[Vídeo] Restaurantes antigos do Recife remam contra a maré

Em um mercado que poucos resistem, restaurantes contam o que fazem para se manter na preferência dos clientes

Seu Severino Reis não se vê um dia longe da sua cidade imaginária.  A peixada com legumes é carro-chefe do Prá Vocês há anosSeu Severino Reis não se vê um dia longe da sua cidade imaginária. A peixada com legumes é carro-chefe do Prá Vocês há anos - Foto: Alfeu Tavares

São quase 11 horas e a e­quipe do restaurante Prá Vocês, no Polo Pina, Zo­na Sul do Recife, está pron­ta para abrir a casa no horário de costume. Embora seja uma terça-feira, dia de pouca expec­tativa de movimento, a tradição em funcionar to­dos os dias no almoço e jantar está acima de qualquer instabilidade. Não demora muito e o salão começa a receber famílias e pessoas que trabalham naquela região. 

Nas mesas, a velha guarda pre­domina e se mostra saudosa em não querer desapegar daquelas memórias com paredes tomadas por placas de nomes conhecidos. São histórias desses 80 anos de funcionamento, sendo 40 deles nas mãos do atual dono, Severino José Reis. Números de peso ao contexto da orla, onde o novo se multiplica, e para um setor em que muitos ficam no meio do caminho.

O motivo da longevidade até po­de ser resumido na coragem de não que­rer entregar os pontos. Os incen­tivos são mínimos, quase inexisten­tes. “Aberto, porém resistindo”, define Samuel Reis, filho do proprietário, ao lembrar os bares e restaurantes vizinhos que fecharam ao longo dos anos pela dificuldade de empreender. “Nossa diferença par­te pelo fato de termos fideliza­do os clientes. É uma relação tão próxima que um deles até levou a gravata do garçom de recordação”, lembra. Como uma an­dorinha só não faz verão, os desafios passam pela comunicação com o entorno e os cuidados urbanos tão importantes para quem abre um negócio.

Para Seu Severino, que bate pon­­to no restaurante todos os dias com a lembrança de casa sem­pre cheia, ainda vale tentar. “Mas tem que ter bom atendimento e oferecer produtos de qua­lidade”, defende. Na cozinha, o forte conti­nua sendo frutos do mar na versão individual ou para dividir com a família. A peixada com legu­­mes cozidos, pirão e arroz serve quatro pessoas e custa R$ 105. É um clássico, ao la­do de lagosta, camarão, siri mo­le, marisco e a famosa sopa da cabeça de peixe. Tudo bem fresquinho.


Resistência no Centro
Se a luz no fim do túnel parte do cardápio, o Buraquinho, no Pátio de São Pedro, Centro do Recife, não foge à regra e entende que este é um ponto forte de resistência, co­mo diz Maria Oliveira, à frente do restaurante desde abril. Ela, que sempre admirou a trajetória da pequena casa aberta nos anos 1980, faz questão de preservar a essência do lugar fundado pela ex-funcionária do Buraco de Otília, Maria das Dores. “É comida com gosto de casa, servida à la carte sempre no almoço e nos pratos do dia, como o cozido das sextas-feiras”, divulga. A galinha à cabidela é outra pedida famosa, abatida e preparada no mesmo dia, acompanhada de feijão, arroz e salada (R$ 39 para dois).

Sem receio de dizer que o endereço não vem se pagando atualmente, ela se agarra na importância da casa para a vida das pessoas. Não aquelas que trafegam no Pátio, pois essas quase não circulam por lá, mas, sim, quem trabalha nas proximidades, turistas e clientes antigos. “Meio-dia aqui parece um feriado de tão pouca gente e isso só piora nos fins de semana, quando eu nem abro”, completa. Para tocar o barco, o cardápio sofreu reajuste e o que eram três atendentes de salão hoje se resume à Marlete Marcolino e seus 30 anos de O Buraquinho. “Meu carinho é tão grande por essa história que, quando faltou verba para comprarmos a feira do dia, usamos o meu cartão de crédito e a casa não precisou fechar”, conta.

Andar pelo Centro e contemplar esses lugares é benefício de poucos. Uma lista que inclui o centenário Leite, com os louros de quem sempre atraiu nomes importantes da Cidade, e as padarias Imperatriz e Santa Cruz que ainda fazem parte do dia a dia dos recifenses que passam ou moram por perto.

Olhar para frente
Todo recifense com mais de 30 anos já sentou numa mesa do Mustang, no bairro da Boa Vista, ao menos uma vez na vida. Caso não, sabe onde fica a famosa casa de amplo terraço, aberto em 1968, para ser ponto de encontro de intelectuais e políticos. O tempo passou e esse ainda parece ser o contexto principal do lugar que nunca deixou de ter programação musical e cardápio à base de bebidas e petiscos. Mas para remar contra uma maré nada favorável, a ideia da administração foi acompanhar as novas demandas do público.

“Climatizamos um salão, inserimos o self-service, o forno de pizza e até a música, que antes era MPB, agora é do ritmo mais tocado do momento, o sertanejo”, lista Wanessa Souza, sócia com o irmão Wellingthon Silva. Eles tocam o trabalho iniciado pelo pai Carlos Antônio, saudosos de uma época em que o os carros do Corso e do Galo da Madrugada animavam a Boa Vista no Carnaval. Agito que se tornou inspiração para continuar uma história. Se cerveja é bebida que mais sai, melhor ter a oferta de uma torre com 3,5 litros por R$ 29,90, como Wanessa diz. Eles chegam a vender 50 dessas numa sexta-feira ao lado de outro campeão de vendas. A carne de sol é porção generosa coberta por queijo de coalho serve bem três pessoas e sai por R$ 49,90. “E já estamos pensando em outras novidades para os nossos 50 anos”, destaca.

Serviço >
Prá Vocês

Endereço: Av. Herculano Bandeira, 115, Pina
Informações: 3325.3168

O Buraquinho
Endereço: Pátio de São Pedro, São José
Informações: 99676.3409

Mustang
Endereço: Rua José de Alencar, 44, Boa Vista
Informações: 3223.1539

Veja também

Saiba a diferença entre o vinho natural, orgânico e biodinâmico
Vinho

Saiba a diferença entre o vinho natural, orgânico e biodinâmico

Breja Mais lança kit harmonizado para atrair cervejeiros
Cerveja

Breja Mais lança kit harmonizado para atrair cervejeiros