uma fila imensa, que chega a dar voltas na calçada, erguida em 1837, e que tem resistido a uma crise financeira que, pelo menos nesse negócio, parece não ter chegado. Durante 175 anos, nem um dia sequer a loja baixou as portas.

“Por dia, as doceiras fazem cerca de 20 mil pasteizinhos”, é o que garante o gerente do empreendimento, Miguel Clarinha. Esse número é mais que o dobro da quantidade de moradores do bairro de Belém, na zona oeste de Lisboa: discretos oito mil habitantes. A produção na fábrica dos doces, que fica no mesmo prédio da padaria, não para um segundo desde o momento em que o primeiro sai do forno, às 8h da manhã. Ainda por volta da meia-noite tem cliente tomando um café com um ou mais pasteizinhos no prato.

 “Depois disso, ainda levam uns em caixa e embalagens que criamos justamente para quem quer levar a iguaria de lembrança pra alguém, até mesmo para quem vai atravessar o Atlântico em direção ao Brasil. Sabemos que somos famosos por lá”, brinca Clarinha.

A iguaria virou artigo de luxo por um pouco menos de cinco euros. Além das lembrancinhas tradicionais: chaveiros, canetas e canecas, dá pra encontrar turistas carregando, no aeroporto, as caixinhas dos pastéis. No próprio terminal de embarque, há uma loja da marca, mas o charme mesmo é comer em Belém.

Um segredo secular
É claro que para tanto sucesso teria que haver algum segredo, que está guardado dentro de uma sala da fábrica, fechado e protegido. Nem os 150 funcionários têm acesso ao lugar. Apenas três pessoas conhecem a fórmula da família, que esconde a alma do negócio há seis gerações. Miguel, o gerente, é quem, herdou a receita da família Clarinha. Atualmente, além dele, o pai, Pedro Clarinha e a irmã Penélope, são os detentores da fórmula que, certamente, muitos outros padeiros e doceiros da terra de Fernando Pessoa querem ter.

Além deles, outros três mestres recebem as instruções para usar a receita guardada. “Mas só têm a instrução, não sabem a verdade exatamente”, explica Clarinha. Entre os três funcionários privilegiados, Vitor Domingos e Carlos Amorim estão na casa há quase três décadas. Já Elizeu Ramiro cuida do preparo desses doces amados pela pátria de Cabral ainda quando o atual gerente e herdeiro era criança. Está lá há mais de 35 anos.

O segredo é dos bons mesmo. Só provando para sentir o sabor, o barulhinho crocante no momento da mordida e o cheiro de canela que sobe da massa quentinha, quentinha. Se a tecnologia tivesse feito a página do jornal transmitir o cheiro das coisas, vocês saberiam do que estou falando. Mas só de olhar, dá água na boca. Difícil é não lamber os dedos. Sem exagero algum, é um sabor que mexe com os cinco sentidos e desperta o pecado da gula, que neste caso é perdoável, já que os sacerdotes (que Deus os tenha) foram os inventores dessa delícia.

Só em Belém, ora pois!
Você que é um apaixonado por gastronomia, quando for a Portugal certamente vai logo querer matar o desejo de provar a delícia dos Pastéis de Belém. A maioria que desembarca em Lisboa faz logo isso depois de um prato de bacalhau e uma taça de vinho local. Alguns invertem a ordem pela fama do doce. Em qualquer outra cidade, seja Coimbra, Óbidos, Guimarães, Aveiro ou na própria Lisboa, se o visitante pedir um pastel de Belém em alguma padaria vai ouvir um sonoro “não”. Mude a frase e peça um pastel de nata, então. É que o título “Pastel de Belém” é exclusivo da padaria do bairro lisboeta de mesmo nome e não há em outro lugar.

 

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