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opinião

A inovação da obviedade

Quando Nelson Rodrigues lançou “O Óbvio Ululante”, uma seleção própria de suas crônicas publicadas no Jornal do Brasil (Que Jornal!), entre os anos de 1967 e 1968, criou personagens memoráveis a partir dos amigos e inimigos que, invariavelmente, ante à implacável sinceridade do Autor, viravam afetos e desafetos ao sabor de cada escrito. 

O fato é que a sinceridade dói sempre, ao amigo e ao inimigo. Às vezes muito mais ao amigo, que sempre espera o aplauso, ao invés de crítica.

Mas o fato é que vivemos tempos quase iguais, mercê da necessidade de aplauso vivida pela sociedade atual, na qual qualquer crítica social mais ácida, ou até piada, é repreendida como se um crime de “lesa-pátria” ou de “homicídio qualificado”. 

Vivemos uma época, na qual a morte em si, pode passar despercebida, mas se essa mesma morte tiver nascido de algum tema do “hype” do momento, a vítima será eternizada e o algoz entrará para o rol das (in) celebridades da humanidade. 

Outro dia, um amigo, a trocar ideias comigo, me disse que se tivesse que morrer violentamente, que fosse em razão de algum tema nobre do contexto, mas não de um atropelamento, de uma bala perdida, esfaqueado, ou outra morte “banal” qualquer, mas sim em razão de alguma morte aplaudida pela mídia “mainstream”.

Aquelas crônicas de Nelson foram partes de algumas de suas confissões em vida, confissão que somente uma personalidade e espírito maduro seriam capazes de tecer. Primeiro, a sinceridade moral, a despeito do que obrigavam a pensar durante aquela época. 

Segundo a sinceridade intelectual, cuja profundidade era capaz de duvidar de si mesmo, na medida em que somente alguém com profundo respeito por sua própria “mediocridade” é capaz de olhar para si, e para os outros, com o necessário desdém de que tudo o que temos e sabemos, além de transitório, é fugaz.

Por último, a sinceridade da obviedade. Tudo quase sempre é óbvio e, o que fazemos, quase sempre, é esconder o óbvio de nós mesmos e dos outros. Por isso o tema do presente artigo é: “A inovação da obviedade”. 

Precisamos ser inovadores do óbvio. O óbvio de que nem todo discurso veemente é agressão, o óbvio de que nem toda piada é engraçada, o óbvio da nossa falibilidade, o óbvio de que nossa política é entediante, o óbvio da vaidade imperial dos arrogantes morais, não passa de um exclusivismo de conveniência, o óbvio da contingência de vivermos num país periférico e não importante, o óbvio de termos uma casta privilegiada, o óbvio de estarmos numa era de vaidades extremas e por último, o óbvio da morte da palavra a da leitura estarem se perdendo no emaranhado diminuto do vocabulário geral. 

Precisamos de mais Nelson e menos “Gênios da Obviedade”, num mundo onde a palavra “Inovação” modificou rapidamente seu sentido, esvaziando-se na obviedade do impossível modificar o ser humano com “lantejoulas” tecnológicas ou de ambiências legais e descoladas. 

Não, continuamos a ter em nossas vidas e dia a dia, as “Aracy”; “Dona Gema”; “Seu Alcebíades”; “Juju”; “A Estagiária do JB”; “A Grã-Fina de Nariz de Cadáver”; a “Madame Bovarry de Subúrbio”; a “Viregem de 40 Anos”; o “Anjo Pornográfico”; a “Sobrenatural de Almeida”; a “Florzinha de Estufa”; a “Bonitinha mas Ordinária”; a “Santa do Pau Oco”; o “Mártir da Classe Média”; o “Imbecil Feliz”; o “Fofoqueiro de Subúrbio”; o “Canalha Triunfante”; o “Frustrado da Classe Média”. 

O rol tomaria mais de uma crônica, mas o fato é que, todos esses personagens ainda estão vivos em razão de sermos humanos, obviamente humanos, com tecnologias maravilhosas, tipos descolados e inteligentes, mas continuamos humanos, com certezas, incertezas e mentiras convenientes que nos escondem e servem para esconder  outros.  Outros  personagens  “Nelson  Rodriguianos”  estão  nascendo  e desnudam as contradições dos tempos atuais. 

Conheci outro dia uma “Influencer de Alma Vazia”, sempre à caça de curtidas e validação online; não sendo muito necessário lembrar que convivemos com inúmeros “Políticos de Plateia”, capazes de mudar o discurso ao sabor do público.

Tão pouco lembrarmos das “Ativistas de Sofá”, que se indignam digitalmente, mas não se levantam do conforto do lar. E o “Empreendedor Ilusório”, que vende sonhos milionários enquanto mal paga as contas. Quem não vê diariamente a figura do “Intelectual de Memes”, que acha que compreende o mundo com frases de efeito e imagens engraçadas; assim como o “Herói de Rede Social”, que, na realidade, não passa de um covarde, incapaz de enfrentar o olhar alheio ou de reconhecer algum erro? 

Esses personagens, assim como os de Nelson, serviriam para lembrar-nos da nossa própria condição humana, frágil e repleta de obviedades que fingimos não ver. Viva Nelson!


* Advogado

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