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Sabores

Uma cozinha quase esquecida

São Paulo perdeu sua identidade com o próprio território

Publicação traz à luz a cozinha do estado de São paulo, que foi suplantada pelo cosmopolitismoPublicação traz à luz a cozinha do estado de São paulo, que foi suplantada pelo cosmopolitismo - Foto: Marlene Bérgamo/Folhapress/Divulgação

A cozinha paulista que “teima em desaparecer”, que não existe mais no cotidiano, que é desprezada e tenta ser suprimida por representar o avesso do que se entende por moderno é o objeto do livro “A Culinária Caipira da Paulistânia”, pela Três Estrelas.

Motivados pela busca de um substrato comum desse antigo modo de comer, hoje sustentado no imaginário, os autores, o sociólogo Carlos Alberto Dória e o chef de cozinha Marcelo Corrêa Bastos, rompem com a lógica da divisão política entre os estados e assinam uma obra inovadora. Confira entrevista com Dória.

Os paulistanos negam a origem de sua cozinha?
Há um dualismo na sociedade brasileira, que se industrializa de um lado e mantém um ruralismo atrasado de outro. Isso é o que afasta o caipira do que foi em boa parte obra sua, o estado de São Paulo. As quitandas, o comércio de carne, a venda de mantimentos vão sendo vistos como ultrapassados e os imigrantes italianos trazem novos padrões, a tal ponto que os paulistanos olham para o interior e não se reconhecem mais.

Minas exporta a sua cozinha, a Bahia e o Pará idem. São Paulo só absorve?
Exatamente. A nossa virtude é ser consumista, tanto de coisas do exterior como de outras regiões.

O livro faz uma espécie de crítica ao “desenraizamento dos paulistas”?
Se pensarmos em cozinhas regio­nais, na França, na Itália, ou mesmo no Brasil, no Nordeste, no Norte, há uma identidade maior com o território. São Paulo perdeu isso.

Mas há um substrato comum dessa cozinha que se espalha com bandeirantes e tropeiros e se particulariza em algumas regiões?
O milho e suas várias formas e preparações, o feijão, a abóbora. A partir desse núcleo, são agregadas algumas variantes regionais, como guariroba, pequi, pinhão.

Com a decadência das minas, os sítios passam a gestar a culinária de subsistência?
É no sítio que esses ingredientes se combinam. É um enorme território de formação e consolidação da culinária caipira. O porco é incorporado pelos portugueses, seja como carne ou produtor de banha, elemento central na conservação.

Trata-se, aliás, de uma cozinha de conservas?
Uma das funções dessa cozinha é suprir a matulagem de quem desbrava terras e de conservar alimentos. Então há conservas de frutas em açúcar, de carne em banha, pela desidratação. Pobreza e simplicidade são traços dessa cozinha.

A mandioca é celebrada como a rainha do Brasil, mas São Paulo é uma civilização do milho, como sugere Sérgio Buarque de Holanda?
Quando os colonizadores chegam aqui, a grande alimentação dos índios é o milho. O milho tem ciclo curto e se adapta mais à conquista territorial se comparado à mandioca, cujo ciclo longo sugere uma vida sedentária. Essas diferenças favorecem a funcionalidade do milho, que envolve um conhecimento indígena em seu aproveitamento, como a farinha.

É possível acessar o gosto do passado mesmo com a perda de variedades de ingredientes?
O livro também é uma denúncia dessa perda de diversidade e do empobrecimento do gosto, especialmente do século 19 para cá, quando há uma simplificação da produção. As espécies desapareceram, e o que chega à mesa hoje não tem o sabor que tinha.

A industrialização e a negação do caipira contribuem para o desaparecimento dessa cozinha?
Sem dúvida. Por que o ora-pro-nóbis existe em Minas? Porque as pessoas usam, preservam. Na medida em que deixam de usar, essas coisas desaparecem. Há um distanciamento em relação aos antigos modos de comer e um empobrecimento geral.

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SERVIÇO
"A culinária caipira da Paulistânia"
Carlos Alberto Dória e Marcelo Corrêa Bastos
Editora Três Estrelas
Preço: R$ 62,90 (368)


 

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