Utilitários

Utensílios de antigamente voltam a ter destaque na mesa brasileira

Peças que ganharam espaço na cozinha, entre os anos 1970 e 1990, estão de volta oferecendo ares descolados

Peças de ágata remetem à simplicidade chicPeças de ágata remetem à simplicidade chic - Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

Assim como na moda, os utensílios que ocupam uma mesa ganham a relevância orquestrada pelo mercado da criação de produtos. No ritmo frenético da demanda e oferta, o que antes era símbolo de status e funcionalidade, tende a voltar mais rápido para o armário e logo se tornar objeto afetivo. Sim, daqueles que originam lembranças, cujo segmento de decoração tenta resgatar a partir das novas formas de uso.
 



Do exemplo mais prático, o copo americano, limitado aos bares e padarias da esquina, nunca esteve tão hype. A peça, criada quando o empresário Nadir Dias de Figueiredo teve a ideia de produzir no Brasil copos de vidro, na década de 1940, demorou para avançar como utilitário pelo simples fato de ser barato. Com o tempo e investimento do fabricante, seu uso foi sendo expandido até se tornar símbolo de versatilidade. Hoje, é o copo mais vendido no País, acumulando passagem pelo Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York.

“Vejo esse resgate a partir de novas aplicações, como o uso da pintura. E o Greghi (designer paulistano) faz muito bem isso, inclusive sobre o copo americano”, defende a curadora da Feira Rosenbaum, Cris Rosenbaum. Atenta ao design, a também estilista e decoradora lembra, que, no momento, existe um resgate da cerâmica com jeito de “mal-acabado”. “Há uma finalização mais rústica, muito bem expressada através do barro artesanal. Nele, você percebe um toque indígena, trazendo uma memória afetiva que vem da ancestralidade”, completa. 

Xícaras transparentes formam o clássico atemporalXícara transparente forma o clássico atemporal (Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco)


Toque manual
O estilo rústico, aliás, é a premissa no trabalho do artesão Marcelo Monteiro, criador da marca Toko Design. Tábuas e objetos de mesa são feitos com madeira encontrada na rua ou resultante de podas, dando um ar natural e exclusivo à peça. Ele, que entra na casa das pessoas através dos seus materiais, observa a valorização do ‘feito a mão’. “Embora o novo esteja muito ligado à tecnologia, há uma força em cima do orgânico, da cerâmica e suas várias formas de servir. Isso
quebra o contexto industrial e remete à família”, diz.

Ainda segundo Marcelo, o cenário de hoje vem sendo construído com elementos menos complexos. Como se via antigamente. “Vejo também um resgate da panaria, através do lenço e do jogo americano. Isso, sem falar nas cestas, remetendo ao manufaturado, produzido por algum artesão local. Tanto que as grandes lojas estão atrás desse pessoal para fazer a retomada desse tipo de produto no comércio”, garante.

Na contramão de uma grande rede, a loja e cafeteria Chá com Chita, na Zona Norte do Recife, surgiu da intenção de manter viva as memórias afetivas. À frente do lugar, a designer Amanda Alcântara garante que as pessoas nunca estiveram tão ligadas aos itens do passado como agora. “Temos uma cristaleira em frente à loja, com peças já detonadas, em que as pessoas param e perguntam se estão à venda”, lembra Amanda, que costuma garimpar em antiquários e feiras de rua. “Hoje, vemos boleiras e xícaras de porcelana com estampas lindas, frisos dourados ou algum outro detalhe. E, mesmo com uma estampa menor, há um formato mais delicado e de estilo vintage”, ressalta.


Tudo vai à mesa
Se há um utensílio onipresente na casa dos brasileiros, este é o prato de vidro âmbar, com o apelo de inquebrável. Seria até injusto afirmar que, em algum momento, ele saiu de cena. Atemporal, a peça vem ganhando releituras através de novas tonalidades e modelos mais leves. O incolor, por exemplo, é o tipo de objeto versátil, que pode ir numa mesa descolada ou mais sofisticada, combinando com o enxoval da mesa.

Grafismos em porcelana  reforçam o  toque retrôGrafismos em porcelana reforçam o toque retrô (Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco)



Para a decoradora Isabela Azevedo, o vidro não é o único queridinho retrô. “As peças em ágata, como panela, bule e xícara, feitas em aço esmaltado, têm ganhado mais espaço na mesa posta. Elas fazem parte do enxoval de muitas famílias e as marcas, nos últimos anos, têm buscado trazer novas cores, partindo da ideia de outras utilidades. Tanto que há vários pratos em restaurantes com ágatas coloridas, e a ideia é trazer essa identidade do simples chique e desconstruído”, explica. 

A história desse material começa em 1760 na Alemanha, que fabricou  fogões, utensílios hospitalares e itens domésticos. A produção brasileira só começou mesmo na década de 1970. Quem também passa por um processo de resgate é a opalina, conhecida como ‘milk glass’ - por conta do seu aspecto leitoso. “Podem ser encontradas em várias cores, mas a queridinha é a verde-água. Elas eram utilizadas na decoração das casas, lustres e abajures. Na mesa, é útil para servir doces e sobremesas, e os fabricantes estão apostando para dar um efeito de produto antigo”, conclui Isabela.

**Garimpo de peças para esta matéria pela decoradora Isabela Azevedo (Instagram: @beluquices) 

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