E Tapacurá não estourou
Há anos em que fatos marcantes se destacam, se sobressaem, ou deixam forte impressão, lembranças que os fazem ser referidos “tal ano, por tal acontecimento”.
Em 1960 Brasília foi inaugurada; em 61 Gagarin “subiu, subiu, subiu, chegou ao espaço sideral...”; 64 tivemos o primeiro topless, oh!; 65 a minissaia, oh!; 67, o primeiro transplante de coração (o meu ainda permanece o mesmo, Raquel sempre): em 1969, o homem pisa na lua; e em 87 o Sport foi campeão do Brasil, bravo!; em 2008 o Sport é campeão da Copa do Brasil, bravo!; e em 2014 temos o 1 x 7; 2017, bicentenário da Revolução Pernambucana; em 2020, tivemos a pandemia.
As cheias em nosso Estado marcaram os anos de 1966, 1970 e 1975. Sou nascido em 1957 e creio que o fato mais marcante, foi sem dúvida, em ter nascido e vivido no bairro da Boa Vista, na rua Gervásio Pires, 1075, no trecho entre a av. Visconde Suassuna e a rua dos Palmares, local fora do alcance das águas das cheias, mas que alagava com qualquer chuva moderada, que, diga-se, escoava também com certa rapidez. A solução definitiva desse problema deu-se com o alargamento para surgir a av. Mário Melo, ocasião que refizeram a rede de captação das águas pluviais.
Portanto, nossa convivência com as cheias era de “hospital de campanha”, quando recebíamos amigos e parentes que sofreram diretamente os transtornos das enchentes, que, não apenas em relação aos bens materiais, mas sobremaneira na sujeira que o mar de lama deixava.
1966 penso que para nós recifenses a grande cheia foi o fato do ano. Para mim, o envolvimento maior ficou na tensão por causa do meu pai que sendo proprietário de uma lancha com mais três amigos, todos amantes da pescaria, José Farias, José Ferreira Pinto e Arnaldo Dubeux, aventurou-se com a embarcação a socorrer pessoas, não só amigos e parentes, ora os retirando das áreas alagadas, ora levando auxílio como água potável, víveres e remédios.
Saber notícias também dos amigos era outra importância, pois à época a telefonia, além de poucos disporem ficou praticamente cortada. À noite, já me casa e ouvindo as suas aventuras, recordo-me de um fato extranatural que o mesmo narrou, ao ter que mergulhar nas águas turvas para amarrar a lancha que tivera uma pane no motor e, com o auxílio de um bombeiro, ao voltar à embarcação, o marujo que o acompanhava, ao vê-lo todo enlameado notou que o escapulário de Nossa Senhora do Carmo estava limpo e meu pai, ao tocá-lo, percebeu que o mesmo estava seco. Acredito nos santos e anjos e dou o testemunho deste fato miraculoso, só acreditado pela experiência da fé.
No ano de 1970 houve um grande fato, o Brasil foi tri mas a cheia do rio Capibaribe, concomitante com uma tromba d’água, trouxe transtornos imensuráveis. Nossa casa serviu de lar à família do grande amigo e parente Dr. Gustavo Antônio da Trindade Meira Henriques, conceituado clínico geral que com sua esposa, também médica, Carminha, seus quatro filhos, futuros médicos e médicas, mãe e sogra, para lá foram acolhidos.
Neste dia, ao final da tarde e já com as chuvas torrenciais iniciadas, eu e meu irmão Alfredo, com as aulas suspensas, nos dirigimos para casa com as ruas alagadas, e o mesmo caiu em um bueiro aberto, quase causando um acidente grave, mas deixou-o com poucos arranhões e nos aventuramos mais um pouco até que tomamos a decisão de irmos para casa de tio Orlando Neves, irmão da minha mãe e casado com tia Carmem Salazar Neves, esta irmã do meu pai. Ali ficamos para dormir e só voltamos para casa no dia seguinte. Em 1975, além da cheia houve o “estouro de Tapacurá”, notícia que correu como um rastilho de pólvora e a cidade entrou em pânico, como um caminho de formiga interrompido ou uma colmeia destruída.
Foi gente correndo pra todo lado. Minha irmã Sónia deslocou-se da rua da palma até a nossa casa em “segundos”. Dizíamos que ela havia quebrado o recorde mundial de corrida com obstáculos. Meu pai contava que estava em um Veraneio da UFPE (à época, carros de repartição pública federal, eram Veraneio, em 99%) e o motorista subiu pela Praça do Clube Internacional (Praça Euclides da Cunha) com o intuito de chegar ao prédio da Escola Técnica no Derby, pois era uma edificação de 2 andares.
Eu estava na rua Santos Dumont, com meu tio Lucilo Cavalcanti Neves, irmão mais novo da minha mãe, com mais dois primos. Meu tio estacionou o carro na esquina da rua e pediu a uma moradora para subirmos ao primeiro nadar da casa. Fomos atendidos e quase instantaneamente veio alguém de dentro da casa informando que as rádios estavam desmentindo o fato.
Agradecemos e seguimos nosso destino, que era a casa de um outro tio, Zé (José Cavalcanti Neves), que morava na rua Santos Dumont. Ambos os tios sofreram muito na cheia de 1970, a mais marcante por conta que Tapacurá não estourou. Como dito, há fatos que marcam o ano, como há gritos/brados que marcam fatos: “Independência ou morte”, Pedro I; “Eureka”, Arquimedes ao elaborar a Lei do Empuxo; “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”, Winston Churchill sobre a batalha aérea da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial. Agora, quem gritou? Tapacurá estourou! Virou um dos maiores enigmas para a história descobrir.
*Engenheiro Civil, membro efetivo do IAHGP
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