Conflitos do cotidiano se dilatam no filme 'O insulto'

Produção, indicada ao Oscar de filme estrangeiro, revela um histórico de guerra a partir de uma discussão banal

Situações são emblemáticas para acessar as crises da regiãoSituações são emblemáticas para acessar as crises da região - Foto: Imovision/Divulgação

Durante obras na cidade de Beirute, capital do Líbano, Yasser (Kamel El Basha), engenheiro que coordena a equipe, ofende Tony (Adel Karam), um morador que se recusou a ter seu encanamento corrigido, já que infringe os novos códigos urbanos. Ao ouvir a ofensa, Tony se torna agressivo e exige um pedido de desculpa. Essa é a premissa do filme "O insulto", dirigido por Ziad Doueiri, que entra em cartaz, nesta quinta-feira, no Cinema do Museu.

O filme parte de uma situação do cotidiano, uma ofensa, uma irritação banal da rotina, e mostra como um histórico de guerra ainda interfere nas relações de hoje. Yasser é um refugiado palestino, Tony é um cristão libanês. Yasser é convencido a pedir desculpas, mas, quando tenta, escuta de Tony: "Quisera eu que Ariel Sharon tivesse exterminado todos vocês", referência ao político e militar israelita responsável pelos ataques contra palestinos.



O roteiro é fascinante por criticar sutilmente uma sociedade que - por causa de uma longa história de conflitos, injustiças e preconceitos - se sustenta hoje em dia de maneira precária, um sistema tão frágil e problemático que qualquer situação aparentemente casual e minúscula tende a gerar uma grave crise de valores, um tumulto político e social que se aproxima gradualmente do conflito, da violência. O caso entre Tony e Yasser vai para o tribunal, para a mídia, torna-se incentivo para brigas na rua e debates políticos.

É interessante notar como esse conflito evolui durante o filme. Cada nova informação parece revelar anos de opressão e violência, pequenas e grandes injustiças que, ao serem remexidas, parecem reativar um ambiente hostil de raiva e ressentimento, memórias de cicatrizes nunca realmente curadas. É esse o grande valor do filme: a maneira como o menor dos eventos pode ser uma chave para acessar histórias cruéis e entender como a estrutura atual de ódio e preconceito se tornou enraizada na construção social contemporânea.

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Essa ideia começa empolgante, ampliando pequenas situações e intensificando as consequências, que se aproximam de um conflito urbano. O julgamento Tony e Yasser é um evento sintomático de várias crises. No tribunal, destaque para a atuação da dupla em julgamento e seus advogados, um roteiro que coloca em testemunhos empolgantes todas essas complexidades sociais e políticas. A resolução, no entanto, acaba sendo abrupta, melodramática e de certa forma irreal, com um aperto de mãos tendendo perigosamente a uma simplificação de um largo histórico de violência.

Oscar
O longa-metragem é a primeira produção da Líbia a concorrer no Oscar - é um dos cinco concorrentes que no dia 4 de março disputam a estatueta na categoria filme estrangeiro. Estão ainda na lista "Uma mulher fantástica" (Chile), "Sem amor" (Rússia), "Corpo e alma" (Hungria) e "The square - a arte da discórdia" (Suécia) - apenas o russo ainda não entrou em cartaz em Pernambuco.

Cotação: bom

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