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CINEMA

"Não queria que fosse uma aula sobre a Segunda Guerra", diz Jesse Eisenberg sobre "A verdadeira dor"

Indicado ao Oscar de roteiro original, longa escrito, dirigido e estrelado pelo ator, ao lado de Kieran Culkin, mostra dois primos viajando à Polônia

Filme "A verdadeira dor"Filme "A verdadeira dor" - Foto: Divulgação

Quando começou a escrever o roteiro de “A verdadeira dor”, há cerca de dois anos, Jesse Eisenberg não poderia prever a nova guinada na política americana, ou uma cena como a do bilionário Elon Musk fazendo um gesto interpretado como um “sieg heil”, a saudação nazista, para uma plateia que o ouvia após a posse do segundo mandato do presidente Donald Trump, em Washington, no último dia 20.

Contudo, a história de dois primos americanos, David e Benji, que fazem uma excursão para a Polônia a fim de saber mais sobre suas origens judaicas (interpretados pelo próprio Eisenberg e por Kieran Culkin, vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar de ator coadjuvante pelo papel), ganha novos contornos em meio a recentes episódios de fortalecimento de discursos extremistas e temas como a política de deportação em massa de Trump, que reacende a preocupação com a xenofobia nos Estados Unidos.

 

Indicado ao Oscar de roteiro original em seu segundo longa-metragem assinando texto e direção, o ator teve a ideia da trama sobre um pequeno grupo de descendentes de judeus que se encontra na Polônia para um passeio turístico por espaços importantes para sua história e cultura, além de uma visita a um campo de concentração, ao se deparar com um anúncio digital oferecendo “tours do Holocausto, com almoço” —numa das piadas do longa, seu próprio personagem, David, trabalha criando anúncios pop-up para sites.



Entre as locações do filme, que chega ao circuito brasileiro amanhã, estão o campo de Majdanek, a quatro quilômetros da cidade de Lublin, no leste do país europeu, e hoje um centro histórico, e a uma casa de vila em Kranystaw, onde parte da família de Eisenberg viveu antes de ir para os EUA fugindo do Holocausto.

Ainda que o longa toque em temas sensíveis e traumáticos, Eisenberg centra a trama no relacionamento entre os primos (seu personagem mais contido, e o de Culkin, mais extrovertido e emocional) e na forma como a viagem os transforma, com muito de seu humor baseado no choque entre suas personalidades.

— O filme é uma mistura de informações biográficas e ficção, nós filmamos na casa em que minha família morou até 1939. Pensei que seria possível fazer um filme que falasse sobre o Holocausto, mas de um modo novo, focando neste relacionamento incomum — conta Eisenberg ao GLOBO, em entrevista por videochamada. — Não queria que fosse uma aula de História sobre a Segunda Guerra. É sobre aqueles dois personagens aprendendo a respeito desse passado, mas também com eles subindo escondidos para os terraços dos prédios para fumar maconha e lidar com suas emoções. Queria que o filme parecesse fresco, original e engraçado, ao mesmo tempo em que falasse sobre a História. Temos já tantos filmes sobre o Holocausto melodramáticos ou que parecem um dever de casa, eu só queria fazer algo que soasse real.

Justamente para não realçar excessivamente a emoção das cenas filmadas num campo de concentração real, toda a sequência em Majdanek foi feita com os personagens do grupo turístico em silêncio.

— Quando estava escrevendo o roteiro, decidi que essa cena não teria música e seria filmada de forma bem simples. Os personagens apenas entram e saem dali, porque era muito estranho e desagradável escrever uma cena num campo de concentração — recorda Eisenberg. — Tentei escrever e dirigir a sequência da forma mais simples possível, não se ouve nenhuma música e não há câmeras coladas nos atores enquanto eles se desmancham em lágrimas. Não queria transformar essas cenas em algo mais dramático do que já são. Apenas tentei ser o mais simples e respeitoso possível.

Para o ator, mesmo que o roteiro escrito há dois anos tenha ganhado aspectos ainda mais atuais após eventos recentes da política mundial, a mensagem por trás dele aponta para questões que não mudaram nas últimas décadas.

— Cresci nos subúrbios de Nova Jersey, e era muito seguro para os judeus. Mas eu sempre tive a sensação de que havia um grupo de pessoas que não gostava de nós. Às vezes isso se torna mais evidente aos olhos do público e, em outras, é mais discreto. Mas você meio que passa pela vida sabendo que, se alguém te batesse na rua, você saberia o porquê. Então não olho para nenhum tipo de evento atual como diferente de qualquer outro momento da História — comenta Eisenberg. —Escrevi o filme há dois anos, antes da guerra de Israel, e antes de qualquer coisa que esteja acontecendo agora na política. Poderia ter sido feito em qualquer momento nos últimos 30 anos, e teria sido exatamente o mesmo filme.

'Ele não é vaidoso', diz sobre Kieran Culkin
Em 2011, Jesse Eisenberg foi indicado ao Oscar por sua interpretação de Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, em “A rede social”. O agora CEO da Meta foi outra presença destacada na posse de Trump, dias após anunciar mudanças na moderação de conteúdo em suas plataformas, permitindo, por exemplo, publicações que associem “doenças mentais” a identidade de gênero ou orientação sexual.

— Não entendo nada de tecnologia, mas, quando leio sobre essas mudanças na moderação, todo esse tipo de coisa, só penso que isso provavelmente vai colocar mais pessoas em perigo. Então por que você gastaria todo seu dinheiro e poder para não tentar ajudar a maior parte das pessoas? Por que você faria qualquer coisa que colocasse alguém em perigo? — questiona o ator, diretor e roteirista. — Se você tem o grande privilégio de ter poder e bilhões de dólares, por que você não gasta todos os dias tentando ajudar as pessoas? Me parece estranho que pessoas com essa quantidade de poder não estejam voltadas a isso, mas talvez eu seja ingênuo.

Sobre o Oscar, Eisenberg prefere não criar muitas expectativas (“Sou meio pessimista, então meus pensamentos são do tipo: ‘Essa é a última vez, nunca vai acontecer de novo’”), mas celebrou o Globo de Ouro e a indicação de Kieran Culkin, ainda que o colega não dê atenção a prêmios.

— Ele realmente não se importa com isso. Nunca conheci um ator que simplesmente não se importasse assim. Ele não tem ego, não é vaidoso, só quer ficar com os seus filhos. Não se importa realmente com prêmios ou críticas — enaltece Eisenberg. — Kieran chegou à Polônia um dia antes de filmarmos e não ensaiou, mas ele foi tão bom logo de imediato, entendeu tanto o personagem, que não precisamos fazer nada. Se depois de alguma cena eu ia dizer que ele estava incrível, ele respondia: “Vá à merda, não importa, não precisa falar isso.” Ele não é obcecado por si mesmo, e isso torna sua atuação ainda melhor. Foi um sonho trabalhar com ele.

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