Magdalena Arraes: a Dama da História
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade
Ao redigir esse texto, busco na memória as lembranças retroativas de um passado muito recente. Dou um salto no tempo e começo a inventariar as passagens que me levaram a desejar escrever a biografia de Dona Magdalena Arraes e as marcas ímpares da sua história.
Instigada pelo desconhecimento que os meus alunos tinham sobre Miguel Arraes, o que considerei razoável, uma vez que eram estudantes do Ensino Médio e nos livros de História destinados a essa formação não apresentavam a importância e a magnitude desse grande líder da política regional e nacional.
A maioria desses educandos transitavam por aquele endereço que o homenageava, a Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, porém o máximo que sabiam é que se tratava do avô de Eduardo Campos. Ali se apresentava um grande desafio para esta professora que sempre teve interesse no campo da História Política.
Não tive dúvidas, era hora de convocar os discentes para investigarmos mais a fundo a vida dessa destacada personalidade da política brasileira. Rumamos ao Instituto Miguel Arraes (IMA). Lá nos deparamos com uma profusão de documentos, arquivos, objetos (livros, discos de vinil, CDs, DVDs) e mobiliários pessoais, dispostos pelo ambiente, como a mesa de madeira trazida da Argélia, na qual Miguel trabalhara.
Foi uma festa dos sentidos para mim e para os estudantes. Tudo ali à nossa disposição. Fomos recebidos por Joaquim Pinheiro, sobrinho do ex-governador e que possibilitou tudo que necessitávamos para as investigações.
Após a conclusão dessa pesquisa com os alunos, me tornei voluntária do IMA, porque aquele espaço cheio de memórias, também tinha muita vida e organicidade, ademais eu necessitava explorar mais os arquivos.
Invariavelmente encontrava Dona Magdalena naquele espaço, localizado à Rua do Chacon, no bairro de Casa Forte. Endereço que por muito tempo fora a residência da família, como também local de encontros políticos. Ela conduzia o Instituto com o apoio de Sandra, Sheila, Janete e sua neta Lili, que estava sempre com a avó.
Mada, como era tratada em família, era sempre gentil, educada, receptiva e afetuosa contava histórias desconhecidas pela maioria das pessoas, mas que ela tinha vivenciado. A cada palavra que dizia crescia em mim a curiosidade de saber mais. Que memória prodigiosa, o passado estava ali inteirinho, preservado. Quantas histórias guardadas, eu pensava.
Movida pelo interesse de saber quem era Magdalena, antes de ser Magdalena Arraes, qual era a sua história? Dizia para mim mesma: sua vida tem de ser registrada, tem de ser contada. Seus modos, seus gestos, sua força, sua vitalidade desafiavam a idade cronológica e alimentavam cada vez mais a nossa curiosidade de saber quem era aquela mulher?
Antes que a sua memória se esmaecesse ou desbotasse pelo tempo em função da idade já avançada ou se perdesse nas brumas do desinteresse, obtivemos a autorização da família, para escrever sua biografia. Para a tecitura da obra, recorremos às conversas, cartas, músicas, livros, fotografias e objetos pessoais.
Dona Magdalena nos conduzia por trilhas que só ela identificava. Narrava com exatidão suas vivências juvenis, as viagens a Paris e a ocasião em que conhecera Miguel, viúvo, na casa da amiga e futura cunhada, Violeta Arraes. O casamento aconteceu em 1962. Adotou e foi adotada pelos oito filhos de Arraes e tiveram juntos mais dois.
Detentora de conhecimentos sobre acontecimentos políticos e sociais do Estado de Pernambuco, do Brasil e do exílio. Ela viveu o lado de dentro dos anos terríveis da ditadura militar. Esteve com Miguel nos momentos mais duros e cruciais, o esteio da família nesses tempos turbulentos. Foi remanso e lugar de descanso, quando parecia que tudo ia ruir.
Ouvir e adentrar nas reminiscências de Mada, especialmente quando se tratava do período do degredo foi-nos doloroso e igualmente emocionante. Era razão mais do que suficiente para escrever uma história que não se encontrava em discursos já oficializados.
Paul Auster dizia que a memória é o espaço em que uma coisa acontece pela segunda vez. E pudemos constatar o brilho nos olhos, a emoção evidente, os risos, as expressões compenetradas enquanto contava aquele tempo incomum em Pernambuco, no Brasil, em sua vida e na vida da família. Posteriormente o período na Argélia, onde receberam asilo político.
Não levaram os filhos, a viagem oferecia riscos e não tinham certeza do que encontrariam no estrangeiro.
Magdalena foi uma mulher singular, desempenhando papéis plurais: esposa, mãe e primeira-dama. Cargo que ocupou por três vezes, condição única no nosso historial. Culta, discreta, simples, elegante, gentil e afetuosa. Não maldizia o passado, tampouco, se ressentia dele. Apenas nos conduzia por aqueles caminhos que demarcaram a fronteira do tempo e a sua história.
Abraçou o povo simples, os necessitados. Seu compromisso era com os mais pobres e desvalidos. Suas ações e projetos fizeram a diferença na vida de muitos pernambucanos. Da zona da mata ao sertão; do agreste ao litoral. Deixa um legado inextinguível. Destaco aqui sua marca na Cruzada de Ação Social. Além da sua grandeza, a saudade em cada um dos filhos, netos, bisnetos, familiares, amigos e admiradores.
Registrar sua História foi um grande privilégio. O livro foi escrito em parceria com o jornalista, cartunista e chargista Lailson de Holanda Cavalcanti. Tivemos a colaboração dos filhos Mariana e Pedro, que se dispuseram a contar os acontecimentos a partir das suas experiências e percepções. Entretanto o empenho da sua neta Elisa Arraes foi fundamental para a existência desse compêndio.
Obrigada, Dona Magdalena!
*Historiadora e poetisa