OPINIÃO

Umbuzeiro

O ponto mais alto da cidade era a torre da igreja, de lá o sino tocava e dava as notícias de quem morria, das badaladas para chamar os fiéis para as missas, era utilizado como relógio, já que não tinha nenhum na cidade.

Assim, o homem que o tocava, um velhinho que morava nas imediações da igreja, com o ofício de sacristão, merecia o encargo de tocar as horas. A luz elétrica era acesa pelas dezoito horas e o bom velhinho ia à igreja às 21 horas e tocava nove pancadas no sino, avisando aos moradores que eram nove horas e, que, portanto, só restavam mais uma hora para o motor da energia ser desligado.

Quem estava fora de casa, empenhava-se em retornar, principalmente as moças que não ficavam expostas ao escuro noturno.

Agora, o que me toca, igual o sino da igreja, é uma árvore, qual guarda-chuva gigante, aberto sob o sol, mas sem o pano nas suas hastes, todavia forte como a casca seca de seus galhos e sinto orgulho de ser sertaneja.
O símbolo do sertão resiste à seca e espera, pacientemente, pelas chuvas, quando se veste de milhares de folhinhas e cachinhos de flores brancas, perfumadas, trazendo um fruto que supre a fome do seu povo. 

O umbuzeiro que tem minha atenção está seco, sem nenhuma folha. O sol está a pino e as sombras de seus galhos nus refletem-se no solo esturricado, qual esqueleto a assombrar o homem, que pôs um toco de árvore, simulação de cadeira, como se quisesse aí, sentar-se e abrigar-se do calor. Porém cadê sombra? Cadê aquele vento que ele esperava sentir no rosto cheio de riscos e seco igual à terra que ele cultiva?

Ele pensou que só bem abaixo do solo de onde ele pisava, na raiz do umbuzeiro era que estava tudo fresco, com água. Esse grande umbuzeiro, esparramado, qual gato, em teto de folhas de coqueiro, nascido há tanto tempo, talvez há mais de meio século, mantém o equilíbrio sob seu tronco rijo e seco. Não é a toa que Euclides da Cunha a chamou de "árvore sagrada do Sertão". 

O mês está a findar-se, o homem de matulão nas costas, cansou de arrancar toco. Quer ver a floração do umbuzeiro, pois as primeiras chuvas estão a prenunciar-se no horizonte, ora limpo de nuvens. 

Só o calor escaldante o leva a acreditar que elas em breve chegarão e então, mesmo sem estar enfolhada, as flores do umbuzeiro transformar-se-ão no mais suculento fruto, que nasce nessas caatingas, de ar quente, calor sufocante, mas com o solo favorável ao plantio desse tipo de árvore.

O homem, paciente, espera pelo umbu "de vez", para chupar e comer, com a casca, desprezando o caroço, num esgar, que parece uma careta, por ser agridoce, também ele o usará para fazer uma deliciosa umbuzada, a ser tomada no seu jantar, quando a brisa virá no primeiro balançar das folhas da noite que se esfria, como as raízes do grande umbuzeiro, fortaleza dessa terra que abriga homens fortes e perseverantes qual a árvore símbolo desse sertão que abriga o povo na terra.
 
RUSTICIDADE CRUEL

Nas pedras descobertas no Sertão esquecido,
Sem vegetação que as cubram, vê-se a olho nu,
Sujas de barro cru, as locas onde se escondem preás, punares e outros bichos comuns, nos carrascais sertanejos,
Que se furtam do sol impiedoso que os queima.
Nesse mundo tão grande sobra espaço até para se tirar leite de pedra.
Ou é leite do aveloz?
O preá e algumas aves matam a fome de tantos homens,
Que se espremem para viver
E ainda, são considerados parias da sociedade.
E são homens honestos, simples, que não roubam, nem envergonham,
Mas que são considerados, por alguns, imprestáveis e preguiçosos.
Esses homens não exigem nada, mas esperam mudanças verdadeiras.
Nos espíritos empedernidos e arrogantes daqueles que podem ajudá-los.
A sair dessa vida escondida, ornada de cactos e mulungus,
Eles também plantam seus sonhos na paisagem altiva que se agiganta a cada ano.
O descaso com o desnecessário incomoda a quem não está acostumado a viver com tão pouco e, como dizia Patativa do Assaré: “Sou fio das mata, cantô de mão grossa, trabaio na roça, de inverno e de estio, a minha chupana é tapada de barro, só fumo cigarro de paia de mio”.
E nesse viver, o homem espreita o preá, que lhe escapa e sobrevive mais um pouco.
A rolinha voa e despista o alvo certeiro. Não é levada dentro de um bornal, morta. 
Restando a estes homens, muitas vezes, as vagens de mucunãns, para serem comidas de gente que aguarda com pratos limpos, por algo que lhe caia do céu.
Esse sim, é o povo bronze, pintado em cinzel, crente, que perambula nesse solo de pereiros, caatinga, aveloz e cactos, cocada de coco queimado, corajoso e astuto, consciente de suas limitações, gigante em suas emoções.

*Advogada

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